A vida em outro compasso na Zona Sul

Zona Sul de Porto Alegre parece funcionar em um ritmo diferente da "selva de pedra" da cidade

Pinheiro Machado no refúgio em Ipanema, onde curte a vida e grava seu programa semanal
Pinheiro Machado no refúgio em Ipanema, onde curte a vida e grava seu programa semanal Foto: Adriana Franciosi

À medida que a tarde cai, as cores do céu anunciam o momento sublime do dia. O sol, que de amarelo fica laranja e depois vermelho, muda os matizes que refletem na orla. Na beira da praia, as pessoas caminham, conversam, petiscam, tomam chimarrão, sorvem o tempo em um lento compasso. Até que a noite se apresenta, por trás dos galhos espalhados de alguma figueira, prometendo descanso, tranquilidade ou, quem sabe, mais emoção.

Não, a descrição deste momento não remete aos recantos do nosso — ou de qualquer outro — litoral. A paisagem se repete aqui mesmo, em Porto Alegre, à revelia de todos os congestionamentos, atrasos, horários, correrias e compromissos. É a Zona Sul da cidade, que parece funcionar em outro ritmo. Selva de Pedra? Não neste lugar.

— Aqui não é Porto Alegre — dizem os moradores da região, entusiasmados com o lugar em que pessoas e natureza conseguem uma aproximação mais efetiva e onde a vida pode, segundo eles, ter um vaivém mais lento e prazeroso.

— Aqui não é Porto Alegre — dizem os visitantes, que ao topar com a orla do Guaíba, as ruazinhas, a vegetação e com tudo o mais, surpreendem-se por descobrir um recanto ainda desconhecido da capital que todos estão cansados de conhecer.

— Aqui é Porto Alegre — dizem os mapas, os sites, os limites geográficos.

E diz a reportagem de Donna, que aceitou o desafio de especular os motivos pelos quais tanta gente se encanta pela região sul da cidade e muda todo o estilo de vida para morar lá. Para isso, ouvimos alguns moradores da Zona Sul, para que expliquem por que, afinal, esse lugar é tão especial. Mais do que residentes, eles são apaixonados, empolgados, embaixadores até. Em qualquer papo, não deixam de comentar que moram em uma Porto Alegre diferente, cheia de astral e estilo _ e que não trocam de endereço por nada neste mundo.

Um refúgio verde com serviços à disposição

Voltaremos! Ele ainda não tinha forjado o jargão que hoje caracteriza seu programa de televisão, mas já sabia que voltar era um verbo que sempre poderia ser conjugado na Zona Sul de Porto Alegre. Em 1972, quando a família de José Antônio Pinheiro Machado, o Anonymus Gourmet, comprou uma casa em um grande terreno a poucos metros da orla do Guaíba, em Ipanema, a paixão pelo local foi imediata.

— A grande transgressão do grupo de amigos nos tempos de faculdade era, nos finais de noite, depois de alguma festa, tomar banho de rio na Vila Conceição ou Ipanema. No verão, a água era agradável e muito limpa, era um momento maravilhoso — lembra.

Em função do jornalismo e da advocacia, Pinheiro Machado morou em outros bairros, outras cidades, outros países. Mas assim que pôde, em 1998, estabeleceu-se definitivamente no casarão da família em Ipanema. No refúgio cercado por árvores centenárias ele curte a vida e até grava seu programa semanal de culinária. Feliz por estar no lugar que, para ele, é o melhor de Porto Alegre, garante que não quer sair de lá.

 
Apresentador cuida da horta que tem nos fundos da casa
Foto: Adriana Franciosi

— A Zona Sul fica perto do Centro e tem tudo o que nós precisamos. Bons shoppings, com excelentes livrarias, onde vou com o meu neto, e a orla mágica do Guaíba, onde faço minhas caminhadas diárias.

O Guaíba, aliás, é o principal charme da Zona Sul, segundo Pinheiro Machado. A presença da água, o ar fresco e a beleza da orla fazem desta região um local único, diferente de todo o resto da cidade. Preservadas, as casas antigas e as árvores completam o cenário. Sem a alta concentração de prédios que se vê em outros bairros, a região preserva um ar bucólico, nostálgico até.

— Antigamente, era uma excentricidade morar aqui. Hoje temos bons restaurantes, shoppings e todo o resto, no mesmo cenário que, há décadas, servia para o veraneio das famílias. Não me imagino vivendo em outro lugar.

Vida que recomeça com vista para o Guaíba

As primeiras lembranças da decoradora e paisagista Thaís Kraemer Saigh têm a Zona Sul de Porto Alegre como cenário. Moradora da Vila Assunção desde que nasceu, deixou a cidade para viver em São Paulo e nos Estados Unidos com o marido. E passaram-se 20 anos de distância, tempo em que a capital mantinha-se viva nas lembranças e se reinventava a cada visita. Até que a tristeza pela morte precoce do companheiro não deixou outra alternativa para Thaís e o filho, Pedro: era preciso voltar.

— Lembro da primeira noite que passamos aqui, depois de ter voltado. Acordei, olhei a paisagem e senti como se nunca tivesse saído. Foi o nosso recomeço — conta.

É na janela do apartamento onde mora que Thaís carrega as baterias para o dia. As amplas vidraças deixam entrar a vastidão do Guaíba, ornada pela antiga vila dos pescadores e por parte do centro da cidade, que se vê ao longe. Do lado de fora, um pequeno universo espera por ela todos os dias. Entre as rotinas que normalmente cumpre nos momentos de folga estão a visita à feira de orgânicos na Praça da Igreja da Tristeza, uma caminhada no calçadão de Ipanema, o almoço em algum de seus restaurantes favoritos e uma olhada no shopping.

Acompanhá-la em um rápido passeio é conhecer um pouco mais da região. Os veleiros lembram da infância de Thaís, curtida nas aulas de vela e nos passeios promovidos pelo Clube Jangadeiros. Ao passar ao lado da Igreja Nossa Senhora da Assunção, ela logo lembra do casamento, celebrado ali. No outono, o amarelo dos plátanos da Vila Conceição lhe dão inspiração para o trabalho como paisagista.

E foi para falar de inspiração para o trabalho que Thaís abriu as portas de um de seus locais favoritos na Zona Sul. A Floricultura Winge, instalada na rua Mário Totta há mais de cem anos, já foi uma chácara e hoje vende flores, plantas e artigos para jardinagem.

— Venho aqui mesmo que não tenha que trabalhar. O contato com as plantas, com as flores e com as pessoas me dá ideias, me ajuda na criação dos projetos e me deixa feliz — comenta.

Segundo Thaís, a natureza mais preservada e um certo ar nostálgico, de coisas antigas conservadas no tempo, dão à Zona Sul todo o charme. Tanto que, depois de quatro anos, ela e o filho não pensam em sair.

— A vida aqui tem outro ritmo, pois as pessoas fazem questão de ter mais tempo para aproveitar o lugar. Por isso, não quero mais sair. Esse é o meu lugar — completa.

Endereço dos sonhos

No ateliê que fica na parte superior da casa, Mariza Carpes, 62 anos, recicla materiais, pinta, costura e transforma quase tudo em arte. No piso inferior, Alan Asquith, 77, prepara scones ou yorkshire puddins para acompanhar o café fresquinho. No pátio, o canto dos sabiás e das carochinhas faz a trilha sonora de uma tarde qualquer na vida do casal que, há anos, escolheu viver na Zona Sul de Porto Alegre.
Mariza é natural de Santa Maria e, já adulta, conheceu a região através de um amigo.

— Ele morava perto do rio, tinha uma vista maravilhosa e muita vegetação em torno da casa. Depois que vi aquela casa pela primeira vez, nunca mais parei de pensar em viver na Zona Sul — conta.

Depois de procurar obsessivamente um lugar para fixar-se na região, comprou um casarão construído no final da década de 1940 que estava parcialmente abandonado. As reformas consumiram anos, mas deixaram o espaço exatamente do jeito que ela queria. No curso de mestrado na Ball State University, nos Estados Unidos, Mariza conheceu Alan, ex-professor da área de Educação Física da Universidade de Oxford, que então dava aulas na Ball State. O amor dos dois trouxe o inglês para a Zona Sul de Porto Alegre.

Hoje, a união de 18 anos tem o cenário ideal no casarão da Vila Assunção que Mariza tanto reformou. E é justamente esta casa cheia de histórias o lugar preferido dos dois. Para eles, estar na Zona Sul é bom; estar em casa, é ainda melhor.

— Estamos aposentados, mas nunca deixamos de lado nossas paixões. Eu continuo produzindo arte, inspirada pelo silêncio e pela tranquilidade que temos aqui. O Alan aproveita a piscina de casa para nadar e a beleza das ruas para caminhar. E como caminhamos! — observa.

Fora dos muros, os dois também curtem o que chamam de bairro com cara de cidade pequena. Passear na orla do Guaíba, comer nos restaurantes favoritos ou meditar nos arcos de Ipanema são alguns dos programas que o casal não dispensa. Mas logo confessam que, bom mesmo, é voltar para casa.

— Quando passamos pela frente da Fundação Iberê Camargo já sei que estamos perto de casa. Disfrutar do nosso espaço, observar a natureza que floresce no quintal, reunir os vizinhos para um happy hour ou simplesmente ficar em casa é o que nos encanta.

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