A vida sem babá nos países nórdicos

Dinamarca e Islândia contam com facilidades que os brasileiros podem apenas admirar à distância

Anna Lena Almqvist é pesquisadora do assunto na Suécia
Anna Lena Almqvist é pesquisadora do assunto na Suécia Foto: Arquivo Pessoal

O futuro que se desenha para o Brasil já é realidade nos países nórdicos, onde babá é artigo tanto na oferta quanto na procura. Mas pais e mães de países como Dinamarca e Islândia (que já foram considerados os com melhores políticas para trabalhadores com filhos) contam com facilidades que os brasileiros, por ora, podem apenas admirar à distância.

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Para apontar o que os países nórdicos têm a ensinar, Donna entrevistou três professoras e pesquisadoras em temas relacionados ao cuidado das crianças: Nabanita Datta Gupta, da Escola de Negócios e Ciências Sociais da Universidade Aarhus, na Dinamarca, Gudny Björk Eydal, da Faculdade de Serviço Social da Universidade da Islândia, e Anna-Lena Almqvist, da Escola de Saúde, Cuidado e Bem-estar Social da Universidade de Mälardalen, da Suécia. E as lições começam já na trajetória que elas traçam para explicar como esses países tornaram-se referência: incentivada pelo movimento feminista, a discussão sobre políticas públicas para igualdade de gênero e para conciliar filhos e carreira teve início a partir da entrada das mulheres no mercado de trabalho, nos anos 60, marcados pela explosão do setor público. E foi convertendo-se em ações nas décadas seguintes.

– A expansão da política de bem-estar deu-se par a par com os grandes investimentos em serviços públicos de cuidado para crianças na pré-escola. A expansão dessas políticas levou os impostos nesses países a um dos maiores índices internacionais, mas os nórdicos estão entre os países mais ricos mundo – analisa Nabanita.

Em discussões e ações coordenadas entre diferentes governos, destaca Gudny, a ênfase foi primeiro garantir condições iguais para homens e mulheres no mercado, depois em ações concretas para ambos poderem participar no cuidado das crianças. O resultado foram licenças parentais compartilhadas e um sistema público de pré-escolas subsidiadas de alta qualidade, que atrai em massa a classe média.

– Deve-se destacar, entretanto, que as licenças parentais em todos os países nórdicos têm aumentado nos últimos anos e, como consequência, a cobertura dos serviços públicos de cuidado com as crianças têm diminuído – pontua Nabanita.

Confira a seguir os benefícios e arranjos dos pais de Dinamarca, Suécia e Islândia para cuidar dos filhos em um cenário em que babás praticamente inexistem: você verá situações de causar inveja e também que, mesmo lá, não faltam queixas, como a sobrecarga feminina.

Licença para pais e mães
Na Suécia, mais do que licença-maternidade ou paternidade, fala-se de licença parental – para destacar a igualdade de gênero na política familiar, que rege também os demais países nórdicos. Trata-se do esforço do Estado em proporcionar à criança os cuidados de pai e mãe – ainda que elas invariavelmente fiquem com maior parte da licença. Para os suecos, o período oferecido é de 480 dias (pagamento de 80% do salário em 390 dias e um valor fixo para os demais), dividida entre mãe e pai, sendo possível um ceder 180 dias ao outro – o que muitos homens fazem. A licença parental pode ser usada até os oito anos da criança (sendo que a mãe deve tirar 14 dias e o pai 10 no período do nascimento), mas geralmente os pais usufruem do benefício ainda na primeira infância do filho. Em um estudo, a pesquisadora Anna-Lena Almqvist observou que, na decisão do casal, a mulher ainda tem a prioridade na divisão da licença. Na Islândia, que oferece licença remunerada de nove meses (três para a mãe, três para o pai e mais três repartidos entre eles), a pesquisadora Gudny Björk Eydal também verificou que as mulheres dedicam mais tempo ao cuidado do filho nos primeiros anos de vida: os pais que tiraram três meses de licença mostram-se mais atuantes no cuidado da criança, mas, na maioria dos casos, é a mãe que trabalha menos horas ou fica em um emprego de meio-turno até o filho completar dois anos. Na Dinamarca, a licença é mais curta: para a mãe, quatro semanas antes do nascimento do bebê e mais 14 semanas depois, e ao pai, duas semanas neste período. Depois, mais 32 semanas, divididas entre eles. Funcionários públicos recebem o salário integral, e os do setor privado precisam negociar o valor. Há ainda direito a outras licenças, como, por exemplo, se o filho adoecer.

Serviços públicos de cuidados com a criança
Um dos principais eixos das políticas para cuidado das crianças nos países nórdicos são pré-escolas públicas subsidiadas e de alta qualidade: o Estado atua fortemente na regulamentação e na fiscalização dos serviços e da formação das equipes de trabalho. A razão de profissionais por criança nesses estabelecimentos é um indicativo da busca de excelência: de 1 para 6 na Dinamarca, país de referência no que diz respeito a prover o cuidado das crianças de até dois anos – em parte devido ao fato de que a licença parental é mais curta lá do que nos demais países nórdicos.

Nos anos 1990, Suécia e Islândia passaram por reformas nos currículos e ações para dar ênfase aos aspectos pedagógicos e educacionais das pré-escolas públicas, que abrangem boa parte das crianças que ainda não atingiram a idade escolar. Estimativa de 2009 apontava que 82% das crianças entre um e cinco anos frequentavam a pré-escola na Suécia – a solução preferida da classe média

Mas há peculiaridades locais. O desafio hoje dos pais islandeses é como cuidar dos filhos entre o fim da licença para pais e mães (nove meses) e o momento em que eles podem entrar nas pré-escolas públicas, aos dois anos. Uma solução são os chamados family day care – um serviço subsidiado e regulamentado pelas municipalidades, presente também em outros países nórdicos. Consiste em uma pessoa que, preenchendo determinados requisitos, é autorizada a cuidar de crianças em casa – inclusive a sua. Na Suécia, onde um pequeno número de crianças está inserida nesse serviço, a opção é cada vez mais desencorajada, porque as mulheres que cumprem essa função usualmente têm salários menores e menor qualificação.

Para crianças em idade escolar, ha opções subsidiadas no turno inverso da aula na Islândia e na Dinamarca.

Babás para poucos
Como a grande maioria das crianças estão na pré-escola, babás resumem-se basicamente a uma opção das famílias ricas para o turno oposto à escola e finais de semana. As cuidadoras são fundamentalmente estrangeiras: segundo levantamento, há cerca de 2,8 mil au pairs na Dinamarca, a maioria vinda das Filipinas. Lá, o Estado regula a atividade, estabelecendo pagamento mínimo, máximo de 30 horas de trabalho por semana e o perfil da profissional (entre 17 e 29 anos, não casada, sem ter filhos, que fale inglês ou um idioma europeu). Mas há ainda famílias que recorrem eventualmente a baby-sitters e au pairs.

Na Suécia, as au pairs permanecem um ano, oficialmente como intercâmbio cultural, sem os direitos de um trabalhador do país. Como os suecos têm ainda a possibilidade de trabalhar meio-período até o filho completar oito anos, quem recorre a babás são pais que trabalham longas horas e precisam de alguém que busque o filho na escola e lhe dê o jantar – geralmente são famílias abastadas. Mas lá recentemente se deu um debate ainda impensado no Brasil sobre serviços domésticos: ter alguém limpando sua casa não seria como um retorno às sociedades agrícolas em que as filhas de famílias pobres serviam as famílias ricas? Em função disso, o governo instituiu em 2007 a dedução de impostos por serviços domésticos, e ,a partir daí, mais famílias contam com ajuda profissional, geralmente uma mulher da Polônia ou de outros países do Leste Europeu, que limpam a casa toda semana. Mas essa prática não é tão comum no que diz respeito a cuidar de crianças.

Na Islândia, explica a pesquisadora Gudny Björk Eydal, não há tradição de babás profissionais – em geral, as famílias de classe média preferem as pré-escolas públicas.

Divisão de tarefas
Há dois anos, a Islândia está no topo do ranking mundial de equidade entre homens e mulheres. Lá, afirma Gudny Björk Eydal, pais de fato se interessam pelo cuidado com os filhos e em se engajar nas demandas por igualdade entre os sexos, mas ainda há conquistas a fazer, como profissões que ainda são predominantemente femininas ou masculinas. Assim, mesmo nos países nórdicos, com histórico de defesa da igualdade de gênero, as mulheres ainda querem maior equilíbrio de direitos e deveres, seja no trabalho, seja em casa.

Em recente estudo comparativo realizado na Dinamarca e nos EUA, 32% dos homens americanos pesquisados disseram não fazer nenhum trabalho doméstico contra somente 14% dos dinamarqueses. Entretanto, segue na Dinamarca o que Nabanita Datta Gupta chama de “especialização”: mulheres geralmente se encarregam da cozinha e da limpeza, e eles, do jardim e da manutenção da casa. É a mesma divisão que Anna-Lena Almqvist destaca na Suécia, onde as mulheres gastam mais horas por semana em tarefas domésticas do que os homens. Em estudo sobre pais em licença-paternidade, a pesquisadora destaca que cada vez mais o cuidado dos filhos pequenos se torna compatível com a visão contemporânea de masculinidade entre os suecos, menos questionado pelos empregadores e cada vez mais incentivado pelos amigos e, claro, pelas mulheres. Mas, acrescenta Ana, embora cientes de que precisam incrementar seu envolvimento nas questões da casa, este envolvimento masculino tem sido mais em relação aos filhos do que às tarefas domésticas.

O papel das avós
Como em qualquer lugar do mundo, as avós – e os avôs – dão uma mão quando o neto nasce ou adoece, ou quando os pais têm um compromisso. Mas, em geral, nos países nórdicos, justamente por muitos seguirem no mercado até aproximadamente os 70 anos, os avós não costumam ter um papel fundamental no dia a dia das crianças.

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