Alta-costura (e altos preços) para crianças: essa moda já pegou

O "vestidinho" de seda da grife infantil de Marc Jacobs sai por módicos 200 euros
O "vestidinho" de seda da grife infantil de Marc Jacobs sai por módicos 200 euros Foto: BergdorfGoodman.com, reprodução

Eis um perfeito vestido de festa de inverno. Tem a gola franzida da estação, estampa verde e vermelha e é feito de seda fina com uma bainha fluida. Resumindo: é um vestido para se divertir usando.  Por 200 euros, o preço parece um pouco salgado, especialmente se você levar em consideração que este minivestido de Marc Jacobs, especificamente, é mais míni do que a maioria: é para alguém de dois anos de idade.

O mercado de roupas infantis está bombando. A cada semana surgem novas notícias de mais um lançamento de peso. Apenas nos últimos meses, Stella McCartney criou uma linha para a Gap Kids (com um suéter com estampa de leopardo custando 80 libras), a French Connection entrou no mercado de roupas para bebês e a loja online Asos lançou sua própria marca de vestuário infantil. Este ano, Jean Paul Gaultier colocou crianças em sua passarela para marcar outro lançamento, e nos últimos 18 meses a Burberry abriu sete butiques infantis, todas com pisos de carvalho, mobília branca e provadores cromados. Quando é que a melancolia virou um look apropriado para crianças?

– Todos pensam nisso em algum momento, exceto Chanel – garante Marie Soudre-Richard, fundadora da Little Fashion Gallery, o equivalente infantil à Netaporter, que quase teve esgotado o estoque daquele vestido estampado Marc Jacobs.

Ela bem sabe: tem influência suficiente para se negar a vender Burberry (aquele xadrez ainda é um tanto problemático) e Jean Paul Gaultier (brilho demais), e para fazer Ralph Lauren esperar até que seus designs se adaptassem à imagem de sua butique. Mas por que, afinal, o vestuário infantil virou o foco de tanta atividade varejista?

– Faço compras para meus filhos incansavelmente – diz Lorraine Candy, editora da Elle e mãe de Sky, Gracie and Henry.

Ela compra pelo menos duas coisas por semana para eles, e isso é o dobro do que a maioria das colegas dela compra pra si própria.

– Meu mais velho tem sete, o mais novo tem três. Há cinco anos eu não tinha nem de longe as mesmas opções que tenho agora. E a cada vez que você vai às lojas, há coisas novas para ver. É a novidade, o fator “que graça!” de tudo. Você pensa: “Olha aquilo!”. É Stella McCartney, mas em miniatura. Há algo de brinquedo nisso tudo.

Comprar roupas para crianças é compulsivo para alguns – uma versão turbinada da “fast fashion”, em que não apenas as temporadas e a busca por novidades nos impulsionam, mas também a taxa de crescimento de nossas crianças: antes que algo os canse, não serve mais neles. Nesse contexto, fazer compras deixa de ser frívolo para tornar-se um ato de responsabilidade paternal. Dá para imaginar como isso sai caro. Nesse universo, a notícia de que Bonpoint, a maison francesa de design, está planejando uma linha de cosméticos infantis não é nenhuma surpresa, já que eles já vendem uma fragrância para crianças (47 libras).

É fácil repudiar tais inovações como excessos do topo de cima do mercado. Mas perfume para bebês é mesmo algo mais bobo do que o par de calças saruel de tecido com efeito molhado à venda para piás de dois a oito anos na Asos? Agora há excessos por todos os lados: roupas infantis de cashmere, até então consideradas uma insensatez de butiques caríssimas, agora estão em liquidação na Benetton e até mesmo na H&M (o templo mundial da fast fashion).

O vestuário infantil tornou-se um mercado maduro, afirma Maureen Hinton, analista de varejo para a Verdict Research, que coloca seu valor total em pouco mais de 4 bilhões de libras. Matalan, Marks & Spencer e Mothercare estão todas registrando crescimento ano após ano. As vendas da linha infantil John Lewis crescem 30% anualmente.

Estranhamente, à medida em que o mercado cresce, os refúgios para aqueles em busca de gastos mais razoáveis estão ficando cada vez mais raros. Os lugares em que os pais fariam compras para si – Benetton, Gap, Zara, por exemplo – são comparativamente mais caros em relação às roupas de criança. Assim, você teria de gastar 17,90 libras por uma linda camisa branca com gola franzida para sua filha na Benetton, mas compraria algo similar para si mesma por desproporcionais 32 libras. Uma mini-saia xadrez para meninas custa 23 libras na Zara – o que não é exatamente um preço baixinho.

– Essas lojas entraram no mercado infantil por ser uma extensão natural da moda adulta – aponta Hinton. – Especialmente se você está construindo uma marca familiar. Se uma loja é especializada em moda feminina e quiser acrescentar mais uma linha, é fácil investir em “minimulheres”.

Frase que deixa Marie Soudre-Richard perplexa:

– É bastante negativa. E não acho que o que descreve seja negativo – diz ela. – Não é negativo vestir seus filhos em um estilo similar ao que você se veste. É simplesmente natural.

E poderia haver um certo grau de sexismo nesse papo de “minimulheres”? Quando Albert, filho de Jarvis Cocker, foi à premiére de O Fantástico Sr. Raposo (que estreia no Brasil no próximo dia 4 de dezembro)vestido com uma camisa roxa, blazer e óculos de armação preta, ninguém condenou o pai por impingir seu estilo de se vestir na criança _ como fizeram quando Daniella Westbrook vestiu sua filha de xadrez Burberry há muitos anos. O que as fotografias dos Westbrooks e dos Cockers provam juntas é que há algo impulsivo em replicar e miniaturizar o design de adultos.

Não nos divertimos desde sempre à visão de crianças brincando com roupas além de sua idade? A caixa de “fantasias” de brincadeira da minha família, nos anos 1970, continha um sobretudo de cetim preto rendado com capuz que minha avó usara nos anos 1920 e vestidos vários centímetros compridos demais: o tamanho fazia parte do divertimento. É a miniaturização de designs adultos – e a pequenez de nossas crianças vestidas em roupas estilo adulto – que chama a atenção e nos deleita. É por isso que fotos de Suri Cruise, de três anos, usando mini sapatos de salto alto atingem o mesmo instinto de sorrir do que o retrato de 350 anos As  Meninas, de Velazquez.

– Sempre houve conexões entre roupas de adultos e de crianças – diz Noreen Marshall, curadora da coleção de roupas infantis do museu Victoria & Albert, em Londres, desde 1978.

No Museu da Infância, em Bethnal Green, a leste de Londres, onde fica o escritório de Noreen Marshall, ninguém para para olhar os pobres manequins vestidos em duros trajes de veludo e sedas empertigadas. Fale com os pais aqui e é difícil descobrir quem está gastando o dinheiro que atrai tantas marcas ao vestuário infantil.

Girando a direção do carrinho de polícia de brinquedo está Eden-Lotus, de quase dois anos. A mãe dela, Jade D’Cruz, diz que nunca comprou um vestido para a menina, porque são muito caros, e que basicamente compra em liquidações. Mas sua filha, de saia comprida (garimpada numa liquidação) e suéter azul da Zara (com mangas muito longas dobradas para que o blusão dure), parece estar caríssimamente vestida. Olwen Coweg, cujos filhos brincam por perto, compra roupas para eles no eBay e na Gap. Kate Lethaby e Sharon Barker, cada uma com uma filha de oito meses, frequentam grandes magazines em época de liquidações. A única pessoa que admite grandes gastos em pequenas roupas é Marcus McInerney – que, apesar de ter cinco filhas, se diz feliz em gastar 80 libras em um vestido de festa porque “vale o que você paga”. Entretanto, essa constatação vem após uma longa pausa para pensar e a confissão de que “minha mulher é quem faz as compras”.

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