Ana Botafogo vence a batalha dos anos fazendo o que mais gosta: dançar

Bailarina desde os 18 anos, Ana Botafogo faz confissões sobre envelhecimento e arte

Foto: Jefferson Botega

Ela tem sucesso, reconhecimento, talento. Mas o tempo cobra seu preço, especialmente de alguém que depende do desempenho do corpo. Por hora, a primeira-bailarina Ana Botafogo vence com maestria a batalha dos anos e as tragédias da vida fazendo aquilo que mais gosta e mais sabe fazer: dançar

Essa história de só a bailarina que não tem defeito, da música Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque, não combina muito com a maior estrela da dança clássica brasileira, a primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Ana Botafogo. Procurando bem ela tem medo de cair, tem apetite para comer de tudo, tem dores todos os dias e tem remela quando acorda às seis da matina. Só uma coisinha a bailarina não tem: tempo.

Por mais que Ana tenha ludibriado o tempo para passar dos 50 anos ativa (a idade precisa ela reluta em revelar), com um corpo impecável e dançando os balés mais exigentes, ela sabe que terá de prestar contas à idade, mais cedo ou mais tarde. Um dia terá que parar de dançar, encontrar um novo sentido para sua arte, conviver com um corpo saudável, porém limitado. Terá que envelhecer, enfim. Mas quando?

– Uma bailarina não pode ficar velha nunca! – exclama Ana, orientando o fotógrafo Jefferson Botega, que produziu as imagens que ilustram esta reportagem, para que tomasse cuidado com os efeitos da luz em seu rosto.

O tempo vai chegar para Ana, mas não como chega para todos os demais. Pelo menos não enquanto ela puder enganá-lo, surpreendê-lo. Como não tem tempo, a bailarina também não tem cansaço, preguiça, acomodação. Dedica-se à profissão com o mesmo afinco e disposição que tinha aos 18 anos, quando começou a dançar profissionalmente, na França. Todos os dias, faz uma hora e meia de aula de balé no Theatro Municipal (sim, a Ana Botafogo ainda faz aulas, com uma professora), ensaia o espetáculo que estiver em cartaz por quatro horas e ainda pratica Pilates e fisioterapia.

Folga no domingo? Sim, a bailarina quase sempre tem.

– Meu corpo é uma máquina bem trabalhada e sempre fui boa de manutenção – ela conta e sorri. – Tive muito cuidado com a prevenção de lesões. Por isso tenho 36 anos de carreira com a mesma energia.

O pequeno corpo de 45 quilos espalhados com harmonia milimétrica em 1m60cm sustentou a imagem de artista vigorosa e capaz de executar movimentos de grande dificuldade. Prova é sua identificação com dois clássicos, Giselle e O Quebra-Nozes, cujas protagonistas lhe garantiram apresentações e aplausos no mundo todo. Um prato rico em carboidratos e sem carne vermelha antes dos espetáculos e tudo o mais que o apetite permitir nas demais refeições é o segredo da vitalidade de Ana. Alimentar-se bem, sem restrições, e ter energia para gastar: olhando para ela, essa conta parece até fácil.

Aliar a rotina pesada de exercícios físicos e dança a uma alimentação prazerosa e saudável parece ter sido o suficiente, até agora, para trapacear o tempo. No cabelo quase não vai tinta, exceto quando se aproxima alguma festa – como era o caso do dia seguinte à entrevista, em que Ana pintaria o cabelo para o casamento de um sobrinho. A pele lisinha do rosto não recebe intervenções cirúrgicas ou estéticas. Aliás, mal recebe os creminhos obrigatórios de todas as noites.

– Pra você ter uma ideia, ano passado fui pela primeira vez ao dermatologista. Ele me receitou uns cremes lá. Eu tento, mas às vezes esqueço de passar, menina!

Dores, tragédias e desilusões

Ana Maria Botafogo Gonçalves Fonseca é a bailarina que também tem sofrimento – como todas as outras, diz ela, desmentindo Chico Buarque. Em 36 anos de carreira, aprendeu a conviver com as dores do corpo, causadas pelo esforço e pela repetição dos movimentos. Das tendinites, entorses, dores musculares e afins já perdeu a conta.

– Aprendi a conviver com isso. De manhã, por exemplo, quando estou fria, dói tudo. Mas à medida que o dia começa e eu me exercito, vai passando – diz, resignada.

No ano passado, viveu o momento mais tenso da carreira, quando rompeu os ligamentos do pé durante um espetáculo, o que a obrigou a ficar três meses em recuperação e outros sete sem dançar. Para uma bailarina de 20 anos, isso seria ruim. Para uma mulher que insiste em estar no palco mesmo depois dos 50, esse tempo poderia significar uma perda irrecuperável de massa muscular e resistência corporal. Não para Ana Botafogo.

Ela também é a bailarina que viveu, fora dos palcos, dramas pessoais semelhantes aos que representa na ponta dos pés. Viúva por duas vezes, teve seus sonhos de amor colhidos por fatalidades. Em 1988, casada havia apenas dois anos e meio com o bailarino inglês Graham Bart, viu seu marido ser arrastado por uma onda ao banhar-se na Pedra do Leme, no Rio de Janeiro. Passado o impacto da tragédia, casou-se novamente com o advogado Fabiano Marcozzi. Depois de 10 anos de união, a morte veio buscar o segundo companheiro, vitimado por um acidente vascular cerebral em 2001. Gostaria de ter tido filhos, mas não os teve nos dois casamentos.

A solução para superar a amargura e voltar a ver a vida com entusiasmo foi a mesma que Ana usa para todas as demais situações: dançar. No Rio de Janeiro, no palco do Municipal, e em palcos do Brasil e do mundo, ela reafirma a escolha que fez ainda muito jovem, quando foi selecionada para o corpo de baile do Ballet de Marseille, do coreógrafo Roland Petit.

– Quando entrei lá e vi aquilo tudo pensei: “Essa é a vida que eu quero para mim”. E foi, né?

Ao comentar os enredos trágicos que protagonizou na vida real, Ana mostra, sim, uma ponta de tristeza. Mas logo trata de afirmar o quanto gosta de viver. Enquanto orienta a maquiadora a não carregar na sombra (“olhos bem marcados são apenas para o palco”), ela dispara em poucas palavras tudo o que aprendeu.

– Apesar de tudo, a vida é boa comigo. Sou uma pessoa alegre e feliz, com muita coisa ainda para fazer.

Falta de maneira ela não tem

Em um país de escassa cultura clássica, Ana Botafogo escolheu justamente o caminho da arte tradicional, em detrimento à moda do balé moderno ou contemporâneo. Não bastasse isso, dá exemplo de determinação ao manter-se como primeira-bailarina por mais de 30 anos – e ainda sem planos de aposentadoria.

Para falar sobre sua história e sobre a dança, a artista participa de eventos como o que foi promovido recentemente pelo Barra Shopping Sul, em Porto Alegre. Com uma decoração inspirada no balé O Quebra Nozes, do qual Ana já foi protagonista inúmeras vezes, o shopping a convidou para acender as luzes.

– Nunca perco a oportunidade de falar com as pessoas, incentivar as jovens bailarinas a acreditarem na dança clássica, a seguirem seus sonhos. Quero fazer isso cada vez mais.

Desde o samba de sapatilhas, que interpretou no desfile da escola de samba União da Ilha em 1991, até o espetáculo contemporâneo que montou ao lado de Carlinhos de Jesus, Ana se reinventa em muitas empreitadas. Tem ganas de coisas novas, de desafios. Com muita, mas muita relutância, está tentando afastar-se dos balés tradicionais, que já representou muitas vezes. Seu último espetáculo, que comemorou os 35 anos de carreira, é Marguerite e Armand, uma versão de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, coreografada em 1963 por Federick Ashton.

Sobre fazer novelas novamente – ela atuou em Páginas da Vida, de Manoel Carlos, interpretando uma professora de balé -, entusiasma-se. Mas não agora. Não ainda.

– Posso ser atriz com 80 anos. Mas bailarina eu tenho que ser agora, enquanto tenho tempo.

Assim, inquieta, ela não para de querer, de buscar, de sonhar com o próximo espetáculo. Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro motivo pelo qual Ana tem surrupiado dos anos o tempo que a bailarina não tem.

Ao relativizar o envelhecer, a bailarina, que não tem tempo, ganha todo o tempo quiser.

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