Ana Paula Padrão conta o que a fez deixar de lado a televisão e partir em busca de uma vida nova

"Sou imensamente mais feliz. Toco a minha vida, tenho problemas. Mas me defino como uma pessoa feliz"

Foto: Divulgação

Marcar uma entrevista com ela é um quebra-cabeças em que os horários precisam se encaixar milimetricamente. A agenda cheia de Ana Paula Padrão a fez remarcar nosso encontro duas vezes. Primeiro, a data precisou ser alterada em função de uma viagem inesperada. Depois, já em São Paulo, instalada a poucas quadras de seu escritório, no bairro dos Jardins, a reportagem de Donna precisou esperar.

O encontro era às 15h, foi adiado para 18h30min e, às 17h, remarcado novamente. Uma hora antes do esperado, a pequena mulher de pele muito branca e cabelos castanhos abre os braços e os sorrisos para uma repórter ansiosa.

Referência para toda uma geração de jornalistas, não é mais pelo seu trabalho à frente das câmeras que ela desperta tanto interesse. Ana Paula é notícia não mais pelo trato único que deu à própria notícia, mas pela coragem que teve de renunciar a ela. Longe do jornalismo diário desde março, quando encerrou seu contrato com a Record, emissora em que atuava como âncora de um telejornal, Ana Paula se dedica a exercer os papéis que ela própria inventou para si: empresária, mulher, esposa. Enfim, feliz.

Com o objetivo de cuidar de suas empresas, especialmente da mais nova, o portal Tempo de Mulher, que reúne conteúdo, consultoria e pesquisas sobre o comportamento e as preferências femininas nos nossos dias, Ana Paula renunciou à atividade pela qual ficou conhecida. Mas essa não foi a primeira vez que ela surpreendeu. Em 2005, pediu demissão do emprego dos sonhos de muitos jornalistas.

Âncora do Jornal da Globo desde 2000, queria trabalhar em um horário diferente, cuidar da vida pessoal, ter filhos. Os insistentes pedidos para sair da noite não foram atendidos pela direção da emissora carioca. Então ela pediu demissão e transferiu-se para o SBT. Na casa de Silvio Santos, organizou o departamento de jornalismo e exerceu sua maior paixão, as grandes reportagens, no programa SBT Realidade. Nesse período, percebendo uma oportunidade, fundou a produtora de vídeos Touareg, que chegou a produzir programas para o próprio SBT. A empresa atua, majoritariamente, no universo corporativo, prestando serviços à grandes empresas.

Ficou no SBT até 2009. Mais uma vez, desejou mudar. Já queria tocar seus projetos empresariais, mas o mercado só a procurava para a bancada de telejornais.

? Foi quando meu marido disse que eu não estava comunicando bem ao mercado o que queria. Decidi planejar melhor a estratégia da minha mudança de carreira. Voltei à bancada, na Record.

Era Ana Paula retomando o padrão, parecendo ao mundo que, depois de umas loucurinhas, havia tomado juízo e voltado a fazer o que sempre fez. Depois de quatro anos na Record, veio a ruptura definitiva. A Touareg já caminhava praticamente sozinha e a Tempo de Mulher existia há mais de um ano. E as duas demandavam sua total atenção. Encerrava-se, então, o tempo da jornalista. E começava o tempo da empresária.

Falar sobre esse processo é rotina para Ana Paula, que se acostumou a dar entrevistas e ter sua vida exposta. Já se habitou a ser chamada de louca, mas prefere definir-se como corajosa.

? Se não fizer o que quero, parece que vou sufocar.

Há uma explicação trivial para todas essas reviravoltas na vida de quem, teoricamente, não precisaria delas para alcançar o sucesso e o reconhecimento: a busca pela felicidade. Parece que Ana Paula não sabe viver sem ela. E que abriu os próprios caminhos para encontrá-la. Da repórter formada pela Universidade de Brasília que começou carreira na televisão local à empresária que cuida com pulso firme dos seus negócios, Ana Paula preservou o olhar doce e a figura de menina, de corpo esguio e rosto sem muita maquiagem, mesmo aos 47 anos.

O figurino é mais moderno e despojado do que os convencionais terninhos da televisão e os cabelos são mais longos e levemente ondulados. Mas o sorriso que nos recebe é o mesmo que abria o telejornal da noite.

Viciada em cremes, mas avessa às intervenções estéticas, que come pouco, não pratica exercícios físicos e só pintou o cabelo depois dos 43 anos, Ana Paula é uma mulher de seu tempo. Sem filhos por opção, curte a vida ao lado do marido, o economista Walter Mundell, com quem se casou em 2002.

Quando não está no apartamento, em São Paulo, ou viajando a turismo ou negócios, pode ser encontrada em sua casa de praia na Bahia, isolada do mundo. Onde quer que esteja, gosta de cozinhar, de beber bons vinhos e de conviver com seus gatos – dois machos na casa de praia e duas fêmeas no apartamento paulistano. E lê. Lê muito, todos os dias. José Saramago, Ian McEwan, Paul Auster e Virginia Woolf são alguns dos escritores favoritos.

Nesta entrevista, a jornalista conta um pouco do processo que viveu até assumir de vez sua carreira como empresária, do casamento, das tentativas de engravidar e do aborto espontâneo que sofreu. Conta, principalmente, como, afinal, encontrou um jeito de ser feliz.

Donna – Você mudou de lado. Concede entrevistas ao invés de entrevistar pessoas.

Ana Paula Padrão – É curioso isso. Nunca tinha pensado sob esse ponto de vista. Eu já dou entrevista há um bom tempo. O que fiz foi parar de entrevistar. Se bem que não. Toda conversa com um cliente é uma entrevista. Você tenta tirar dele o máximo de informações para prestar o melhor serviço. Além disso, nos eventos da Tempo de Mulher, por exemplo, eu conduzo todos os painéis. É uma entrevista atrás da outra. Eu adoro entrevista. Aliás, muito mais do que ser entrevistada.

Donna – Como é essa nova fase?

Ana Paula – Comecei a empreender há sete anos, quando abri minha primeira empresa, a Touareg, que é muito ligada ao meu ramo de atividade. Era natural que acontecesse. É uma empresa, basicamente, de jornalistas que contam histórias. O DNA da Touareg é o jornalismo. Fomos para o mercado corporativo porque havia essa lacuna. Empreendi por oportunidade, sem ter me preparado tecnicamente para isso. Fui aprendendo na prática. Já a Tempo de Mulher tem uma história completamente diferente. Ela nasceu de uma curiosidade pessoal. Eu intuía que havia uma mudança comportamental muito forte a partir dos anos 2000 e queria entendê-la. Inclusive para compreender a história da minha geração e a minha própria história. No Brasil, as mulheres dos anos 1980 entraram maciçamente no mercado de trabalho e não tinham um modelo feminino para copiar. Então copiamos os homens. Muitas de nós abriram mão de maneira muito radical de outras coisas na vida para trabalhar, e apenas trabalhar. Hoje as clínicas de reprodução estão lotadas por que muita mulher adiou a maternidade por causa do trabalho. Essas são as mulheres da minha geração. Eu comecei a me questionar muito sobre isso e, ao mesmo tempo, passei a ser procurada por mulheres. No jornalismo, atuei em áreas tão duras como política, economia e coberturas em regiões de conflito, e de repente me procuram para falar para plateias femininas. Eu não entendia direito. Então fui estudar isso.

Donna – E o que você encontrou?

Ana Paula – Acabei compreendendo que, o que elas viam, era uma mulher respeitada na profissão pelos seus pares, inclusive os homens, que tinha credibilidade, mas que era obviamente uma mulher. Tinha gestos femininos, cara e jeito de mulher. Isso para elas era uma espécie de desafio. Como eu consigo ser mulher, preservar a minha identidade feminina, viver processos tipicamente femininos, como a maternidade e o casamento, e ao mesmo tempo ter uma profissão, ambições, carreira. Dessa curiosidade passei a fazer pesquisas. Até que essas pesquisas servissem de base para a abertura de um negócio. A Tempo de Mulher tem dois anos e eu fiz pelo menos cinco anos de pesquisas sólidas. Compreendi assim o que interessa à mulher. E lançamos o portal Tempo de Mulher com essa cara e esse conteúdo. Colocamos o portal no ar e, no primeiro mês, fevereiro de 2012, tivemos 20 milhões de acessos.

Donna – Mas não é só isso que a Tempo de Mulher faz.

Ana Paula – Não. Como essa primeira fase foi muito bem-sucedida, resolvi antecipar outras. Começaram então os encontros presenciais, nos quais falo com a mulher executiva, que tem tripla jornada, funciona anytime-anywhere, sofre preconceito nas empresas e está desestimulada a continuar a carreira sabendo que abrirá mão de vários outros papéis importantes. Essa mulher quer discutir o empoderamento feminino. Ela está menos na internet e precisa mais de networking. Oferecemos nos encontros uma ampla rede de contatos e também a inspiração, os modelos que ela precisa para a vida e para a carreira.

Donna – Como as empresas veem essa mulher?

Ana Paula – Percebemos uma preocupação enorme das corporações em reter os talentos femininos. As empresas investem nas profissionais e, seis ou sete anos depois da contratação, começam a perder as mulheres. Quando chega no nível de gerência, em que poderia dar um salto na carreira, ela sai. As empresas não entendem por que, mas perdem as mulheres para qualquer coisa que não seja o ambiente corporativo. Pode ser para o empreendedorismo, para a família, para outras opções de vida. O claro é que, ou as empresas desenvolvem programas internos que facilitem o trabalho feminino ou elas vão perder a mulher. Não estamos mais dispostas a ser a mulher dos anos 1980, que trabalha 16 horas por dia, que não tem família, não tem filhos e para quem é muito importante mostrar que pode. A mulher é muito mais complexa do que isso e precisa extrair felicidade de todos os seus universos. Se ela não está feliz, vai embora.

Donna – Isso tudo é muito diferente do que você sempre fez.

Ana Paula – Não. Não mesmo. Continuo sendo uma curiosa, uma jornalista. Minha vida inteira foi contar histórias. Agora estou contando a história da mulher da minha geração e da geração que está vindo atrás de mim.

Donna – Você foi tachada de louca quando deixou a Globo.

Ana Paula – Sim, muito. E todas as vezes que eu larguei a tevê. Para mim, sair da Globo foi uma grande decisão que tomei na vida. Mas acho que em termos de impacto para o mercado, minha vida mudou mesmo na saída da Record. Quando saí da Globo, foi trocar uma empresa por outra empresa. Agora não. Foi trocar a minha rotina diária dos últimos 27 anos por outra vida. Eu pretendo continuar existindo para o mercado, então foi muito mais calculado e pensado. Sempre ouvi. “Você é louca!”. Mas também ouvi: “Nossa, como você é corajosa”. Acho que as coisas se equivalem. Prefiro dizer audaciosa e… Sei lá… Verdadeira nos meus objetivos. Porque, no fim das contas, sempre quis ser verdadeira comigo. Eu não consigo trabalhar infeliz. Ponto final. Se eu não fizer o que estou com vontade, morro sufocada. Mas sempre pensei, medi, ponderei, pois tinha que sobreviver. Não tenho a menor vocação para madame, não vou viver de renda de marido. Quero continuar trabalhando, produzindo, ganhando meu próprio dinheiro.

Donna – O que te fez ter vontade de deixar o jornalismo, a Globo?

Ana Paula – Foi um desejo de mudar de vida. Comecei a trabalhar com 15 anos e em jornalismo com 19. Toda a minha vida foi pautada pelo trabalho até o momento em que eu pensei: “Nossa, eu tenho 30 e poucos anos, meu companheiro de vida vai ser o trabalho?”. Comecei a me questionar sobre isso, muito também em função das mulheres me procurando e me perguntando como eu equilibrava a balança. Que balança? Eu nem sei de que balança essa mulherada estava falando! Minha vida era totalmente desbalanceada, era totalmente trabalho. Trabalhava no mínimo 12 horas por dia. E todos os finais de semana. Minha diversão era trabalhar. Quando estava de folga, lia todos os jornais, fazia pesquisa de matérias, não tinha lazer, nunca tive. Até àquele momento da minha vida, tirei muito pouco tempo de férias. Meus amigos eram do trabalho, não tinha outras relações. Era uma vida muito pobre, né?

Donna – Isso é comum, não é? Dedicar a vida ao trabalho, ser workaholic.

Ana Paula – Exatamente. O que me conforta é que não era só eu. Sou apenas uma representante da minha geração. Estou envolvida num contexto gigantesco, em que as mulheres precisavam provar muitas coisas por meio do trabalho.

Donna – Foi nesse período que você conheceu o Walter, seu marido.

Ana Paula – O Walter pode entrar na minha vida em função deste questionamento. Eu estava preparada para ele. Até aquele momento, eu não havia tido uma relação bacana de companheirismo por que eu mesma não deixava. Minha vida era o trabalho, eu não deixava nada acontecer. Já havia sido casada, tido namorados, mas a coisa não acontecia. Eu não deixava que me amassem e não amava ninguém.

Donna – E aí veio a mudança.

Ana Paula – Quando eu comecei a pesquisar e fazer séries de matérias sobre isso, me vi mergulhada no problema. Eu tinha um incômodo pontual, que era o horário (o Jornal da Globo começa por volta de meia-noite). Aquele horário me matava. Eu sou do dia, é biológico, durmo com as galinhas e acordo com o canto do galo. Passei a tomar remédio para dormir, a usar máscara e tampões nos ouvidos, tudo para dormir mais de manhã. Pensava: “Se eu sair da noite, talvez melhore”. Não tenho amigos pois não posso circular socialmente, estou trabalhando. Fui culpando o horário. Um dia vi que não era isso. Minha vida que estava errada. Não tinha amigos porque eu só trabalhava e não fazia mais nada.

Donna – E veio o seu casamento.

Ana Paula – Sim. No meio desse turbilhão eu me casei. E daí eu não só não tinha amigos como eu não via o meu marido. Não encontrava com ele. Percebi: “Preciso mudar a minha vida”. Precisava administrar de outra maneira a minha relação com o trabalho, pois não queria morrer com ele. Quero morrer com os meus amigos, quero ficar velhinha com o meu marido. Quero ter gente do meu lado. Não é o trabalho que vai envelhecer comigo, é minha família, meus sobrinhos, sabe? Sou uma pessoa muito produtiva, sou do trabalho e nunca vou deixar de ser. O trabalho ocupa um espaço grande na minha vida. Apenas equilibrei o trabalho com o resto. Hoje tenho mais equilíbrio nessa balança. É perfeito? Não. Atendo às demandas mais imediatas. Se o trabalho é urgente, atendo o trabalho. Se a relação é urgente, atendo a relação. Se meu pai é uma urgência, vou atender meu pai. Sou como qualquer outra mulher, que fica tentando equilibrar os pratinhos o tempo inteiro.

Donna – Você é mais feliz?

Ana Paula – Sou imensamente mais feliz. Sou uma pessoa feliz hoje. Toco a minha vida, tenho problemas. Mas me defino como uma pessoa feliz. Sou bem-sucedida na minha profissão, pude escolher sair dela e montar outros negócios, tenho um marido que me ama e que eu amo, nós nos respeitamos muito, sou reconhecida pelos meus pares pela minha competência, tenho uma família bacana, dois sobrinhos lindos, um monte de amigos, viajei boa parte do mundo e tenho condições de viajar mais ainda. Nossa, eu sou muito feliz. Sou mais feliz hoje do que jamais fui na vida.

Donna – Suas tentativas de engravidar ficaram em evidência na época. Ainda tem vontade de ser mãe?

Ana Paula – Como uma mulher dos anos 1980, maternidade nunca foi prioridade. Tanto que eu nunca engravidei, nem tentei engravidar, até conhecer o Walter. Naquele momento, pensei: “Tenho 36, 37 anos, pela primeira vez estou tendo uma relação bacana”. Queria perenizar isso de alguma maneira – e a natureza estava me impondo um deadline. Então comecei a tentar. Era verdadeiramente um desejo profundo de ser mãe, caso contrário não me realizaria como pessoa? Não, não era. Era uma circunstância. E tentar e não conseguir e, mais do que isso, engravidar e sofrer um aborto natural é dor? Sim, é uma dor. Uma grande dor. Mas todo mundo tem dor. Não conheço ninguém que não carregue sua dorzinha por aí. Se isso fosse uma coisa essencial na minha vida já teria adotado uma criança. E pode ser que daqui a 10 anos eu queira fazer isso. Essencial? Não era, não é e eu vou resolver se um dia for.

Donna – E o seu marido?

Ana Paula – O Walter muitas vezes me disse: “Eu amo você. Se vai ter filhos ou não, não importa. Eu amo você. Mãe, não-mãe, não importa”. Nunca foi uma imposição dele. Mesmo porque ele já tem um filho do primeiro casamento. Pelo que vivi, percebi que a fertilização artificial é um processo dolorido. Não quero desestimular mulheres que procuram clínicas de reprodução assistida, cada um faz a sua opção. Eu fiz duas tentativas que não foram bem-sucedidas. Dei um tempo de seis meses, engravidei naturalmente, perdi. Depois desse aborto ainda fiz mais duas tentativas. E poderia ter continuado tentando. Provavelmente engravidaria, como vi várias amigas conseguirem na décima tentativa.

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