Aposenta-se Jamile Machado, a dama da Assembleia Legislativa de Santa Catarina

"Maior assessora política" do Estado passou 37 anos dos 68 de vida na casa

Depois de anos de dedicação na Assembleia, Jamile divide seu tempo entre a casa de praia em Governador Celso Ramos e em Florianópolis
Depois de anos de dedicação na Assembleia, Jamile divide seu tempo entre a casa de praia em Governador Celso Ramos e em Florianópolis Foto: Daniel Conzi

Vou aproveitar as férias para tomar banho de mar. Férias? Que férias? Eu estou aposentada! A frase sai acompanhada de uma gargalhada. O que era um monólogo do mais íntimo gabinete ?  o próprio eu ? aflora ao público.

Com os pés brancos massageados pela areia grossa e amarronzada da paradisíaca Baía dos Golfinhos, em Governador Celso Ramos, Jamile Machado tenta desligar-se das amarras impostas pela vida pública. Tenta. Acostumada a conviver com discursos, agora busca a praticidade do dia a dia. Busca. Esforço sobrenatural para quebrar hábitos.

Empenho compreensivo para quem em 37 anos dos 68 de vida foi servidora na Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Jamile aposentou-se. Muita gente sabe. Nem todos acreditam. Inclusive ela:

? Foram quase quatro décadas. Nestes anos todos, tirei apenas quatro licenças médicas, e foi sempre coisa rápida ?  recorda.

Família

Jamile é uma manezinha das cercanias da Avenida Mauro Ramos, uma das principais vias de Florianópolis. Teve uma infância dura. Eram sete irmãos nascidos dos dois casamentos do pai, o capitão Brasílio Machado, maestro da Banda Musical da Polícia Militar.

Ainda com a mania de tudo registrar, pede que assinale: o pai, paranaense de Lapa, é autor do Hino do Estudante Catarinense e do samba de Carnaval Fala, eleito no concurso “Por um Carnaval melhor”, no Lira Tênis Clube, em parceria com Chico Pereira.

Sabe que herdou do velho capitão não apenas a dedicação e o rigor com o trabalho. Mas também o lado descontraído que a faz torcedora da Embaixada Copa Lord, a escola de samba do Morro da Caixa, e do Avaí Futebol Clube.

Quando era jovem sonhava em ser advogada. Chegou a fazer dois vestibulares, mas não conseguiu aprovação. Formou-se em Ciências Contábeis pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Na Carteira de Trabalho, uma marca indelével: o primeiro emprego foi aos 16 anos, no grupo Hoepcke, antiga e famosa fábrica de rendas e bordados.

Assessora dos caciques

Mais tarde, assessorou caciques da política catarinense. Período em que afinou relações com os ex-governadores Aderbal Ramos da Silva e Jorge Bornhausen. Mas não o suficiente para atuar em suas assessorias, como desejavam. Coincidentemente, talvez tenha se tornado a “maior assessora política” deste Estado.

Inteligente, ágil, prestativa. Quem um dia pisou na sala da imprensa da Assembleia sabe disso. Jamile, batizada de fada madrinha da imprensa, nunca deixou colega na mão. Ao contrário, sempre deu uma mãozinha para que o trabalho fosse bem feito. E não apenas para os jornalistas mais distantes, das rádios e jornais do interior onde fazia chegar a Resenha Semanal. Rodadas em mimeógrafo, as laudas foram por muitos anos a base do noticiário da chamada pequena imprensa.

? Eu sabia que tanto para eles (os jornalistas), como para os outros (os deputados), era importante que o trabalho fosse divulgado nas bases de cada um ? relembra.

Jamile sempre foi preocupada também com os colunistas da grande imprensa, às vezes surpreendidos por um telefonema no meio da tarde de um domingo ou feriado.

? Um dia fui comprar ostras lá no Sambaqui, onde tenho uma casa, e vi um barbudinho sentado ao lado de uma senhora. Lembrei que já tinha atendido aquele rapaz na sala de imprensa. Pedi licença e me apresentei ? conta, sorridente.

Minutos depois, com a devida permissão do barbudinho, colocava o então futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva na linha com o comentarista de política da principal rede jornalística de Santa Catarina, na época. O que eles conversaram Jamile não sabe. Ela precisava voltar para casa, onde tinha um jantar para preparar.

Hobbies

Aliás, gastronomia é um dos hobbies de Jamile. As delícias que prepara são conhecidas no meio, comum nas recepções que oferece. Seja no apartamento na Beira-Mar, na casa de praia em Governador Celso Ramos ou na moradia da tranquila Sambaqui. E, independente de quem sente à mesa, um político, um jornalista, um motorista, Jamile sabe e adora servir. Servir também no sentido bíblico.

? Eu gosto de ver as pessoas contentes.

Sucos, docinhos, salgadinhos… Qual redação nunca recebeu um mimo de Jamile? Rosas no aniversário, um vinho pelo casamento, uma coroa de flores na partida. Quem nunca soube que foi Jamile quem tomou a iniciativa do ato?

História na Assembleia

Jamile é sinônimo de uma profissional realizada. Entrou pela porta da frente da Assembleia Legislativa, em 1972, por meio de concurso público. Tempo da máquina de escrever. Era datilógrafa escriturária e recebeu um convite do jornalista e amigo Sérgio Lopes. O então diretor da Divisão de Imprensa da Assembleia sugeriu que Jamile assumisse a coordenação de Comunicação Social da Casa, exercido por 12 anos. Neste período, conviveu com diferentes partidos na presidência do Legislativo. Manteve um relacionamento cordial com todos, fossem da direita ou da esquerda. A regra era uma só: respeito:

? Meu ato de nomeação é de 14 de novembro de 1973 e assinado pelo presidente Zany Gonzaga, ano em que o gabinete da imprensa foi instalado no Parlamento catarinense.

Jamile nasceu sob o signo de Leão. Amou e diz ter sido muito amada. Não casou ou gerou filhos. Mas tem seus filhotes, a quem protege, como os sobrinhos:

? Quando comecei eu era muito jovem. Quero que eles estejam bem preparados para o mercado de trabalho, seja em termos de formação ou de equipamentos.

Cidade que não existe mais

Jamile tem uma rede ao seu redor. São amigos, resultado de anos de convívio, e familiares. Mas com ninguém tem uma ligação como com Marília. Irmãs, amigas de fé, camaradas. Vidas e opções parecidas. Desde que a mãe Dona Cristina faleceu, as duas moram juntas.

Neste primeiro verão da vida de aposentada, Jamile e Marília aproveitam o mar da Baía dos Golfinhos.

Vê-las conversando lembra tempos de infância. Não só delas. Mas da nossa. Jamile é isso. Um espelho, uma espécie de autorretrato, um desejo. Quase uma inveja.

Jamile é um pouco de uma Florianópolis que não existe mais. Dos tempos do Miramar; do footing na calçada depois do cinema; dos carros de mutação das Grandes Sociedades no Centro da cidade. Jamile é um pouco de uma Florianópolis ousada. Ela e a irmã Marília foram umas das primeiras a usar biquíni. O modelo era duas peças, mas revolucionário para a época.

Jamile é um pouco de uma Florianópolis que descansa. Mesmo com a agenda sempre ao lado.

Aldírio Simões dizia que se Nega Tide abrisse a boca cairia o primeiro escalão. Se Jamile Machado abrisse a boca, cairia o parlamento. Com toda a elegância que a Casa do Povo merece.

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