Arábia Saudita: Onde ser mulher é um inferno

Direitos básicos no Ocidente, trabalhar, estudar e andar na rua são possíveis apenas com autorização de um familiar homem

Recentemente, o governo proibiu mulheres de trabalhar como caixas de supermercado porque podem se sentir
Recentemente, o governo proibiu mulheres de trabalhar como caixas de supermercado porque podem se sentir Foto: AFP

Elas não se locomovem sem ser em táxis ou levadas por um motorista particular porque o governo lhes proíbe a habilitação. Só podem estudar, trabalhar e viajar se autorizadas por um familiar homem. A última restrição, no início do mês, foi algo considerado banal aos olhos ocidentais: um emprego como caixa de supermercado. Não pode.

Contabilizadas, as privações que a Arábia Saudita impõe a suas mulheres posicionam o país no 129º lugar entre os 134 do ranking global de igualdade entre os gêneros. Na prática, viver no país é como estar no Iêmen, o último colocado.

? Poderíamos ser considerados o pior país. A Arábia Saudita regularmente discrimina as mulheres em todos os aspectos de suas vidas ? relata a estudante Eman Al Nafjan, que vive na capital, Riad.

Envoltas pela abaya (vestido), hijab (lenço para cobrir a cabeça) e niqab (que deixa apenas os olhos à mostra), as sauditas dividem sonhos, como o de dirigir o próprio carro e poupar o dinheiro gasto em contratar um homem para fazê-lo.

No dia a dia, são protegidas do convívio masculino pela separação de áreas em restaurantes, supermercados, festas: mulheres e famílias de um lado; homens sozinhos, de outro. E nunca se misturam. Proibidas de andar sozinhas na rua, é natural gastar horas em shoppings. Também podem ocupar o tempo levando os filhos a parques e zoológicos, nos dias determinados a mulheres. A distinção de gêneros assusta estrangeiros. Estabelecida na costa do Mar Mediterrâneo em março, a paulista Priscila Oliveira do Carmo, 28 anos, quis ir à praia.

? Foi horrível, pois chegamos ao local e vimos as mulheres embaixo de guarda-sóis, com as abayas e burcas sob um sol de 40oC, enquanto olhavam seus maridos e filhos se banharem ? conta Priscila, que, após oito meses, diz ter se habituado aos costumes locais.

Em agosto, um supermercado em Jedá, onde ela vive, agiu de forma considerada de vanguarda. Contratou 16 moças para serem caixas na área reservada para mulheres e famílias. O aval das autoridades foi revogado no início deste mês.

? As mulheres devem procurar empregos onde não possam se sentir atraídas por homens nem atraí-los ? ordenou o decreto de um tribunal religioso do país, governado de forma monárquica.

ONU aceita país em órgão para fazer valer direitos

Provocou protestos, esta semana, a decisão da ONU de incluir a Arábia Saudita como membro de sua nova agência para zelar pelo direito das mulheres e promover a igualdade entre os gêneros, a UN Women. O país conseguiu uma das vagas reservadas a doadores de fundos da ONU.

Antes do anúncio, a iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz em 2003, disse que considerava uma piada a candidatura de seu país e da Arábia Saudita a uma cadeira no órgão. O Irã, vigiado por grupos de defesa à mulher desde a condenação à morte da adúltera Sakineh Ashtiani, cuja pena ainda não foi executada, perdeu a vaga para o Timor Leste.

Para a jornalista saudita Maha Akeel, as mulheres de seu país, apesar das dificuldades, têm conseguido avanços por meio do apoio da família e até do governo.

? O problema é com um grupo de extremistas que tem uma visão pequena das mulheres e de seu papel. Infelizmente, este grupo tem poder e influência na sociedade, e consegue impor sua opinião ? afirmou a jornalista, por e-mail.

É proibido
– Dirigir carros
– Andar na rua sem o marido ou um familiar homem
– Trabalhar em empregos nos quais exista possibilidade de interação com homens
– Estudar, trabalhar, viajar ou ser atendida em um hospital sem autorização do guardião

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