As duas faces da oitentona Yoko Ono

Um apaixonado por Beatles revisa a história da mulher que pode

Foto: DANIEL ROLAND

Permita-me, leitor, abrir uma exceção justo na abertura deste texto. Trato aqui de dar um depoimento pessoal para sustentar solenemente o conteúdo que se segue.

Não é em vão que desvirtuo a regra jornalística de evitar a primeira pessoa. Pois bem, estava eu lendo o livro A Batalha pela Alma dos Beatles, que me foi emprestado pelo colega Luís Bissigo, autor de bela resenha sobre o mesmo no Segundo Caderno de 20 de janeiro (íntegra do texto em zhora.co/AlmaBeatles).

Lá pelas tantas, deparei com mais uma entre tantas informações que mexeram comigo naquele relato de Peter Doggett, cru, ácido, definitivo, que mostra quatro sujeitos seguindo vida afora juntos e separados, cultivando amor e ódio: Yoko Ono tem sete anos a mais que John Lennon. Bom beatlemaníaco que sou, como o amigo Bissigo também é, sei decor que John nasceu precisamente às 18h30min de 9 de outubro de 1940. Sendo assim, Yoko estaria chegando à idade de 80 anos!

Sobre John, sei até as circunstâncias – Liverpool era bombardeada pelos nazistas, o que talvez diga muito sobre o futuro autor de Give Peace a Chance e Imagine. A respeito de Yoko, claro, fui ao Google (perceberam como o conhecimento é essencial sempre, até para levar à dúvida e à busca pelo “saiba mais” na internet?). E lá estava: nascida em 18 de fevereiro de 1933, em Tóquio. Sim, era isso mesmo. Ai ai, eu me senti um tanto mais velho.

Agora, chega dessa história de primeira pessoa, que não deixa de ser desconfortável para quem se formou acostumado a escrever em terceira.

E vamos a outro truque deste texto: lá no primeiro parágrafo, constam, lado a lado, as palavras “abrir” e “abertura”, também algo pouco recomendável em termos de estilo. Mas foi proposital. São dois significados diferentes para vocábulos de mesma origem, um na forma de verbo e outro de substantivo. E é sobre dualismo que falamos aqui.

Yoko é mais ou menos isso. A mesma artista plástica japonesa descolada, revolucionária em suas performances, posou como a malvada que tirou o foco de John e arrebatou o coração que pertencia a Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Ou foi a mulher que entendeu o inquieto guitarrista, resgatando-o do vício em heroína (diz George que foi ela quem o viciou nessa droga…) e o levando a produzir os também já citados Give Peace a Chance e Imagine? Foi quem separou John dos amigos ou quem lhe emprestou a maturidade que demorava a chegar? Foi, enfim, o motivo ou um dos motivos da separação dos Beatles? Ou nada teve a ver com as rusgas entre amigos que brigavam por tanto se adorar? Você sabe, quem não gosta é indiferente…

Pois Yoko, a agora inapelavelmente idosa Yoko, é uma mulher de duas faces claras ao sabor de cada leitura que dela se faça. Oriente e Ocidente, bondade e maldade, feiura e beleza, arte conceitual e lixo metido a moderninho. Antes de propor ao leitor que avalie a seguir o porquê de amar ou odiar Yoko, insisto na transgressão de escrever em primeira pessoa – juro que queria ter parado com isso.

Quero dizer que o livro A Batalha pela Alma dos Beatles me fez concluir que a “banda das bandas”, o grupo de rock que se tornou padrão de qualidade (você já deve ter ouvido algo como “Bah, aquele som é tri Beatles”. Deu-se conta de que não se trata de comparação, mas de elogio?) precisava chegar ao fim naquele triste 1970. Tinha de terminar para continuar “for ever”, ou “four ever”, no trocadilho inspirado.

Era o momento. A culpa foi de Yoko? Ou do empresário trambiqueiro Allen Klein? Ou de outros itens menos votados? O fato é que o fim pode ter sido a eternidade. O azedume emocional, a doce perenidade dos sentimentos. Os gestos de uma infantil briga entre quatro irmãos distintos e complementares, a manifestação de crescimento individual. A perfeição nos defeitos. E Yoko…

Faça você, agora, sua própria leitura.


O casal em 1969, fazendo campanha pela paz em tempos de guerra no Vietnã
Foto: Lions Gate/Divulgação 

 

A viúva de John, em frente e verso

Yoko era oportunista?

SIM: Ao conhecer John, ainda casado com Cynthia, surgiu uma oportunidade: colar em um dos líderes da maior banda de todos os tempos! Que bela chance de arrivismo social. Que boa maneira de se tornar conhecida entre os formadores de opinião, entre as personalidades da cultura pop. Nada mais pop do que os Beatles e seu fundador. De quebra, no futuro, pôde manifestar seus discutíveis dotes musicais em discos com vendagem garantida, ao lado do novo parceiro.

NÃO: Yoko tem berço e formação musical. É filha de uma família rica e tradicional em Tóquio. Teve os primeiros estudos em uma das mais importantes escolas japonesas, a Gakushin. Também na infância, estudou canto e piano clássico. No início dos anos 1950, mudou-se para Nova York, frequentou a escola de música Sarah Lawrence e conheceu artistas que a ajudaram na arte conceitual a que se dedicava desde o final da década de 50. Aliás, Paul, principal mentor de Sargent Peppers, estava à frente de John em ousadia artística. Até que John e Yoko começaram o relacionamento, em 1968…

Fez John se tornar mais “família”?

SIM: Com Yoko, John tratou de cuidar do filho Sean, nascido exatamente quando o beatle fazia 35 anos, em 9 de outubro de 1975. John, nascido John Winston Lennon (em homenagem a Winston Churchil), adotou o nome Ono, em homenagem à mulher, com quem se casou em 20 de março de 1969, em Gibraltar. Deixou de haver John. Era John e Yoko. Com o nascimento de Sean, John suspendeu a carreira e foi fazer pão e cuidar do filho, como costumava dizer. A relação entre pai e o filho era próxima, algo que não houvera com tanta intensidade entre ele e o primogênito, Julian.

NÃO: John ficou três anos sem ver o filho Julian, do casamento com Cynthia, e se reaproximou dele apenas pouco antes de morrer. Hey Jude foi composta por Paul como consolo para o menino quando o pai se separava da mãe. Há relatos segundo os quais John, além de manter distância do primogênito, tinha atitude grosseiras em relação a ele. Certa vez, teria pedido para o garoto parar de rir, alegando que seu riso o irritava. Foi uma fase em que John vivia um surto de falta de criatividade, excesso de drogas e dilemas existenciais. Ele e Yoko se separaram por um período.

Ela motivou a separação dos Beatles?

SIM: A imagem de Yoko deitada em uma cama especialmente levada para ela no estúdio de Abbey Road, onde os Beatles ensaiavam e gravavam, é o retrato do inferno para milhões de beatlemaníacos. Paul, George e Ringo rejeitavam veementemente sua presença e a influência que ela tinha sobre John. Filmes da época deixavam claro o clima tenso. George já tinha seu particular e justo sentimento de rejeição a ela, uma vez que, por ser o mais jovem, sempre teve o imenso talento pouco reconhecido pelos parceiros. Era um vício de origem: George, o caçula, mostrava-se o símbolo da individualidade embotada. E essas coisas foram potencializadas por Yoko, que não tinha pruridos em invadir o espaço dos amigos nem se sentia intimidada para palpitar naquilo que não era chamada aliás, era chamada por 25% do grupo. Let it Be (Deixa Estar) não teria sido composta à toa por Paul, dando o nome do último disco lançado pelo quarteto. Yoko reconheceu, em entrevista, que Paul foi o beatle mais resistente ao fim da banda.

NÃO: George, que vetou o nome de Yoko no concerto que realizou para Bangladesh no início dos anos 1970 (e por isso John se negou a participar, dizendo que ele e Yoko eram um único ser), relativizou essa imagem em 1996, nas gravações do documentário Anthology. Certamente, foi um dos fatores, mas não o único, disse ele. O processo de desgaste se iniciara com a morte, em 1967, do empresário Brian Epstein, o superego da banda. Às dificuldades para administrar os negócios e à frustrada ideia de fazer da gravadora Apple o bastião da contracultura, somaram-se empresários como Allen Klein, que estavam longe de ser uma unanimidade. As individualidades se sobressaíam ao conjunto. Anos depois, Paul reconheceu que a presença de Yoko era desconfortável nas gravações, mas tirou dela a responsabilidade pelo desfecho. Yoko agradeceu publicamente, dizendo que ela e John o amam. Paul ainda acrescentou, em tom de lamento: queria ter brigado com Allen, e jamais com os companheiros.

Yoko explorou a imagem de John Lennon?

SIM: Quando John morreu, ela herdou fortuna estimada em US$ 356 milhões. Isso em 1980. Hoje, o valor teria duplicado, passando para US$ 745 milhões. Sinal de que ela soube administrar a marca do autor. John deixou como herdeiros não apenas seus filhos, mas também a enteada Kyoko, filha de Yoko em casamento anterior. Recentemente, Yoko lançou uma coleção de roupas inspiradas em John. Claro, houve muita gente que torceu o nariz, dizendo que ainda hoje ela trata de explorar a imagem do marido morto no distante 8 de dezembro de 1980.

NÃO: Pelo contrário, ela contribiu com o desempenho criativo de John. Reforçou nele noções de arte conceitual e o insuflou com ideias meritórias de liberdade de pensamento, feminismo, luta contra a homofobia e valorização dos fatos prosaicos do cotidiano o elemento principal da sua arte. A própria ideia de ser um símbolo pela paz e contra sentimentos desprezíveis como o racismo, já presente na obra de John, aflorou com intensidade. Os dois se tornaram um símbolo para causas meritórias, o que não deixa de ser uma continuidade a um legado tipicamente beatle.

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