As inevitáveis brigas entre irmãos também podem ser saudáveis

Incentivar o diálogo é uma boa maneira de lidar com a situação

Foto: BD ZH

Os tijolos, os sacos de cimento e a argamassa que entram e saem da casa são uma vitória para os irmãos Francisco e Joana, 13 anos. Um novo quarto está sendo erguido para separá-los e dar à família uma espécie de trégua para as constantes brigas dos dois.

Gêmeos, eles sempre foram companheiros. Mas sempre se desentenderam por defender a própria personalidade e para ganhar a atenção dos pais.

– Eles se implicam o tempo todo. Tive de fazer mais um quarto porque tudo é motivo para o desentendimento – conta a mãe, a professora Andrea Soares Costa.

Atualmente, um dos motivadores das brigas é o fato de os dois viverem momentos diferentes. Ele quer tocar violão na cama da irmã, receber os amigos e rir dos ídolos dela. Ela quer privacidade, ver novela sossegada e namorar. Como estão em casa quase sempre nos mesmos horários, as discussões, os palavrões, o ciúme – e até uns tapas – são inevitáveis.

– Uma vez, ele chegou a me derrubar da bicicleta. Tenho uma marca do machucado na perna até hoje – conta Joana.

– Mas depois fizemos as pazes – lembra Francisco.

Quando o assunto é o computador, outro confronto se instala. Ambos querem explorar a rede e conversar com os amigos. Só que, para usá-lo, precisam de um acordo: a família tem apenas uma máquina. A confusão só termina quando é a mãe a responsável pelas ralhas. Aí, os gêmeos se unem e se defendem.

– A competição é constante para ganhar nossa atenção. No final, eles se dão muito bem – afirma a mãe.

A convivência desde muito cedo e a constante construção do próprio espaço dentro de casa fazem com que o “ser irmão” dê mais liberdade para as reclamações e os xingamentos. De acordo com a psicóloga e psicopedagoga Neusa Kern Hickel, os irmãos passam boa parte da vida tentando construir uma personalidade e conquistar a admiração dos pais, o que implica em várias relações e disputas. Na prática, as brigas são saudáveis, desde que não partam para a violência.

– A criança demanda amor e afeto. Ela percebe, aos poucos, os papéis do pai e da mãe. A briga é uma forma de conquistá-los. É uma maneira de aprender, é um jogo de energias, mas só quando é saudável – explica Neusa.

Quem sabe lidar bem com os conflitos aprende a conviver e a manejar adequadamente sentimentos como ciúme, rivalidade e frustração, experiências que podem ser levadas a outras relações sociais, diz a psicóloga Edinara Michelon Bisognin, professora da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Do contrário, quando as brigas passam a ocorrer sempre, quando ficam muito violentas ou quando nem os pais conseguem resolvê-las, é sinal de que algo errado pode estar acontecendo.

Gritaria, correria, tapas e lágrimas rolando. Nos desenhos animados, nos seriados ou na vida real, brigar com o irmão é uma forma de lutar por um espaço, seja dentro da família ou no círculo de amigos. Os desentendimentos também ocorrem para deixar claras as vontades de cada um, para mudar alguma situação não considerada justa, para mostrar a própria personalidade ou como manifestação em um período de mudanças.

– Como mãe e profissional, percebo que alguns momentos da vida são mais favoráveis às brigas entre irmãos. A chegada de um terceiro filho e quando os pais se separam são alguns exemplos – exemplifica a psicóloga e psicopedagoga Neusa Kern Hickel.

Confira algumas dicas selecionadas por profissionais entrevistados sobre como lidar com as brigas entre irmãos.

Primeiro, entenda o motivo

Você não precisa se posicionar a favor de um ou de outro filho, mas é importante saber qual o motivo da briga para depois propor uma conversa com a garotada. Na fase de crescimento, é natural que a criança comece a fazer amigos e fique mais próxima deles do que dos irmãos, o que pode gerar ciúmes e alguns conflitos. Algumas vezes, a incompatibilidade de preferências ocorre apenas em alguma fase da vida e, em outras épocas, esses irmãos podem curtir vários programas juntos – o que significa que, mesmo com personalidades diferentes, eles estão conseguindo conviver bem.

– Os pais não podem forçar uma amizade. Eles precisam se respeitar como irmãos, mas não necessariamente como amigos – diz a psicóloga Patrícia Serejo.

Dê tempo ao tempo

Evite insistir para que os irmãos peçam desculpas um ao outro imediatamente após a briga. Cada um precisa de um tempo para assimilar o que ocorreu e refletir sobre o assunto. Além disso, para pedir desculpas seu filho precisa ser sincero e se esforçar para não fazer a mesma coisa de novo.

– Pedir desculpas é uma habilidade social que pode ser aprendida e desenvolvida no momento de fazer as pazes. As atitudes podem ajudar a criança a aprender a se comportar de outra maneira – explica a psicóloga Edinara Michelon Bisognin.

Instigue o diálogo

Em vez de deixar as crianças discutindo, que tal incentivar o diálogo entre eles? Explicar os sentimentos de cada um pode ser uma maneira de evitar uma briga, que acaba deixando todo mundo mal. Explique que, se não der certo da primeira vez, é importante continuar tentando convencer o irmão de que brigar pode ser muito chato.

Os pais também podem colaborar ouvindo e conversando com os filhos sobre os motivos da briga e fazendo-os refletir sobre o problema.

Hora de intervir

Quando a briga se transforma em agressão física e emocional, é hora de pai e mãe intervirem no conflito dos filhos, alerta a psicóloga e psicopedagoga Neusa Kern Hickel.

Os pais podem evitar as brigas assumindo o papel de mediadores, sugerindo negociações e auxiliando na busca de soluções satisfatórias que possam beneficiar tanto um filho quanto outro, ou seja, facilitando a resolução de conflitos, explica a psicóloga Edinara Michelon Bisognin:

– Também é papel dos pais ajudar os filhos a reconhecer emoções como o ciúme e fazê-los entender que é possível conversar sobre essa emoção.

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