Às vésperas de completar 90 anos, Eva Sopher revela de que forma a idade vai interferir na vida e no futuro

Presidente da Fundação Theatro São Pedro é homenageada por amigos

Foto: Júlio Cordeiro

Tudo parece confortável na ensolarada tarde de outono, quando Eva Sopher recebe a reportagem de Donna no foyer do Theatro São Pedro. Sentada na poltrona de veludo ao lado de uma das janelas, ela fala com desenvoltura olhando, como é seu costume, diretamente para a repórter. O assunto corre fluente e, em certo momento, seus olhinhos verdes são atraídos para algum ponto na parede. Ela apressase em concluir o raciocínio, levanta da poltrona e caminha em direção à cortina.

? Não posso ver essa cortina torta.

Eles não percebem, mas eu não consigo ver isso assim, desarrumado. Um pouco embaraçada por não ter sequer percebido o defeito na colocação do ornamento, a repórter tenta retomar o assunto. Mas antes de qualquer pergunta ou comentário, ela vai logo alertando:

? Sou a dona de casa do Theatro São Pedro. Não deixo nada passar.

Traço dominante na personalidade de Dona Eva, o perfeccionismo se tornou uma espécie de lenda, que faz com que quase todos os seus interlocutores já tenham presenciado cena semelhante à descrita no início do texto. Energia, rigor e obstinação são outras características sempre associadas à mulher de corpo diminuto, inversamente proporcional ao tamanho da realização que forjou à frente do Theatro São Pedro nos últimos 38 anos. Sem arredar um milímetro dessa personalidade, Dona Eva se prepara para mudar. O motivo? No próximo dia 18 de junho, vai completar 90 anos.

? Bom, é a primeira vez que vou fazer 90 anos, não sei como vai ser – diz, divertindo- se com a pergunta sobre a idade.

Logo em seguida, arremata explicando sua preparação para a nova e emblemática data.

? Fazer 90 anos é querer descansar um pouco.

Há algum tempo, a idade vem afetando a rotina de uma das figuras mais queridas não apenas do meio artístico, mas de todo o Rio Grande do Sul. Continua deitando tarde, hábito que cultiva desde sempre em função dos compromissos no teatro. Mas hoje em dia já não fica até o final de todos os espetáculos, como gostava de fazer. Elege alguns, todos os que pode. Nos demais, recebe o público, fica um pouco e vai embora dirigindo o próprio carro, que “já sabe o caminho e vai sozinho para casa”.

Levanta cedo, entre 6h45min e 7h30min, come um mamão e uma banana, lê os jornais, toma banho, se arruma e vai para o teatro. Tudo o que sempre fez, só que agora, como ela mesma confessa, com mais calma, sem pressa e sem horário certo para chegar. Cumpre uma sorte de compromissos diários que, mesmo nessa fase light, deixaria muita gente cansada. Assina papéis, supervisiona trabalhos no palco, recebe atores, diretores e políticos, dá entrevistas.

> Em vídeo, Eva Sopher fala sobre a dedicação ao teatro:

Circula por todo o teatro com seu molho de chaves sempre à mão, abrindo com destreza as portinhas que se escondem por entre as paredes grossas e que podem levar a todas as partes mais rapidamente. Faz projetos e ainda bate à porta de quem quer que seja em busca de recursos. Continua sendo a Dona Eva de sempre, em uma jornada um pouco mais curta e flexível. Para manter a saúde, toma ” remedinhos e vitaminas” e faz exames preventivos. Logo em seguida, no entanto, admite que sua saúde não vem daí. A vitalidade nasce do próprio trabalho.

? Se quisesse parar não chegaria aos 91.

Durante a entrevista, ela interrompe a conversa por alguns instantes e pede que alguém busque sua bolsa. Precisa passar mais batom. A cor rosa claro dos lábios, que combina com o tom das unhas, é motivo para se falar sobre vaidade. Ela conta que nunca se considerou uma mulher bonita. E brinca que, ao rever as fotos da juventude, repensa a opinião que tinha sobre a própria imagem.

? Tinha pernas bonitas – declara, com risos.

Em seguida, dispara uma constatação que a entristece.

? Hoje existe uma idolatria da juventude, da beleza, da magreza. Mas esses não são valores reais. Os valores verdadeiros acompanham a pessoa, não importa a idade.

Para encerrar o papo sobre o aniversário – tema sobre o qual ela não discorre com tanto gosto, afinal, seu assunto predileto é mesmo o Theatro São Pedro – sentencia:

? O melhor de fazer 90 anos é poder dizer abertamente tudo o que penso.

Depois de cinco segundos de reflexão, ela refaz a frase.

– Não, não é isso. Eu sempre disse tudo o que eu penso.

>> Veja uma galeria com momentos marcantes de Eva Sopher

Memória em nove atos

Difícil encontrar, em Porto Alegre, quem não conheça pelo menos um pouco da história da vida de Dona Eva. E mais difícil ainda deve ser procurar quem não tenha gosto em sentar- se perto dela para ouvir seus relatos precisos sobre o passado. A memória preservada traz de volta minúcias da infância em Frankfurt, na Alemanha, de onde a família fugiu do nazismo em 1937. Lembranças amargas.

– Tínhamos um cachorro que me acompanhava até a escola, todos os dias. Tivemos que sacrificá-lo quando imigramos. Que coisa triste! Quando me perguntam se algum dia quis voltar para a Alemanha, lembro do nosso cachorro. E também lembro de uma placa que colocaram na padaria perto de casa, anunciando que judeus eram indesejados ali. Não, nunca quis voltar para a Alemanha e sou feliz sabendo que meu legado vai ficar aqui no Rio Grande do Sul, no Brasil.

Ainda em Frankfurt, o primeiro contato com a arte também é algo pulsante na memória de Eva. Uma apresentação da ópera A Flauta Mágica encantou a menina. Em seguida, com 11 anos, foi estudar artes plásticas. Ao chegar ao Brasil, em São Paulo, tratou logo de envolver- se com o fomento da cultura, estudando, trabalhando em galerias de arte e na Sociedade de Artes, Letras e Ciências, mais conhecida como Pró-Arte. Desde então não parou mais de se envolver com as questões culturais dos lugares por onde passou, o que lhe rendeu todo o tipo de homenagem.

Em 1971, antes mesmo de assumir como diretora do Theatro São Pedro, já era declarada cidadã porto- alegrense por meio de uma proposição do vereador Glênio Peres. Entre as lembranças mais doces está o marido, o empresário Wolfgang Sopher, seu grande amor.

– Se tenho saudade de alguma coisa? Sim, tenho. Do meu marido.

O rosto enrugadinho ornado pelo cabelos brancos cuidadosamente arranjados se ilumina quando ela conta como se conheceram. Primeiro, ele a viu em um ponto de ônibus, em São Paulo. O rapaz altivo nascido em Dusseldorf e, como ela, refugiado no Brasil com a família, viu a guria pela segunda vez em uma livraria. Tratou imediatamente de perguntar ao dono quem era. No terceiro encontro, ela também o viu, durante um jantar na casa de conhecidos em comum.

– No quarto encontro, ele disse que queria casar comigo.

Casaram- se em março de 1946, no dia do aniversário de Wolfgang, e tiveram duas filhas. Depois da morte dele, em 1987, Eva nunca teve um novo companheiro.
Foi Wolfgang o maior responsável pelo encontro de Eva com o Theatro São Pedro. Ao saber do convite que ela recebera para dirigir o local, que agonizava no início dos anos 1970, intimou: ” Ou você assume ou vão derrubar este teatro”.

– Ele sempre foi o maior incentivador. O primeiro cheque para o financiamento dos projetos, normalmente, era o dele.

Na pilha de lembranças que guarda, as mais queridas estão justamente ali, onde ela faz questão de estar todos os dias. Durante a conversa, Eva conta detalhes da restauração, dos cupins que ameaçavam o prédio e dos desafios que enfrentou para levar a cabo a reconstrução completa da casa. Não esquece um nome, uma data, um pormenor sequer. E, apesar da promessa de desacelerar, tem na ponta da língua tudo o que é necessário para a conclusão de seu atual sonho: o Multipalco.

Cheia de energia, ela diz que vai lutar até quando puder para ver concluído o espaço que começou a idealizar no dia seguinte à conclusão das obras de restauração do Theatro São Pedro. Lamenta, porém, pois acredita que não verá a obra pronta.

Será, Dona Eva?

Para Eva, dos amigos

“Conheci Dona Eva pessoalmente em 2010, mas já tinha ouvido falar dela. O que mais me impressiona é que a trajetória dela se confunde com a do teatro. A importância do Theatro São Pedro no cenário da cultura do país é proporcional à importância dela para o Theatro. Dona Eva manteve a dignidade da pauta do São Pedro e representa a resistência, a luta pela preservação do patrimônio cultural. Além disso, ela cuida da gente com tanto carinho, tanta atenção… É por isso que faço questão de terminar as temporadas dos espetáculos no Theatro São Pedro.” Thiago Lacerda, ator

“Conheci Dona Eva quando eu tinha 20 e poucos anos. No começo, ela é intimidadora, pois é rigorosa, enérgica. Mas, quando a conhecemos melhor, percebemos que é uma figura gentil, generosa e bem- humorada. O Wolfgang, seu marido, era um cavalheiro. Eram um casal encantador. Eva é um ícone, pois aos 90 anos exibe uma energia incrível, uma vitalidade e uma obstinação que admiro muito. Ela tem um espírito indomável e se doa integralmente para o bem de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul e do país. Para ela não há substitutos.” Lya Luft, escritora

“Tenho a alegria de conhecê- la desde que fui prefeito de Porto Alegre. Para mim, ela sintetiza o caráter cosmopolita e, ao mesmo tempo, provinciano da nossa cidade.
Quando era prefeito e governador, tive muitas conversas de trabalho com ela. Sempre francas, mas serenas. E ela chegava com projetos, com propostas. É por causa dela que o Theatro São Pedro é uma referência no Brasil e no mundo. Lembro que tivemos apresentações dos grupos musicais dos movimentos sociais naquele palco.
Imagine, eram movimentos como os Trabalhadores Sem Terra, Quilombolas, Índios, todos ocupando o palco do São Pedro. Esse espaço foi conquistado com a orientação dela.” Olívio Dutra, ex- governador do Estado e ex-prefeito de Porto Alegre

“Eva Sopher deu um grande espaço para a música regional. Ela, com aquela cabeça arejada, deixou que a gente entrasse com nossa música no Theatro São Pedro.
Foi muito bacana porque até então esse tipo de música era associado a galpões, rodeios, festas regionais. Estarmos no palco de um teatro como o São Pedro certamente teve o dedo da Eva Sopher.” Renato Borghetti, músico

“Com uma inteligência criativa e um jeitinho todo econômico ( e por que não ecológico?), minha avó deixa marcas em nossa família diariamente. Em casa, ela nos ensinou a reutilizar o plástico de embalar pratos depois de lavá- los e pendurá- los na parede para que secassem. Os lencinhos também ganharam um tratamento “especial” da avó judia : depois de lavados, Voma me ensinou a grudálos numa parede para secar e assim não precisa passar a ferro. Uma mulher que literalmente nasceu há quase um século, traz consigo uma visão futurística, moderna e inquieta. E essa inquietude não traz benefícios apenas para nossa família, mas para todo o Rio Grande do Sul! Feliz 90 anos Voma!” Letícia Pereyron, neta

“Eva Sopher comemorando 90 anos? Para pessoas como ela, a idade é uma convenção, mero exercício de contabilidade. Sua vocação para o trabalho, para os grandes projetos, o espírito comunitário que sempre permeou sua vida e seu ideal de servir pelo prazer de dividir com todos fazem com que esses atributos a transformem em um ser distinto, imune à passagem do tempo. Quando, há muitos anos, a conheci em Porto Alegre, jamais poderia imaginar que aquela força que provinha do seu íntimo viesse a se concretizar nesse projeto maravilhoso que é o Multipalco, orgulho da cultura brasileira, um exemplo concreto da nossa capacidade. Gostaria de abraçar Eva Sopher e poder transmitir- lhe todo meu carinho e reconhecimento pelo seu exemplo de força e tenacidade que sempre me acompanhou em todas as etapas de minha vida.” Isaac Karabtchevsky, maestro e diretor artístico do Teatro Municipal do Rio de Janeiro

“Dona Eva Sopher é uma grande personalidade do cenário cultural gaúcho. Para mim foi uma honra ter dividido o palco do Theatro São Pedro com essa figura que, ao longo de toda sua trajetória, vem compartilhando seu conhecimento e sensibilidade em prol da arte e cultura.” Jair Kobe, humorista

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