Às voltas com Norah Jones

Cantora apresenta, em Porto Alegre, a autópsia de um coração partido

Foto: Frank Ockenfels

Norah foi minha grande companheira de corridas em 2012. Não que Little Broken Hearts, álbum lançado em abril aessado, tenha batidas empolgantes o suficiente para sincronizar os fones de ouvido com as passadas. Acontece que correr, por vezes, é colocar o corpo a dar voltas em uma pista, um parque, uma esteira e, desavisadamente, deixar a mente trotar por onde não deve.

Percorrer bosques sombrios, embrenhar-se em trilhas já fechadas só pelo prazer de tropeçar em lembranças dolorosas e olhar para trás. Sempre olhar para trás. Norah foi, nestas corridas, alguém para conversar. Não para indicar o caminho, mas para compartilhar a angústia de estar vagando.

Se levei as minhocas da minha cabeça a se exercitarem, a cantora de 33 anos botou as dela a compor. O resultado são 12 faixas que formam uma ópera vigorosa sobre o fim de um relacionamento nos seus detalhes mais indignos, e o álbum mais elogiado de Norah desde o disco de estreia, Come Away With Me, que vendeu surreais 23 milhões de cópias e a soterrou com cinco prêmios Grammy em 2003.

Por isso, ao conversar com Norah ao telefone por 15 minutos cronometrados, na terça-feira à noite, das cerca de 10 perguntas que havia anotado no bloquinho, só havia uma que de fato eu gostaria de saber. Mas faço as demais questões primeiro, menos profundas, cumprindo o protocolo das entrevistas com estrelas internacionais. Norah atende a ligação no viva voz, ainda embasbacada com a vista para os Andes que adorna a janela do hotel em Santiago, no Chile:

? It’s beeeeeeeautiful ? diz ela com a voz como quem se afasta do telefone para olhar a paisagem e volta.

Ao falar sobre as turnês anteriores no Brasil, em 2004 e 2010, ambas com passagem por Porto Alegre, Norah abraça o lado Caetano Veloso de ser das celebridades. Tudo foi lindo, as pessoas, as praias… Guarda com especial carinho a tarde de 14 novembro de 2010, em que lotou o Parque da Independência, em São Paulo. Foram cerca de 25 mil pessoas nos gramados e outras milhares espiando do lado de fora.

? Nunca imaginei que tanta gente apareceria. Eu me senti como um milhão de dólares.

The Fall, o álbum que conduzia as bem humoradas apresentações de 2010, e Little Broken Hearts, deste ano, provam que os dois grandes motores da música – não só a de Norah – são mesmo a paixão e a dor de cotovelo. E é para confirmar isso que pergunto o que queria. Depois de um disco tão vigoroso, que até em seus momentos fofos, como a faixa Happy Pills, remetem a sentimentos doloridos, se Norah acredita que a tristeza move a arte. Se na música, assim como no cinema ou na literatura, as histórias só se tornam histórias quando algo não dá certo. Por 300 centésimos de segundo temo que ela não tenha entendido a pergunta. Mas, com voz firme, Norah responde:

­­? Sim. Definitivamente.

Suspiro aliviado enquanto ela complementa: ? Não duvido que sentimentos bons possam gerar boas músicas, mas é um processo diferente. Eu sei que o resultado é sombrio, mas não deixa de ser divertido trancar-se em um estúdio escuro e sem janelas e lidar com essas coisas ruins dentro de si. E o principal benefício é colocar isso pra fora do seu corpo.

O que o Araújo Viana assistirá, no show desta quarta-feira, é, portanto, uma espécie de autópsia sentimental de Norah. Notícias à época do lançamento de Little Broken Hearts atribuíram o peso das faixas à separação dela e de um namorado escritor de identidade desconhecida, mas não é preciso saber detalhes para se identificar com elas.

Ao piano, Norah vai das reflexões mais cruas ­? “Ela tem 22 e ama você. Você nunca vai saber como isso faz eu me sentir mal. Isso faz você feliz?” ? até as mais assustadoras, como o assassinato do ex e da rival ? “Oh, Miriam, é um nome tão bonito. Vou ficar repetindo ele até você morrer. Miriam, você sabe que errou comigo. Eu vou sorrir quando você dizer adeus.”

? É engraçado, mas quando eu estou feliz gosto de ouvir músicas que eu não entendo. Jorge Ben, por exemplo. Eu não tenho ideia do que ele está dizendo ­?- conta a cantora.

Digo que Jorge Ben é incompreensível também em português, mas ela não entende muito bem a piada. Ainda temos alguns minutos, mas Norah demonstra certa reticência (ou cansaço) de falar mais sobre as suas composições. Enveredo para uma conversa fiada sobre cinema. Comento que My Blueberry Nights, nome do filme que ela protagonizou em 2007 com Jude Law, tem um nome diferente no Brasil ­­(chama-se Um Beijo Roubado) porque não temos tortas de “blueberry”, frutinha azulada por aqui (des)conhecida como mirtilo. Ela fica inconsolável.

­­? Como assim?! Vocês não têm blueberries no Brasil? E quais tortas vocês têm?

A única resposta que me ocorre (juro) é Martha Rocha o que, além de muito idiota, seria impossível de explicar. Respondo com uma evasiva ? “Um monte delas, você vai ver. Menos de blueberry” ?- e o relógio já passa dos 15 minutos. Ouço o assessor entrando na linha cruzada para encerrar a entrevista. Para finalizar, pergunto se o clima sombrio do último álbum estará no próximo:

­­? Eu realmente não sei. Mas amo não saber. Tchau, vejo você no show!

Fico sem saber, portanto, como serão as minhas corridas em companhia de Norah no futuro. Espero, para ambos, que sejam mais ensolaradas.

SERVIÇO DO SHOW:

? Quarta-feira, 21h40min
? Auditório Araújo Viana
? Ingressos: R$ 170 a R$ 250
? Pontos de venda: bilheteria do Teatro do Boubon Country e no dia do show, no Araújo Viana, a partir das 15h.
? Telentrega: 8401 0555, call-center: 4003 1212
? Internet: www.livepass.com.br

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