Atividades domésticas ganham novo status com participação masculina

Figura do homem provedor assume novas formas em nossa sociedade

Associação de Homens Donos de Casa foi fundada em 2003 na Itália e conta com 5,6 mil integrantes que são donos de casa em tempo integral
Associação de Homens Donos de Casa foi fundada em 2003 na Itália e conta com 5,6 mil integrantes que são donos de casa em tempo integral Foto: Associazione Uomini Casalinghi

A figura do homem provedor, que deixa o lar todas as manhãs em busca do sustento financeiro da casa, vem assumindo novas formas a cada dia. Desde que a revolução de costumes iniciada em meados da década de 1960 questionou os papéis até então impostos a homens e mulheres, movimentos e tendências de comportamento volta e meia pipocam pelo planeta.

Assim como as mulheres ingressaram no mercado de trabalho, os homens também trocaram o terno pelo avental e invadiram a cozinha, a despensa, a área de serviço. Antes vistos apenas como os donos da casa, cada vez mais eles dividem os afazeres domésticos com as parceiras, passando a donos de casa.

O poeta e escritor Fabrício Carpinejar se apresenta como um legítimo homem do lar em seu último livro, Borralheiro, Minha Viagem Pela Casa. Para Carpinejar, não importa que atividade se faça, o fato de passar mais tempo em casa ajuda a melhorar os relacionamentos.

– Tu percebes muito mais o que cada um precisa, como reage ao mundo. Coitado do homem que sai de casa sem saber o que a mulher está vestindo, não sabe o que ela está pensando. Não tem como um casal se separar se um lava a louça e outro seca, se um segura a pá e outro a vassoura. São esses pequenos atos que mostram que os dois estão juntos – defende.

O italiano Umberto Mannoia, 54 anos, há 15 em Caxias, deixava os serviços domésticos com a mamma até sair de casa, aos 25. No entanto, para os padrões italianos, Mannoia deixou o lar cedo.

– Só não saí de casa antes porque precisava terminar a faculdade e fazer o serviço militar, que, na Itália, ocorre depois dos estudos – conta.

Mannoia se mudou para outras cidades do Vêneto, inclusive a capital Veneza, para atuar como professor de Educação Física.

– Antes, deixava tudo com minha mãe, porque precisava estudar. Aí fui obrigado a fazer os serviços domésticos quando saí de casa.

Em Veneza, Mannoia conheceu a mulher, a caxiense Lauren Stallivieri. Decidiram ficar juntos no Brasil por acreditar que o país oferecia mais oportunidades de trabalho. O mammismo italiano, no entanto, chamou mais atenção em Caxias do que na própria Itália.

– Aqui se preservou a cultura do italiano, mas também uma mentalidade machista que não existe mais lá. O máximo que o marido daqui faz é o churrasco no domingo, depois senta e come – critica.

Trabalhando como tradutor, Mannoia hoje reveza com a mulher os cuidados da casa e do filho Enzo, sete anos. De manhã, seu expediente é em casa.

– Arrumo as camas, levo o Enzo para a fisioterapia, troco fralda, preparo almoço, faço mercado… – cita ele, entre várias outras tarefas diárias.

Mannoia diz que não tem nenhuma atividade doméstica preferida, mas que se sente bem em colaborar com a família. Para ele, o aumento do número de donos de casa é mais uma necessidade do que uma opção.

– É cultural. Nos últimos 20 anos, raramente os homens contribuíam, porque a economia de toda a família era garantida apenas por eles. E a mulher fazia a casalinga (era dona de casa). Mas ela precisou ir ao mercado de trabalho para auxiliar com as despesas. Os dois trabalham, ou se ajudam ou tem de buscar outras alternativas – explica.

Com o nascimento do filho, portador de necessidades especiais, Mannoia assumiu, além das tarefas domésticas, os compromissos médicos e escolares do pequeno. O trabalho, no entanto, é recompensador.

– Quanto mais você vive essa realidade, mais valoriza o parceiro, pois vê que sozinho você não consegue abraçar tudo – revela.

Essa mudança no comportamento masculino não significa, no entanto, que tudo são rosas para as mulheres. Elas ainda dedicam mais tempo aos serviços domésticos.

Enquanto as brasileiras passam cerca 27 horas semanais na faxina, os homens dedicam 10 horas, segundo pesquisa do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem).

No casos dos caxienses, muitos deles descendentes de imigrantes italianos, a explicação para as dificuldades em se aproximar do universo doméstico está nas origens.

Na Europa, os italianos ainda são os que menos dividem os trabalhos de casa com as mulheres. Elas acumulam 76,2% da demanda familiar, se empregadas, e 89,7%, se ficam em casa. Os dados são da pesquisa Divisione dei ruoli nelle coppie (divisão dos papéis em um casal), realizada entre 2008 e 2009.

Conforme outra pesquisa da Eurostat, enquanto as mulheres gastam 5,2 horas para cuidar da casa, os homens italianos emprestam apenas 1,10. Essa média baixíssima é registrada também porque 24,1% desses italianos não dedicam nem 10 minutos diários para afazeres domésticos. A explicação para esse comportamento pode estar na estrutura familiar.

Os homens italianos são apelidados de mammones, não só pelo apego à comida da mamma, mas à segurança e ao conforto herdados dos pais. Em alguns casos, permanecer em casa não é uma opção, já que a oferta de empregos vem caindo nas últimas décadas, ainda mais com a crise vivida pela Europa atualmente.

Mesmo os que trabalham não ganham o suficiente para morar sozinhos – cerca de 60% dos jovens italianos entre 18 e 34 anos têm um rendimento inferior a mil euros e vivem com os pais.

Se os homens italianos ficam mais em casa, por que não incentivá-los a assumir também as tarefas domésticas? Com essa intenção surgiu a Associazione Uomini Casalinghi (Associação de Homens Donos de Casa), em 2003. A entidade tem sede em Pietrasanta, província de Lucca, na região da Toscana, onde nasceu seu fundador e presidente, Fiorenzo Bresciani.

Hoje, a Uomini Casalinghi já conta com 5,6 mil membros, que são donos de casa em tempo integral. A última estatística do Instituto Nazionale per l’Assicurazione contro gli Infortuni sul Lavoro (Inail), divulgada em 30 de dezembro de 2010, aponta que há na Itália 22,6 mil donos de casas, mas a associação faz uma previsão de que esse número possa alcançar 40 mil, já que nem todos se assumem como tal.

– Existe sempre uma parte dos homens que ainda discrimina essas atividades, mas é questão tempo para eles entenderem – explica Bresciani, em entrevista por e-mail.

A associação promove atividades domésticas e cursos para os homens que não estão preparados para a vida doméstica.

No entanto, o papel da Uomini Casalinghi é muito mais abrangente.

– Todos os homens que fazem parte da associação querem se aproximar do mundo feminino e da família.

A associação quer divulgar esse novo homem, mostrar que ele também pode trabalhar em casa.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna