Atraídos pelo embalo do funk, jovens de classe alta frequentam bailes em morros e vilas de Porto Alegre

Do Campo da Tuca ao bairro Mário Quintana, a periferia nunca recebeu tanta gente endinheirada

MC Pocahontas agita a Mansão, boate em meio a 18 vilas que recebe "cada vez mais mauricinhos"
MC Pocahontas agita a Mansão, boate em meio a 18 vilas que recebe "cada vez mais mauricinhos" Foto: Dani Barcellos

Já passam das quatro da manhã – as paredes da vila ainda tremem, as janelas vibram e os vira-latas se escondem morro abaixo.

É violento o som que escapa do galpão situado em uma ruela de chão batido no Campo da Tuca, comunidade pobre da zona leste de Porto Alegre. Lá dentro, na penumbra do baile funk, o pancadão fica mais nervoso com a profusão de luzes piscantes e com a letra que anuncia: “Vou falar as quatro coisas que toda bandida gosta / Carro, dinheiro, luxo e piroca”. Centenas de garotas empinam os glúteos para rebolar.

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Boa parte delas vive ali mesmo ou nos arrabaldes, mas há forasteiras por todo lado – um exemplo é a estudante de Direito de 22 anos que pede para a reportagem ocultar sua identidade. Seu pai, um fazendeiro abastado com quem ela mora em uma casa de quatro pisos na Capital, não sabe que a filha frequenta a festa no meio da vila. No escritório onde estagia, talvez a informação pegue mal.

? O preconceito é enorme, mas entre os jovens isso está mudando. Na faculdade, quando digo que venho aqui, minhas colegas ficam curiosas e me pedem para trazê-las. Tem vindo muita gente de classe alta para cá ? conta a garota de olhos azuis, exibindo cabelo e relógio dourados, gritando para ser ouvida enquanto a música proclama: “Hoje minha vida é outra, tô na vida de bacana / Meu dormitório parece boate, mais de 10 minas na cama”.

 
Jovem não mostra o rosto porque o pai reprovaria sua presença na vila: “O preconceito é enorme” Foto: Carlos Macedo

Do samba à capoeira, passando pelo forró e agora o funk, não é de hoje que a cultura da periferia desperta atração na burguesia. Mas a recente ascensão da nova classe C, formada por 37 milhões de brasileiros que deixaram a pobreza para virar consumidores, expôs com intensidade inédita o estilo de vida dessa camada social para o país inteiro – inclusive para os ricos.

? Os meios de comunicação perceberam um novo mercado e abriram um espaço imenso para as manifestações culturais dessa classe emergente. Novelas, programas de variedades, atrações musicais, muita coisa agora enaltece a estética da periferia ? analisa o historiador carioca Micael Herschmann, pós-doutor em Comunicação e autor do livro O Funk e o Hip-Hop Invadem a Cena.

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Basta somar essa badalação do cotidiano suburbano ao natural interesse do jovem pela transgressão e pela novidade – e também por uma pitada de risco – que o resultado é previsível: lá vai a turma se enfiar na favela. No baile funk do Campo da Tuca, rapazes endinheirados mimetizam tudo o que as letras do pancadão apregoam.

Em um camarote no mezanino, os amigos Leonardo Damião, 25 anos, e Gilson da Silva, 27, torram dinheiro dos pais em vodca, uísque e energético (eles gastariam juntos R$ 3,7 mil naquela sexta-feira), cercados por sete mulheres que sacolejam cantando uma ode aos bens materiais: “BMW, Audi Q7, um Infinity Camaro / Nós dá banho nas piranha com champanhe do mais caro”. No entorno da área vip, outras garotas de minissaia e barriga de fora aguardam um convite para beber de graça no espaço reservado – a maioria delas pagou ingresso de R$ 20 para entrar na festa, enquanto um bilhete nos camarotes custa até R$ 55.

 
Minissaias, shorts e tops sumários compõem o figurino feminino no Campo da Tuca Foto: Carlos Macedo

? O bagulho aqui é ostentar. É usar boné da hora, relógio da hora, camisa da hora ? ensina Gilson, estudante de Enfermagem cuja família tem cerca de 20 imóveis só para aluguel, e por isso ele veste Lacoste, Rip Curl, Puma e exibe no pulso um relógio Ferrari. ? Se o cara do camarote ao lado pede dois kits (com 10 latas de energético e uma garrafa de vodca, cada kit custa R$ 300), eu mando baixar quatro. Quem mais ostenta, mais mulher atrai.

Essa perspectiva consumista é o elemento central de um subgênero recente do funk carioca, no qual se enquadram todos os trechos de músicas reproduzidos neste texto: o funk ostentação. Em alta nas periferias, as letras que valorizam carros importados, roupas de grife, bebidas caras e mulheres exuberantes aproximam do subúrbio playboys exibidos.

? Quando estou meio triste, boto um cordão de ouro no pescoço, venho ao baile funk e peço cinco garrafas de espumante no camarote. A mulherada vem naturalmente, e saio daqui me sentindo o cara. Porque aqui ostentar é bonito; não é visto como brega ou pedante, como nas festas de rico que eu frequento ? explica um estudante de Administração de 23 anos, pedindo a preservação de seu nome porque o pai, dono de uma empreiteira, detestaria saber que o filho e sua Hyundai Tucson estão no Campo da Tuca.

Mas é simplista julgar o funk ostentação apenas como uma exaltação da futilidade. Conforme a antropóloga Ilana Strozenberg, doutora em Comunicação e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, trata-se de um grito de autoafirmação de uma camada social que, até poucos anos atrás, não tinha sequer os direitos mais básicos atendidos:

? É a nova classe C dizendo “eu existo, eu também sou cidadã, eu também tenho direitos”. Ou seja, se o rico tem carro e roupa bonita, agora esse pessoal que antes era apartado da sociedade de consumo também pode ter. O funk ostentação se resume em uma frase: “Agora é a nossa vez”.

Todo esse modismo ostentador envolve, claro, uma espécie de dress code – que, para os jovens de classe alta, não deixa de ser uma fantasia. Boné de aba reta, corrente vistosa e camisetão para eles; shorts e tops sumários para elas. Talvez o local de Porto Alegre com a maior concentração desses “funkeiros de apartamento” (como moradores dos subúrbios chamam os forasteiros) seja a casa noturna Mansão, no bairro Mário Quintana.

 
Aline compara o baile funk aos eventos de gente rica: “Lá fica todo mundo se comparando” Foto: Dani Barcellos, Especial

Inaugurada em novembro do ano passado, a boate foi concebida por um grupo de empreendedores que identificou 18 vilas sem muita opção de lazer na zona norte da Capital. Trata-se, portanto, de um espaço voltado ao público da periferia – a localização, nos confins da Avenida Protásio Alves, não pode ser mais estratégica.

? Jamais pensamos em atingir a elite. Mas, de uns seis meses para cá, começaram a vir mauricinhos: eles alugam camarotes e gastam R$ 5 mil, R$ 10 mil em uma noite ? afirma o gerente Maicol Smith.

Frequentadora da Mansão, a modelo e estudante de Nutrição Aline Zamel, 22 anos, atrai olhares com seu vestido de zebrinha que começa no vale do entresseios e termina no sopé das nádegas. No palco, quem agita a fuzarca para mil pessoas é a funkeira carioca MC Pocahontas, rebolando e apontando o traseiro para a plateia: “Gosto de gastar, isso não é novidade / Hoje eu já torrei mais de 10 mil com a minha vaidade”.

Aline se identifica, diz que as letras refletem “a vida real” – não só a vida real do morro, mas também a dela própria, que mora com a mãe em uma casa confortável no bairro Rio Branco, a 10 quilômetros dali – e explica por que prefere o baile funk às festas da classe A:

? Eu uso roupas curtas e, aqui, me olham com admiração. Lá, me olham com julgamento. Em festa de patricinha, fica todo mundo se comparando.

 
O empresário Petuco: camisa Armani em festas chiques, boné e cordão de ouro na periferia Foto: Dani Barcellos, Especial

Ou seja, o que é malvisto nas “festas de patricinha” é estimulado no ambiente do funk. Especialmente as extravagâncias, como o cordão de ouro com pingente de fuzil que o empresário Luiz Fernando Petuco Junior, 33 anos, exibe dois palmos abaixo do boné verde.

? Quando vou na Provocateur (boate de luxo de Porto Alegre), visto camisa Armani e calça justa. Mas, se você quer atenção, precisa dançar conforme a música ? ele sorri, mexendo na chave do Mercedes que deixou no estacionamento e pedindo outro champanhe para as garotas no camarote.

? Um homem que paga tudo chama a atenção de qualquer mulher ? reconhece a estudante de Direito Susana Jung, 23.

Mas há um motivo mais simples que arrasta burgueses para a Mansão ou para o Campo da Tuca, muito bem descrito em um funk já meio antigo, mas que até hoje levanta o público em qualquer festa de classe média: “É som de preto, de favelado / Mas quando toca ninguém fica parado”.

VÍDEO: conheça o baile funk no Campo da Tuca, em Porto Alegre

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