Atriz gaúcha Tainá Müller fala sobre a vida pós-Tropa de Elite 2

Enquanto comemora o sucesso do filme, ela se prepara para a novela Insensato Coração

Tainá interpreta uma repórter no filme "Tropa de Elite 2"
Tainá interpreta uma repórter no filme "Tropa de Elite 2" Foto: Divulgação

Depois de estrear nas telas em 2008 com Cão sem Dono e de participar dos filmes Se Nada Mais Der Certo e Plastic City — coprodução entre Brasil, China e Japão —, a atriz gaúcha Tainá Müller comemora o êxito de Tropa de Elite 2 e aguarda a estreia de As Mães de Chico Xavier. Prestes a encarnar sua primeira vilã em Insensato Coração, próxima novela das oito, Tainá fala com entusiasmo da jornalista que encarna no drama policial em cartaz atualmente nos cinemas: 

— A voracidade com que ela quer a notícia é a mesma com que quero fazer bem uma cena. Atuar também é uma forma de comunicar. Namorar ator facilita na hora de compreender nosso próprio trabalho Estou tendo muito retorno do “Tropa de Elite 2”. São raras as vezes em que se consegue fazer um filme no Brasil que diverte e faz pensar.

Depois de uma maratona de entrevistas de divulgação de Tropa de Elite 2 na semana passada, Tainá Müller resolveu descansar três dias em Buenos Aires. Mas a violência urbana perseguiu a atriz também na Argentina: o táxi que a levava do aeroporto para o hotel foi atacado por manifestantes de um protesto justamente contra a falta de segurança na capital do país. Assustada, Tainá abandonou o carro correndo e, na pressa, esqueceu de pegar a bagagem. Quando voltou, o táxi não estava mais lá…

Mas o carma pesado está passando: a porto-alegrense de 28 anos está curtindo o sucesso de público de Tropa de Elite 2, filme assistido por quase 3 milhões de pessoas e no qual interpreta uma repórter investigativa — Tainá é formada em jornalismo pela PUCRS. Depois da jornalista Clara, a bela viverá no cinema a professora Lara, uma das três protagonistas de As Mães de Chico Xavier — o longa dos diretores Glauber Filho e Halder Gomes tem data de estreia marcada para 1º de abril de 2011, véspera do aniversário do médium.

— Brinco dizendo que, depois que eu morri (seu personagem é assassinado em Tropa de Elite 2), quis conhecer o céu – contou Tainá em entrevista ao caderno Donna, por telefone.

Vivendo em São Paulo, Tainá mora desde o ano passado com o ator gaúcho Julio Andrade — o mordomo gay Arthurzinho de Passione. A correria de gravações da novela no Rio dificulta a conciliação das agendas do casal — segundo Tainá, eles só andam se encontrando duas vezes por semana.

— Mas namorar ator facilita na hora de compreender nosso próprio trabalho — contemporiza.

A ex-modelo que decidiu “virar atriz” enquanto trabalhava com moda em países asiáticos como Tailândia, Hong Kong e China, estreou no cinema contracenando com o atual namorado na pele de uma modelo em Cão sem Dono (2007), filme de Beto Brant e Renato Ciasca rodado em Porto Alegre e que lhe rendeu o troféu Calunga de melhor atriz do 11º Cine PE. Depois de participar de duas novelas, Tainá volta à TV na próxima trama das oito, que deve entrar no ar em meados de janeiro de 2011. Em Insensato Coração, escrita por Gilberto Braga, a gaúcha interpretará uma patricinha má que manipula o pai banqueiro (Herson Capri). Paula será a primeira vilã de Tainá.

— A novela terá um núcleo em Porto Alegre e outro em Florianópolis, mas eu farei parte do núcleo carioca. É engraçado porque eu moro há cinco anos em São Paulo, mas eu abro a boca aqui e todo mundo nota que sou gaúcha.

ENTREVISTA

Donna – De que maneira você está vendo o sucesso de Tropa de Elite 2?
Tainá Müller – Estou tendo muito retorno bacana, muita gente já assistiu. Essa coisa do recorde não me surpreende muito, eu imaginei que o filme teria esse tamanho. Fiquei muito orgulhosa, são raras as vezes em que a gente consegue fazer um filme no Brasil que diverte e também faz pensar.

Donna – Como o diretor José Padilha escalou você para o filme?
Tainá – Ele já conhecia meu trabalho e me chamou para um teste, com outras atrizes. Fiz uma pré-seleção em novembro de 2009, passei e fiz um teste-oficina com a Fátima (Toledo, preparadora de elenco), que durou alguns dias. Nunca pensei que iria fazer Tropa de Elite 2, mas quando o Padilha disse que eu iria fazer o papel de uma jornalista, já senti que poderia dar certo.

Donna – Por quê?
Tainá – Porque, quando ele me chamou para o teste, eu estava vivendo bem a intensidade das gravações de A Liga (programa da Band que mistura jornalismo e humor), em que eu dormi na rua com mendigos, catei lixo no Gramacho (bairro de periferia paulistano onde se localiza um aterro sanitário), me disfarcei de prostituta… Então, aquilo era o mais próximo que eu tinha chegado do universo da Clara, que é uma jornalista sagaz, engajada, que tem uma visão romântica da profissão e precisa ser durona para subir na favela e botar a vida em risco por uma boa matéria. Eu estava muito naquela vibração e, quando o Padilha me chamou, senti que era o fluxo de um momento que eu estava vivendo.

Donna – Você já tinha estudado na escola da Fátima Toledo antes. Como foi a preparação com ela para Tropa de Elite 2?
Tainá – Eu nunca tinha trabalhado com ela, e foi a melhor coisa para o filme. A gente não consegue ter noção, no conforto do lar, do que é aquela brutalidade toda. Então, para mim, foi muito importante essa preparação de dois meses com ela. Eu me senti transformada depois. Acho que esse é o poder da Fátima: ela ajuda a gente a fazer o ator desaparecer para que o personagem surja. Me senti saindo mais forte dessa experiência.

Donna – Muitos atores, inclusive de Tropa de Elite 2, relatam que o trabalho com Fátima Toledo é tão intenso que até as pessoas mais próximas percebem neles alterações de comportamento.
Tainá – O João Miguel (premiado ator baiano de filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus e O Céu de Suely), que é muito nosso amigo, me disse um dia, falando comigo ao telefone: “Tainá, eu não tô te reconhecendo!”. Ele notou que eu estava diferente. O próprio Julinho também percebeu isso. Mas ele sabia que, como eu estava em um processo muito forte com a Fátima, não era legal nem ele ficar muito próximo (risos).

Donna – Muitos dos teus diálogos em Cão sem Dono passam a impressão de terem sido improvisados. Já em Tropa de Elite 2 parece não ter havido espaço para improvisação. Fale sobre a diferença de trabalhar com os diretores Beto Brant e José Padilha.
Tainá – Gosto muito de improviso. Apesar de o Beto não ser tão regido pelo roteiro, tanto nele quanto no Padilha tem uma partitura, e ali tem um jazz. Gosto muito de diretores que deixam a coisa acontecer. Durante a filmagem de Tropa de Elite 2, tive que sustentar aquela sensação de bicho prestes a ser abatido por 40 minutos na cena em que os milicianos vão me torturar. Foram dois meses de trabalho duro para aquilo, me preparando para passar a sensação de que vou morrer logo no filme. Claro que eu levei muito tapa na cara nesse período, né? Aí, na hora de filmar, o Padilha ficou preocupado comigo, disse que a tortura era psicológica e que preferia não mostrar a violência, deixar tudo subentendido. Daí eu falei: “Peraí, pelo menos um tapa eu quero levar em cena!” (risos).

Donna – Fale um pouco de seu personagem em As Mães de Chico Xavier.
Tainá – Sou uma das protagonistas, ao lado da Vanessa Gerbelli e da Via Negromonte. Não vi o filme ainda, mas acho que é bem delicado. A Lara é uma menina meio riponguinha, que engravida de um namorado que não quer assumir o filho. Ela fica o filme todo nesse dilema se aborta ou não. No final, depois de uma tragédia, Lara acaba tendo um encontro transformador com Chico Xavier, que é vivido de novo pelo Nelson Xavier (o ator já havia interpretado o médium no filme Chico Xavier).

Donna – Como foi sair da rodagem de um filme policial para um espírita?
Tainá – O Tropa de Elite 2 foi algo brutal! Depois do filme, comecei a fazer meditação transcendental e acupuntura. Foi bom pra voltar daquela experiência, sabe? Isso abriu minha cabeça, me deu uma outra perspectiva a respeito dessa coisa mística que eu nunca tinha trabalhado antes. E aí surgiu esse convite para As Mães de Chico Xavier. Eu achei engraçado, porque veio depois do Tropa e das reportagens de A Liga, que foram terríveis. Nada na minha vida foi mais horrível do que dormir com os mendigos! Eu fiquei um mês tentando me recuperar daquilo porque, quando ia dormir, eu me lembrava daquelas crianças que continuavam dormindo na rua e com quem eu convivi… Então, ter aparecido esse filme sobre espiritismo foi como um ciclo fechando, que eu não vejo só como coincidência. Comecei a ler livros espíritas, e isso me despertou para outras possibilidades, deixei o agnosticismo. Hoje, eu entendo a popularidade do espiritismo no Brasil. Ela é a uma doutrina muito confortável, não é excludente. É como se fosse o estudo científico do misticismo.

Donna – Já a Paula, da novela Insensato Coração, é completamente materialista, certo?
Tainá – Ela é uma patricinha, filha de um banqueiro vivido pelo Herson Capri, que coincidentemente também está no elenco de As Mães de Chico Xavier. Ela é uma grande parceira do pai e é uma vilã, daquelas que fala mal dos pobres e coisas do gênero, bem esnobe. Agora, não sei se o público vai rir disso, se vai odiar… Vai depender muito de como eu vou construir o personagem. O que eu acho bacana é que as novelas do Gilberto (Braga) são muito boas para os vilões.

Donna – É a primeira vilã da tua carreira. Qual é a tua expectativa com esse papel?
Tainá – O vilão te dá muito mais liberdade: ele pode ser louco, engraçado, detestável, inseguro… Ele pode ser tudo, ele pode ser bonzinho, inclusive. Ele pode mentir, pode falar a verdade. É natural que as pessoas até se identifiquem mais com o vilão porque, afinal de contas, ele acaba infelizmente falando coisas que as pessoas gostariam de dizer e não falam. Não consigo dissociar minha profissão da minha vida pessoal, acho que por isso eu virei atriz: descobri uma forma de crescer como pessoa. Em apenas dois anos, dormi na rua, fui uma jornalista idealista, encontrei Chico Xavier, agora vou interpretar uma garota hipermaterialista que anda de carrão. Vivi todas essas minividas.

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