Atriz transforma experiências de uma balzaquiana em peça teatral

Mônica Martelli vive personagem disposta a ir a Marte em busca do grande amor

Mônica Martelli apresenta a comédia pelo Brasil
Mônica Martelli apresenta a comédia pelo Brasil Foto: Divulgação

Para entender o fenômeno Mônica Martelli é necessário voltar um bocado no tempo. A data é maio de 2005, e o cenário, o Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Ali, em cima do palco, a atriz Mônica Martelli dá vida a Fernanda, uma cômica balzaquiana, organizadora de festas de casamento e disposta a ir a Marte em busca do grande amor.

O teatro vive lotado, e o sucesso da peça Os Homens são de Marte… E é Pra lá que eu Vou chama a atenção da respeitada crítica teatral Bárbara Heliodora. Ela sai do espetáculo encantada. No dia seguinte, inicia assim seu elogioso texto no jornal O Globo: “O pequeno e simpático Teatro Cândido Mendes tem sido veículo de uma série de comédias bem-sucedidas, e Os Homens são de Marte… E é Pra Lá que eu Vou se apresenta como candidata a continuadora desse veio”.

Era o início de um presságio. Logo, o teatro de apenas cem lugares pareceu ainda menor. Mônica precisou estender a temporada duas vezes. Não deu vazão. Transferiu-se para o Teatro Vanucci, na Gávea, com lotação para 430 pessoas. Durante dois anos, viveu com a casa cheia. Iniciou temporada em São Paulo, no Teatro Procópio Ferreira, com capacidade para 700 lugares. A cena se repetiu. No mês passado, quatro anos após a estreia, contabilizava meio milhão de espectadores e quase mil apresentações. Encerrou a temporada e saiu em turnê nacional. É este fenômeno que chega agora a Porto Alegre para duas únicas apresentações, nos dias 23 e 24 de abril, no Teatro do Bourbon Country.

Qual o segredo do sucesso de um monólogo que iniciou sem qualquer patrocínio, financiado com R$ 20 mil doados pela família e amigos e interpretado por uma atriz sem chamariz de estrela global? O fato de Mônica acertar no timing da comédia, o que dá ao espetáculo o tom verossímil que faz toda a diferença. Mais: como o texto é escrito por ela, baseado em suas próprias experiências pessoais, Mônica sabe melhor do que ninguém sobre o que está falando.

– A idéia surgiu quando eu estava solteira, louca e desesperada – lembra ela. – A peça não tem frase pronta. São histórias que vivi e sofri.

Histórias hilárias acumuladas em três anos de solteirice, época em que mostrava disposição para todo e qualquer programa que proporcionasse a ilusão de encontrar a alma gêmea – de Carnaval fora de época em Salvador a passeios de barco com endinheirados cariocas. As desilusões sempre foram encaradas com otimismo. Aliás, Mônica é engraçada até quando fala sério.

– Sempre lidei com bom humor diante de relacionamentos malsucedidos – observa. – Levantava a poeira e dizia: “Quer saber? Não era pra ser!”.

O bordão ela repete um sem número de vezes em cima do palco – e arranca gargalhadas da plateia.

Outro drama da vida real transportado para o texto da peça é a altura da atriz: 1m80cm.

– Nas festas, todos olham para a mulher alta. Ela chama atenção, mas só serve de enfeite. Os homens não se aproximam – conta. – No meio da noite, você vê todas as baixinhas se dando bem e as grandonas sozinhas, enfeitando a festa. Mulher alta não pode ficar encalhada, não! Todo mundo repara.

A queixa vem da infância. Desde os 15 anos, Mônica é uma mulher alta. Ter 1m80cm em Macaé, cidadezinha onde nasceu, no interior do Rio, é diferente de ter 1m80cm em Paris, segundo ela.

– Em Paris, uma pessoa alta no mínimo anda empinada. Em Macaé, eu me encurvava para ter 1m77cm e vivia olhando para baixo.

Na escola, ela era a “Perna de Garça”. Na adolescência, no Rio, virou “Monicão”.

– Na minha turma, tinha a Regininha, a Robertinha, a Patricinha… E eu era o Monicão. Sempre estive completamente fora dos padrões de beleza.

A resignação teve fim quando se mudou para os Estados Unidos, aos 18 anos, para aprender inglês. Trabalhou como baby-sitter, viu e conheceu pessoas tão ou mais altas do que ela, recuperou a autoestima e, passados três anos, voltou ao Brasil com uma certeza: queria ser atriz.

Filha de um empresário e de uma dona-de-casa, irmã do meio de uma médica e de um matemático, encontrou na família o incentivo para trilhar uma profissão fora dos padrões convencionais. Matriculou-se na CAL (Centro de Artes de Laranjeiras), a escola de teatro que se celebrizou ao formar grandes safras de atores nacionais, como Patrícia Pillar, Marcos Palmeira e Camila Morgado. Formou-se em teatro e Jornalismo.

Apesar do talento, nunca estourou na televisão. Seu primeiro trabalho foi o programa Chico Total, na TV Globo. Chico Anysio a convenceu a trocar o sobrenome Garcia por Martelli, porque Mônica Garcia soava como cacófato.

Já como Mônica Martelli estreou em horário nobre na novela Por Amor, em 1996. Era a secretária de Antônio Fagundes e passou a novela inteira usando a mesma sapatilha para não ficar mais alta que o ator em cena. Emendou uma série de participações no Zorra Total. Em um dos quadros, fazia um personagem que era metade homem, metade mulher.

Um belo dia, cansou. Sabia que podia mais. Não bateu na porta de diretor ou escritor algum. Reuniu a família e os amigos e, literalmente, passou a caixinha de doações. Conseguiu R$ 20 mil para montar sua própria peça. Compilou em texto todas as desventuras amorosas e convidou o argentino Victor García Peralta para dirigi-la. Era o início da volta por cima.

– Minha vida é dividida entre antes e depois de Os Homens são de Marte… E é Pra lá que eu Vou – admite. – O sucesso da peça fez com que uma luz se acendesse sobre mim, abrindo uma série de oportunidades.

Vencedora do Prêmio Qualidade Brasil em três categorias: melhor atriz, melhor direção e melhor espetáculo, foi convidada para atuar nos filmes Trair e Coçar é só Começar, Gatão de Meia Idade e Só Por Hoje. Fez uma espécie de reestreia na televisão. Ganhou dois papéis em uma mesma novela, Beleza Pura, da Globo, em que interpretava Helena e Mateuzão. Diretor de Beleza Pura, Rogério Gomes fez questão de adequar os horários das gravações à rotina da atriz, dividida entre o Projac, de segunda a quarta, e as apresentações da peça, de quinta a domingo, no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. O canal GNT também quis para seu elenco a irreverência de Mônica Martelli. Mal terminou a novela, ela emendou como protagonista da série Dilemas de Irene. A atração semanal já vai para sua segunda temporada e mostra situações ora banais, ora inusitadas vividas pelas mulheres.

Aos 40 anos, a vida da Mônica Martelli de hoje, essa atriz que transita com desenvoltura pelo sucesso, está um bocado diferente da vida da Mônica Martelli que estreou timidamente quatro anos atrás. Hoje, ela pode se dar o luxo de fazer uma pausa. E fará, tão logo encerre a turnê da peça em Curitiba no dia 26 de abril. Casada com o produtor musical americano Jerry Marques (ele assina a trilha sonora do espetáculo), Mônica espera o primeiro filho, uma menina. Acaba de entrar no quarto mês de gestação e comemora a gravidez como uma espécie de presente divino após dois abortos espontâneos.

– Engravidar com 40 anos não é tão simples como dizem. Óvulo tem data de validade – alerta.

O casal está junto há sete anos.

– O otimismo da Mônica é incrível e contagia – elogia Jerry.

PS: Mônica encontrou Jerry aqui na Terra mesmo. Não precisou ir a Marte para buscá-lo.

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