Avanços na ciência dão mais segurança a mulheres que desejam ter filhos após os 40 anos

Fertilização em laboratório, tratamentos e exames eficazes possibilitam o sonho da maternidade

Betty Gofman, 45 anos, a Help na novela Ti-ti-ti, espera a chegada das gêmeas Alice e Helena a qualquer momento
Betty Gofman, 45 anos, a Help na novela Ti-ti-ti, espera a chegada das gêmeas Alice e Helena a qualquer momento Foto: Murillo Meirelles

Celine Dion aos 42. Solange Couto aos 54. Betty Gofman aos 45. Fernanda Torres aos 42. Cássia Kiss aos 46. Em comum? Mães numa idade em que décadas atrás só lhes restaria o título de avós.

Hoje, mais do que fertilizar óvulos e espermatozoides em laboratório, entre outros tratamentos já consolidados, a medicina de reprodução oferece exames clínicos mais eficazes e diagnósticos mais apurados. Essa realidade tem possibilitado o sonho da maternidade numa idade mais avançada.

? Na década de 90, uma mulher que tinha o primeiro filho a partir dos 33, 34 anos era definida como “primigesta idosa”. Hoje não usamos mais esse termo. Se for saudável, uma mulher pode  ter filhos aos 40 anos e ser considerada jovem ? esclarece o especialista em reprodução humana Nilo Frantz.

Apesar de ser cada vez mais comum mulheres engravidarem tardiamente ? dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o número de mulheres que engravidaram pela primeira vez após os 40 anos cresceu 27% em 10 anos no país ?, o envelhecimento dos ovários ainda é um empecilho. A partir dos 35 anos, o potencial reprodutivo do óvulo começa a diminuir drasticamente ? cientistas especulam inclusive que, em função de estresse, fatores ambientais, laborais e maus hábitos, isso tende a piorar ainda mais com o passar do tempo. 

? O problema em si não é a gravidez, mas a dificuldade de fertilizar o óvulo. Hoje conseguimos tratar uma série de doenças, como endometriose, mas o número e potencial reprodutivo de óvulos não têm tratamento. Seria a mesma coisa que querer descobrir a fonte da juventude  ? compara Frantz.

Há dois anos os médicos contam com o exame que mede o hormônio antimulleriano, que identifica o potencial de óvulos funcionantes nos ovários. Outra técnica utilizada, com a mesma função, é a contagem de folículos antrais por meio de ecografia transvaginal. Especialistas também alertam que, a medida que aumenta a idade da mãe, cresce o risco de algum problema com o bebê, como a maior possibilidade de má-formações e de ter Síndrome de Down.

? Sabe-se que a qualidade dos óvulos é igual à idade da mãe. Se a idade da paciente é avançada, o ideal é que ela receba óvulos doados ? aponta o médico Carlos Link, lembrando que a paciente recebe óvulos de uma mulher mais jovem, e por isso os riscos do bebê ter má-formação acabam sendo baixíssimos.

A médica Mariangela Badalotti reitera que o processo reprodutivo depende também do útero e do espermatozoide. Segundo ela, o útero envelhece como qualquer outro órgão e não é incomum um maior número de abortos a medida que a mulher avança na idade.

E apesar de o homem seguir produzindo espermatozoides, a qualidade deles também vai diminuindo. 

? Para engravidar mais tarde, torna-se ainda mais importante o bom estado de saúde da mulher, um estilo de vida saudável e um pré-natal adequado, para que a gravidez não impute riscos maiores ? assinala.

Na hora certa

Com sua pequena Luiza nos braços ? nascida no último dia 23 de março ?, a empresária Rosane Krauspenhar, 42 anos, sente-se a mulher mais feliz do mundo. E como se não bastasse, ela faz questão de dizer: quer ser a melhor mãe do mundo. Aos 35 anos, quando resolveu que estava na hora de ser mãe, a porto-alegrense descobriu que não seria fácil engravidar.

? Me diziam que era mais difícil depois dos 30, mas por mais que a gente seja saudável, se olhe no espelho e veja uma guria, nossas células têm 35 anos ? conta Rosane, que adiou a maternidade por causa de sua rotina intensa como dona de loja de sapatos e porque queria curtir mais tempo o casamento.

Quando decidiu engravidar, logo procurou tratamentos para infertilidade. Chegou a fazer uma primeira fertilização, que não deu certo. Na segunda tentativa gerou Luiza e deixou outros embriões congelados, caso queira que os irmãos gêmeos da menina venham ao mundo. O que pode acontecer em breve.

O que fazer

Congelamento de óvulos é uma das opções

:: Mulheres que preveem uma gestação tardia podem congelar seus óvulos para usá-los quando chegar a hora da gestação. O primeiro passo consiste na estimulação ovariana realizada por meio do uso de medicamentos à base de hormônios gonadotróficos, ocasionando o crescimento dos folículos ovarianos. 

:: Esse crescimento é acompanhado por ultrassonografia. Quando os folículos alcançam o tamanho adequado, é agendada a coleta dos óvulos. 

:: Os óvulos são levados ao laboratório onde será escolhida a técnica de criopreservação adequada. O procedimento final mantém os gametas à temperatura de -196 ºC, em nitrogênio líquido, por tempo indeterminado.

O recado das atrizes

Encarar a maternidade depois de uma certa idade é um desafio. O Vida conversou com duas atrizes muito queridas pelo público para saber como está sendo a experiência. Do alto dos seus 54 anos, Solange Couto, a Sancha, da novela Ribeirão do Tempo, da Rede Record, confessa que se assustou bastante quando ficou sabendo que esperava um filho do marido, o estudante de engenharia, Jamerson Andrade, 30 anos mais novo do que ela. Com 18 semanas e à espera de um menino, a artista, que é mãe de um casal, diz que não planejou a gestação e só conseguiu a façanha porque tem ótima saúde.

A atriz global Betty Gofman, 45 anos, cujo último trabalho foi a personagem Help na novela Ti-ti-ti, espera a chegada das gêmeas Alice e Helena a qualquer momento.

Vegetariana, ela também considera que seus hábitos saudáveis foram fundamentais para que pudesse realizar o sonho de ser mãe.

Entrevista: Solange Couto

“Não deixem de realizar seus sonhos”

:: Sua gravidez foi concebida naturalmente?

Solange Couto: Sim. É raro acontecer, mas não é impossível. Na internet mesmo, fazendo uma pesquisa, de cem comentários, 98 desejam tudo de bom. Um fala que eu tinha que ser avó. E aparecem diversas pessoas comentando o seus casos. Então, isso não é tão raro, assim. Teve gente que disse: nossa, você é maluca? Por quê? Eu tenho marido, tenho uma vida sexual ativa, eu menstruava, não estava na menopausa.

:: Como você está passando? Você mudou algum hábito?

Solange: Absolutamente normal, é tão tranquilo que tem hora que dá nervoso. Estou com 18 semanas. Estou gravando duas vezes por semana (a novela Ribeirão do Tempo, da Record), mas em casa fico em repouso, não absoluto, mas escada é evitado. Não posso carregar peso nem a minha bolsa meu marido deixa eu carregar. A pedido do médico também tirei o sal praticamente todo da minha comida, assim como gordura, fritura e açúcar. Mas nada fora dos padrões.

:: Como é estar grávida aos 54 anos?

Solange: É como se fosse a primeira vez. Essa noite, eu acordei como bebê mexendo muito e foi susto. De manhã liguei para a minha médica, e ela disse que era normal. Tive um filho aos 18 e uma filha aos 35.

:: Há alguma diferença entre ter um filho na sua idade e mais jovem?

Solange: A paciência. Quando uma mulher na minha idade é avó, essa pessoa já tem uma vida construída, tem uma estabilidade emocional muito maior, um conhecimento diferenciado. Eu ainda não sou avó. Mas sei que é uma paciência que mãe não tem. 

:: Será uma relação parecida a que você terá com o bebê?

Solange: O tempo que eu não tive para cuidar dos meus filhos será todo dedicado para esta criança, por conta disso vou ser uma mãe muito melhor do que já fui. 

:: O que tu dirias para mulheres que querem ser mães com idade mais avançada?

Solange: Não deixem de realizar seus sonhos. Se a pessoa é acompanhada, se trata-se corretamente, não há problema.

Entrevista: Betty Gofman

“Quando a gente quer, tem de ir à luta”

:: Você planeja ter parto normal?

Betty Gofman: É complicado. As duas já viraram, estão na posição, estão bem, e eu gostaria de ter parto normal, é sempre mais indicado. Se tiver tudo favorecendo, eu vou ter. Se não, não vou forçar a barra. 

:: Sua gravidez está sendo tranquila?

Betty: Sim,  só tive enjoos e azia. Eu sempre fiz muito exercício, natação, ioga. Continuei com a minha alimentação, pois sou vegetariana, e não tive nenhuma anemia. 

:: Ter filhos mais tarde era um desejo seu?

Betty: Sim. Não tão mais tarde, mais a partir dos 38, dos 40. Eu não queria ter filho muito cedo, não. Porque estava fazendo minha coisas, viajando, trabalhando… Preferiria ter na hora que eu pudesse parar, ficar mais tranquila, com a vida mais encaminhada, mais dona do meu nariz, sem depender de ninguém e também foi a hora que eu encontrei um parceiro que meu deu essa segurança. 

:: Você está preparada?

Betty: Não sei, e só vou saber na hora. Acho que vai ser uma trabalheira e como eu tenho um instinto maternal muito forte provavelmente vou passar por momentos difíceis, mas vou fazer o melhor que eu puder. 

:: O que você diria para mulheres que querem engravidar e já passaram dos 40?

Betty: Acho que quando a gente quer muito uma coisa tem que ir a luta. As pessoas que convivem comigo acham que eu tenho um instinto maternal muito forte, minhas amigas ficaram inclusive muito emocionadas quando eu disse que estava grávida, porque não só eu estava com vontade, mas eu tinha esse instinto e até mesmo a vontade de adotar. E, se fosse preciso, eu faria. Mas eu tinha também muita vontade amamentar, dessa coisa da gravidez, isso foi inclusive um dilema para mim. Acho que, se a pessoa tem desejo de ser mãe, ou faz um tratamento ou adota, que é tão maravilhoso como. E a gente tem que levar nossos desejos até o fim, para não ficar triste depois. Estou muito feliz com as minhas duas meninas.

Leia mais
Comente

Hot no Donna