Biografia de Oprah Winfrey não perdoa passado complexo da apresentadora

Americana teve sua história esmiuçada por biógrafa de celebridades

Foto: Banco de Dados

Dona de uma fortuna estimada em mais de US$ 2,4 bilhões, Oprah Winfrey há 25 anos comanda um dos mais populares talk-shows da TV americana, é reverenciada por promover o prazer da leitura entre milhões de pessoas com o seu clube do livro, saudada pelas boas ações e admirada por ter alcançado o sucesso apesar de negra e pobre em uma sociedade predominantemente branca. Quando anuncia o fim do talk-show e acaba de inaugurar a própria TV a cabo, a apresentadora americana que baseou o sucesso de sua atração na revelação de segredos, da vida amorosa e dos passados dolorosos de convidados do seu programa vê sua própria vida ganhar as páginas de uma biografia não-autorizada.

Oprah Uma Biografia, de Kitty Kelley, está baseada em mais de 850 entrevistas e pesquisa em 2.732 arquivos de declarações da apresentadora a jornais, revistas, emissoras de TV e rádio, uma vez que Oprah se negou a falar ou fornecer qualquer informação à autora. Nos Estados Unidos, o livro decepcionou porque não pôs fim a anos de especulação de que Winfrey possa ser gay e nem respondeu a dúvidas quanto aos relacionamentos com seu eterno noivo, Stedman Graham, e sua amiga Gayle King, editora da revista O, the Oprah Magazine.

A biógrafa de celebridades Kitty Kelley garante, no entanto, que a mulher mais poderosa da mídia dos EUA investe tanta energia na vida profissional que não tem tempo para vida pessoal e que seria “assexuada”. A jornalista questiona também se algumas das revelações de passado sofrido feitas por Oprah seriam verdadeiras ou parte de uma história criada pela apresentadora e tantas vezes contada que ela teria passado a ver como verdade.

A história de vida da primeira apresentadora com excesso de peso da TV americana é cheia de fatos polêmicos e contraditórios. Ela faz questão de contar em seu programa os tristes tempos de sua infância, mas sua família diz que não foi um período tão ruim assim. Muitos detalhes teriam sido escondidos por ela, que falaria sobre eles apenas quando pudesse tirar algum proveito.

A gravidez na adolescência foi um dos fatos revelados contra sua vontade. Patricia, sua irmã por parte de mãe, vendeu informações para uma publicação por US$ 19 mil, pois precisava de dinheiro para comprar drogas. Falou, entre outras coisas, do bebê que Oprah tivera com 14 anos, como ele morrera logo depois do parto e contou da juventude promíscua de Oprah, que levava homens para sua casa enquanto a mãe estava fora.

O público ficou sabendo de coisas como a infância traumática, o abuso sexual que ela sofreu, a gravidez na adolescência, a morte do bebê, a promiscuidade, o caso desastroso com um homem casado em Baltimore, a eterna luta contra a balança e até a experiência com drogas. Parte dessas histórias foi contada por ela mesma em programas de TV e até serviram para conquistar o público, que adora ver os dramas dos convidados e da apresentadora escancarados.

Com o passar dos anos e a conquista de um prestígio cada vez maior, resolveu tentar evitar que seus segredos fossem revelados. Por isso, Oprah controla com mão de ferro todos ao redor. Ninguém trabalha para ela sem um contrato de confidencialidade eterna. Os parentes parecem temer sua reação caso declarem algo.

A biografia não-autorizada vem ameaçar toda essa proteção. A própria Oprah ensaiou publicar uma autobiografia, mas foi desaconselhada pelo eterno noivo e assessores dela que consideraram que as revelações ali contidas podiam afetar sua imagem.

De acordo com a biógrafa Kitty Kelley, Oprah não gostaria que soubessem que ela se tornou, na verdade, uma personagem, que vive um papel empático frente às câmeras, mas que ignora convidados e plateia sempre que essas mesmas são desligadas. Que é rancorosa, que ignora e coloca na geladeira os inimigos, que compra quem aprecia com presentes caríssimos, que faz boas ações, mas que sempre faz questão de divulgá-las na imprensa, que é vingativa e por isso temida.

Kelley revela no livro que a mãe de Oprah, embora mantenha uma vida luxuosamente confortável com o dinheiro da filha, não é capaz de ter um contato direto com ela, precisa antes agendar com uma secretária. E que a apresentadora já implorou a parentes que contem quem é seu pai biológico – ela foi criada por Vernon Winfrey, um ex-minerador de carvão que se tornou barbeiro e foi uma das fontes da autora.

O trabalho realizado por Kitty Kelly tem recebido muitas críticas. Há quem questione a validade da biografia por ela ter sido escrita baseada apenas em entrevistas com desafetos da apresentadora, por prometer muitas revelações, mas entregar apenas uma revisão de fatos de conhecimento público.

Os críticos ressaltam que a própria Kitty mostra admiração pelo fato de Oprah sempre conseguisse dar a volta por cima e se antecipar, revelando seus defeitos em seu programa antes que algum tablóide pagasse por eles.

A cada nova revelação, Oprah ganhava mais a consideração do público americano, que a via como uma vencedora. Não importava que a acusassem de ser, desde criança, mandona e ambiciosa, de ter usado sua própria desgraça (totalmente real ou não) para alcançar seu objetivo.

TRECHO
“Oprah havia jurado se tornar ‘uma maluca consumista’ se algum dia visse US$ 1 milhão na sua frente. Agora, ela aproveitava a oportunidade com entusiasmo. ‘Separei para mim mesma apenas 1 milhão de dólares este ano’, afirmou. ‘É meu limite para brincar’. Ela começou comprando para si uma Mercedes e um Jaguar, depois mimou todos os amigos com casacos de pele: sua mentora Maya Angelou; as primas Jo Baldwin e Alice Cooper; e as mulheres da sua equipe, que estavam acostumadas com suas extravagâncias. No ano em que não haviam recebido bônus de Natal dos patrões na WLS, Oprah entrara em cena e presenteara cada uma com US$ 10 mil em dinheiro dentro de rolos de papel higiênico. Também tinha dado casaco de pele de raposa para sua produtora (…) deu a Di Maio uma pulseira com diamantes de 6 quilates. (…) Para o único homem da equipe, Billy Rizzo, ela entregou as chaves de um Volkswagen Rabbin conversível. Mandou duas produtoras para a Suíça, de férias, pagou a cerimônia de casamento de outra e levou todas para compras em Nova York, onde as deixou soltas em três lojas – com um prazo de uma hora em cada uma – e com ordens para comprar o que quisessem.”

Oprah, Uma Biografia”, de Kitty Kelley. Editora Sextante. 384 páginas. R$ 39,90

* Kitty Kelley é jornalista investigativa e autora de biografias de Jackeline Onassis, Frank Sinatra, da dinastia Bush, da Família Real Britânica, de Elizabeth Taylor e de Nancy Reagan

Leia mais
Comente

Hot no Donna