Biógrafo conta como Lena Horne virou pioneira na luta contra o racismo nos EUA

Cantora foi criada em uma família de ativistas, conta autor de obra sobre sua vida pessoal e carreira

Beleza de Lena Horne lhe abriu portas em Hollywood
Beleza de Lena Horne lhe abriu portas em Hollywood Foto: Banco de Dados

Ela não foi exatamente a primeira atriz negra a assinar contrato com um grande estúdio de Hollywood nem a primeira cantora de sucesso a lutar pelos direitos dos negros, mas Lena Horne, que morreu no início de maio aos 92 anos em Nova York, certamente se tornou a imagem da artista pioneira na luta contra o racismo nos Estados Unidos.

Não à toa, Halle Berry se lembrou dela quando ganhou o Oscar em 2002 ? o primeiro jamais entregue a uma atriz negra. Barack Obama, outro a quebrar barreiras históricas ao se tornar o primeiro presidente negro do país, divulgou um comunicado destacando que Horne “trabalhou incansavelmente para promover a causa da justiça e da igualdade”, além de ter sido a “primeira artista afro-americana a fazer turnê com uma banda integralmente de brancos”.

Mas Horne não se resumiu a uma figura histórica importante. Ela fez grande sucesso como cantora e atriz, e “aqueceu os corações de inúmeros americanos com sua bela voz e performances dramáticas na tela”, para continuar com as palavras de Obama. Sua infância não foi pobre e miserável como a de outras grandes cantoras, como Billie Holiday, mas foi marcada por uma dolorosa rejeição: Horne foi abandonada pelo pai e negligenciada por uma mãe que fracassou na tentativa de se tornar estrela do show business na década de 20.

Por causa de sua beleza aristocrática, Horne acabou conseguindo emprego no início dos anos 30 no mítico Cotton Club, em Nova York. Teve que dar duro para aprender a cantar e dançar, já que não era um talento natural.

– Cantar sempre foi muito difícil para mim – ela recordaria décadas mais tarde.

A fama veio em 1942, quando assinou um contrato de sete anos com a MGM e começou a atuar em diversos musicais. Além dos filmes, álbuns e apresentações em rádios, Horne colecionou casos com homens famosos, como o cineasta Orson Welles, o campeão dos pesos-pesados Joe Louis e os músicos Artie Shaw e Duke Ellington. Mas também se envolveu socialmente com ativistas políticos e esquerdistas, o que acabou atrapalhando sua carreira no cinema.

Continuou fazendo sucesso relativo nos anos 60 e 70 ? período em que se tornou mais ativa na luta pelos direitos dos negros ?, e em 1981 estourou novamente com um premiado show solo na Broadway que ficou em cartaz por meses. Gravou mais alguns álbuns na década de 90, e depois se fechou em uma vida reclusa, raramente aparecendo em público até sua morte.

Lançada ano passado nos EUA, Stormy Weather ? The life of Lena Horne conta com detalhes a vida da estrela americana. O autor, James Gavin, é o mesmo que escreveu a polêmica biografia No fundo de um sonho: a longa noite de Chet Baker, lançada no Brasil pela Companhia das Letras. Da Califórnia, Gavin concedeu a seguinte entrevista.


Stormy weather – The life of Lena Horne De James Gavin. Atria, 598 páginas, importado.

Como é contado em seu livro, Lena Horne foi aos poucos se tornando uma figura mais e mais ativa na luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos.

Pergunta – O senhor acredita que isso ocorreu principalmente como uma forma de compensação pessoal, uma vez que no início da carreira Horne parecia mais preocupada em se tornar uma estrela do show business, hesitando em relação à luta contra o racismo?
Resposta – Lena veio de uma família de ativistas, e foi criada com um sentimento ardente de responsabilidade social. A partir dos anos 40, quando grupos e movimentos progressistas começaram a surgir em várias cidades norte-americanas, Lena se tornou muito envolvida socialmente. Ela começou a protestar contra o racismo antes mesmo da expressão “movimento pelos direitos civis” aparecer. As figuras que a guiaram nesse sentido foram Paul Robeson e Eleanor Roosevelt [esposa de Franklin Delano Roosevelt, presidente dos EUA entre 1933 e 1945]. Robeson era considerado um homem muito perigoso e subversivo naqueles terríveis tempos racistas, e foi a relação com ele que fez com que Lena entrasse na lista negra nos anos 50. Porém, apesar de Lena ter sido profundamente empenhada nos protestos sociais, ela protestava por razões muito pessoais. Ela foi uma mulher que cresceu se sentindo muito alienada e indesejada. Sua mãe, Edna, era uma aspirante a atriz que a carregou por todo o sul dos EUA nos anos 20, e Lena se sentiu uma inconveniência na vida da mãe. Ela sofreu muito racismo, e sempre que se deparava com esse problema ao longo da sua vida, sua raiva era atiçada ? e ela não se calou. Suas batalhas pessoais refletiram as lutas de todos os negros.

Pergunta – Lena Horne também enfrentou uma situação paradoxal, uma vez que muitos negros ? principalmente durante sua infância ? consideravam sua pele muito clara, enquanto os brancos frequentemente pensavam que ela fosse latina. Como isso a afetou?
Resposta – Nunca houve qualquer dúvida de que Lena fosse negra. A pele dela não era clara o suficiente para ela “passar”, como se costumava falar na época ? ou seja, para ela conseguir fingir que era branca. Mas a questão da pele clara é parte integrante da história de Lena Horne. Durante a maior parte da vida dela, e especialmente dos anos 20 aos 60, ter a pele mais clara era uma questão de orgulho e uma chave para o sucesso de muitos negros. Quanto mais claros os negros fossem, menos ameaçadores eles pareceriam para a sociedade branca e mais oportunidades eles teriam. A pele clara e a beleza hollywoodiana de Lena foram os motivos pelos quais ela conseguiu emprego como corista no Cotton Club, onde shows gloriosos somente com artistas negros eram vistos por audiências quase inteiramente brancas. O sucesso de Lena em Hollywood teve muito a ver com sua aparência e com a maneira como ela cantava, que era próxima da tradição das atrizes-cantoras brancas. Anos depois, Lena triunfou como a rainha dos grandes cabarés brancos do mundo. Em nenhum momento de sua vida Lena negou sua própria raça, mas ela teve uma dolorosa crise de identidade durante a maior parte da carreira. Ela foi uma cantora negra que cantava principalmente para um público branco. Ela não era um deles, mas ela também não sentia que sua própria raça a aceitava completamente.

Pergunta – Lena dizia que cantar era muito difícil, e muitas pessoas ? incluindo ela própria ? a consideravam mais bonita e elegante do que uma grande cantora ou artista de talento. O que grandes músicos e cantoras como Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Duke Elington achavam dela?
Resposta – Lena se tornou uma cantora sensacional, em minha opinião ? uma grande atriz cantora que tinha um profundo entendimento de palavras e histórias, que era extremamente musical e que tinha grande drama e carisma. Mas sua beleza e presença de palco roubavam quase toda a atenção. O nome dela raramente era incluído entre as grandes cantoras ? ela era vista mais como uma entertainer. Billie Holiday e Lena eram amigas queridas, mas eu não posso jurar que a Lady Day amava o canto de Lena. Duke Ellington chegou a ter um breve romance com Lena, e depois eles continuaram amigos. Duke adorava e contratava cantores negros que tinham elegância, requinte e boa aparência, mas muitos deles não eram grandes cantores. Eu tenho certeza que ele respeitava Lena, mas não se sabe o que ele realmente achava do seu canto. Quanto a Ella Fitzgerald: Lena adorava Ella e Ella respeitava Lena, mas, de novo, era sempre “a linda Lena Horne” ou “a emocionante Lena Horne”. Ninguém a teria comparado a Ella ou a Sarah Vaughan.

Pergunta – O senhor fala no livro sobre uma viagem que Horne fez ao Brasil em 1960. Foi a única vez que ela veio para cá?
Resposta – Lena foi ao Brasil apenas aquela vez, para cantar no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Eu contei toda a história no meu livro. Depois da publicação, uma jornalista brasileira daquela época, que ainda está viva, me disse que se tornou amiga de Lena durante aquela curta estadia e que levou Lena para fazer uma macumba na praia. Eu acredito na história ? havia muitas pessoas em quem ela gostaria de ter lançado um feitiço. Lena não se dizia “má, raivosa, ciumenta e possessiva” à toa!

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