Boates de classe alta se travestem de favelas chiques em Porto Alegre

Festas temáticas e decoração insipirada na periferia são a nova tendência

A casa noturna Vidigal: painéis reproduzindo becos e calcinhas penduradas em varais
A casa noturna Vidigal: painéis reproduzindo becos e calcinhas penduradas em varais Foto: Maurício Gonçalves

Avaliado em US$ 150 mil, o nababesco lustre de cristal sobre a pista da Liv&Fly – uma das casas noturnas mais luxuosas do Estado – divide espaço com varais equilibrando calcinhas de toda cor. Nas paredes douradas, pipas e jornais velhos decoram a festa batizada de Favela Chic.

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Seria o ápice do fascínio dos ricos pela periferia, não fosse a recente inauguração da boate Vidigal, também em Porto Alegre, onde corredores simulam casebres, painéis exibem becos saburrentos, e o funk carioca domina as noites de sexta-feira. No alto da pista de dança, mais varais com calcinhas.

É o movimento inverso àquele descrito anteriormente: em vez de ir à favela, a elite prefere trazê-la para o seu ambiente, empacotando símbolos do povão com um banho de glamour. Sócio do Vidigal, o empresário Diego Vinhas conta que, antes de abrir a casa em outubro, encomendou pesquisas que apontaram essa estética como tendência de mercado:

? Toda festa com temática carioca fazia sucesso. E o funk passou a ser muito consumido por universitários. Decidimos criar uma favela estilizada porque o jovem se sente atraído pelo novo, pelas experiências que fogem da rotina.

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Formaturas e casamentos de luxo acompanham o modismo. O produtor de eventos Nelson Quinto cita como exemplo um aniversário de 30 anos que organizou em setembro, com decoração inspirada no Complexo do Alemão, garçons fardados de regata e boné militar (em referência às ocupações da polícia) e estrogonofe servido em viandas com talheres de plástico – em contrapartida, só a mesa de doces custava R$ 15 mil, o champanhe era francês e a pista de dança, com piso de led, trocava de cores conforme a batida do funk.

Coordenador do Observatório de Favelas do Rio e pós-doutor em Sociologia, Jailson de Souza Silva salienta que a periferia sempre despertou sedução no imaginário dos ricos:

? A favela é dionísica. É vista como um reduto de valorização das festas, dos botecos e da música.

O que preocupa Jailson é o reducionismo excessivo de um universo bem mais complexo do que calcinhas em varais.

? Esse visual meio kitsch evidencia uma impressão estereotipada das favelas e, portanto, muito superficial. Não podemos esquecer que todo estereótipo tende a exalar preconceito ? diz o sociólogo, lembrando que a estética da periferia, quando apropriada pela classe alta, nunca é acolhida por inteiro.

É preciso sempre um bom banho de glamour.

 
Anitta na Provocateur, em junho: sucesso de público Foto: Fernando Conrado, Divulgação

Na Provocateur, maiores arrecadações foram com Naldo e Anitta

O sucesso do funk na classe A fica evidente quando uma casa noturna como a Provocateur, referência em requinte na Capital – e também em São Paulo, Nova York, Cannes e Punta del Este -, alcança seu maior faturamento com um show do cantor Naldo. Com ingressos que chegaram a R$ 250, a boate no bairro Mont’Serrat lotou em junho para ver o carioca entoar “vodca ou água de coco, para mim tanto faz…”.

No mês seguinte, foi a vez de Anitta, outra expoente do chamado funk pop, se apresentar no mesmo local com os hits Show das Poderosas, Não Para e Meiga e Abusada. Foi a segunda maior arrecadação da Provocateur.

? Não importa o lugar, quando toca funk a galera vai ao delírio ? conclui Tiago Escher, sócio da casa.

VÍDEO: conheça o baile funk no Campo da Tuca, em Porto Alegre

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