Brad Pitt conta como foi trabalhar com Terrence Malick, que dirige seu novo filme

Diretor é conhecido como o diretor mais recluso de Hollywood

"Não costumo olhar para trás", diz Brad Pitt, sobre papeis anteriores
"Não costumo olhar para trás", diz Brad Pitt, sobre papeis anteriores Foto: Sony Pictures

Você ouve histórias de atores tão intensos que não conseguem se separar de seus personagens e não sabem quem são por uma semana ou duas depois das filmagens. Eu não sou este tipo, cara – conta Brad Pitt. – Meu momento mais feliz é no dia em que me dizem que estou livre. Não costumo olhar para trás.

Pitt terminou de filmar A Árvore da Vida três anos atrás, mas agora que o filme de Terrence Malick está finalmente nas nossas mãos (estreia no Brasil no dia 12 de agosto), ele não está apenas olhando para trás. Continua em um dos papéis do filme: o representante do diretor no planeta Terra. Malick é o famoso mais recluso do cinema, um homem de métodos de trabalho secretos, ausências absurdamente longas (20 anos de intervalo entre seu segundo e terceiro filmes) e um desdém genuíno por qualquer tipo de publicidade ou divulgação da imprensa. Nem mesmo quando A Árvore da Vida ganhou a Palma de Ouro em Cannes, há dois meses, ele saiu da toca – apesar de estar na cidade francesa na época. Assim, cabe ao homem mais fotografado do cinema no mundo falar em nome do menos fotografado.

– Ele é um homem extremamente reservado – revela Pitt. – Um estudante de Rhodes, estudou filosofia, ama a ciência, a natureza e Deus; tenho grande dificuldade para completar apenas uma frase sobre ele. Não acho certo falar por ele, mas tenho que dar uma pincelada.

Se tem muito a explicar sobre A Árvore da Vida. Dizer que o filme recai sobre temas de marcas registradas de Malick é um eufemismo lamentável. As dublagens introspectivas, iluminação dourada, observações tangenciais e sobrenaturais – campo espiritual de seus trabalhos anteriores – estão todos lá, mas a sequência mais comentada do filme é sobre a história do universo, desde a formação da galáxia até a evolução dos dinossauros, com uso intenso de efeitos especiais. Durante grande parte do resto do tempo, no entanto, o filme é uma lembrança fragmentada e impressionista sobre crescer nos anos 1950 no Texas, recordada pelo já adulto Sean Penn nos dias atuais. Pitt interpreta o confuso pai autoritário da família; Jessica Chastain, a mãe gentil e amável. Eles são arquétipos opostos que lançam o personagem de Penn para um final enigmático.

– Ele é como um mergulhador embaixo da água que está esperando uma tartaruga marinha passar e, então, ele a seguirá até não estar nem mesmo perto do barco – fala Pitt sobre a direção técnica de Malick. – Foi realmente uma forma livre, tipo uma rede de caçar borboletas que capta momentos – contraintuitiva à maneira que fazemos as coisas em Hollywood.

Tem outra coisa. Pitt diz que Malick não é nada parecido com o monge devoto que ele imaginava. O cineasta de 67 anos pode ter traduzido os trabalhos de Heidegger mas, mesmo assim, ele vai sentar na varanda de noite com uma cerveja na mão. Entre as tomadas, Pitt conta que ele joga bola na rua com o elenco:

– Este cara é um atleta incrível, ao que me parece. E ele é bem competitivo. Nunca esperei por isso. Tem uma fala mansa e é tão doce e atencioso com todos no set, mas é só pegar um bola nas mãos e, cara, ele se torna um viciado.

Pelo menos, Pitt deu uma mão nas maneiras heterodoxas de Malick, sendo que cresceu na mesma parte do mundo: Malick foi criado nos Estados de Texas e Oklahoma; Pitt, em Oklahoma e Missouri. A história é claramente baseada nas próprias experiências de Malick, o que significa que Pitt está interpretando o pai de Malick, mesmo que isso nunca tenha sido dito para ele especificamente.

– Eu sabia de onde ele vinha – explica Pitt. – Nós falávamos bastante sobre nossas casas, nós dois fomos criados amando a natureza e a ciência. Não posso dizer o quão pessoal as experiências do filme eram para ele, mas eram pessoais para mim também, embora não com a figura do pai e a dinâmica familiar.

Longe do herói charmoso

O papel do pai em A Árvore da Vida fora originalmente planejado para Heath Ledger; Pitt, que estava escalado como produtor, foi chamada para o papel como uma substituição após a morte de Ledger, mas se encaixou perfeitamente. Não é o herói charmoso que costumamos ver Pitt interpretando; ele é sério, mal-humorado e atormentado por um sentimento de fracasso, uma presença ameaçadora e disciplinadora na família. Seus filhos nunca sabem se ele vai abraçá-los ou bater neles – uma característica nada fácil de ser explicada aos três jovens atores amadores que os interpretavam, especialmente quando eles estavam pensando: “Olha! É o Brad Pitt!”.

– Nós tivemos um incidente no primeiro dia de filmagem – revela Pitt. – Tivemos uma cena onde eu deveria estar dando um sermão, e eles não paravam de rir. Não levavam a sério porque estavam se divertindo, você sabe, com um cara do cinema. Então tive que chamar os dois mais velhos para fora do set e dizer: “Isto é sério. Por isso que estamos aqui, e não voltem para lá até que estejam preparados”. Depois disso, eles pararam de me olhar como o cara que eles costumam assistir nos filmes.

O fato de a verdadeira família de Pitt estar hospedada ali perto também apresentou complicações. Ele e Angelina Jolie se dividiam em turnos para cuidar da família (na época, três filhos; Jolie estava grávida de gêmeos) enquanto o outro trabalhava, e eles viajavam sozinhos. Mas aonde Pitt e Jolie vão, legiões de paparazzi os seguem. Para um recluso como Malick, é um mundo completamente diferente – possivelmente a definição que ele daria para inferno.

– Era terrivelmente desconfortável para ele – admite Pitt, lembrando de uma vez em que um fotógrafo os encurralou em um restaurante local.

Se ele inveja a capacidade de manter a privacidade de Malick?

– É claro! Ele simplesmente pode fazer as coisas. Levei uma boa década me escondendo em casa e não saindo até conseguir abraçar esta ideia de celebridade, onde de repente as pessoas estão olhando para você para criticar o seu nariz ou pegar um lance de você beijando alguma mulher. É uma coisa que te deixa tonto. Mas Angie e eu temos administrado isso muito bem. Precisamos nos esconder atrás de algumas paredes, mas estamos bem.

Pitt seguiu a vida. Os gêmeos dele e de Jolie nasceram logo depois de o filme ficar pronto – “Me lembro porque estávamos pensando em nomes durante as filmagens” -, então ele foi para Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. Atualmente, está rodando o filme de terror e ação Guerra Mundial Z, de Marc Forster:

– Gosto de extremos. Um pouco de alta tensão, um pouco de baixa tensão.

Ele fala de querer ir atrás de sua paixão pela arquitetura, mas o tempo que passou trabalhando com Malick parece que permaneceu, e não só por estar operando como embaixador de mídia do diretor. Parece que trouxe suas próprias crenças para as luzes dos holofotes:

– Sou um cara que luta contra a ideia do Céu, mas o que eu de fato respeito é que exista uma força maior do que qualquer outra coisa que possamos entender e, para mim, o filme é sobre isto. Talvez nós não precisemos destas conexões religiosas para amortecer o medo da morte. Só o fato de que há uma força desconhecida e de alguma forma maravilhosa já me traz um sentimento de paz. Isto é suficiente para mim.

Tradução: Fernanda Pandolfi

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