Brasileira é a nova sensação indie da Europa

Com disco denso e invernal, a paulista Dillon, radicada na Alemanha há 18 anos, celebra o silêncio

Foto: nao se aplica

Uma das novas apostas da música indie na Europa é brasileira. Dominique Dillon de Byington, 23 anos, conhecida como Dillon, nasceu em São Paulo e mudou-se para a Alemanha em 1994. Engana-se, no entanto, quem pensa que um som tropical acompanha sua voz doce.This Silence Kills (2011), seu álbum de estreia, funde composições instintivas com uma elaborada produção eletrônica, que bebe na tradição de cantoras como Björk, Bat For Lashes ou Lykke Li.

Tudo começou em 2009, quando ela postou um vídeo cantando ao piano junto com uma batida eletrônica. A atmosfera sombria de Thirteen Thirtyfive, que tem pouquíssima luz e mostra apenas a cantora com os cabelos desgrenhados usando uma camisa preta em seu quarto em Colônia, já dava uma ideia do que vinha por aí. O vídeo virou hit na Alemanha, e Dillon acabou se mudando para Berlim. A cantora, que se diz completamente fora da vida de jovens da sua idade – não gosta de ir a boates ou celebrar “só porque é sexta-feira” – entrou em uma espiral de apresentações e vida noturna. A maratona lhe rendeu a assinatura com sua gravadora atual, a BPitch Control, guarda-chuva de nomes da influente cena eletrônica alemã, como o Modeselektor e Ellen Allien.

Em This Silence Kills (esse silêncio mata, em tradução livre) a maioria das músicas tem letras sombrias que falam sobre obsessão e tristeza, como From One to Sixhundred Kilometers (a coisa mais doce que você me disse na vida/ é que eu sofro de paranoia). Em outras, como a faixa título The Undying Need to Scream, a melodia é permeada por gritos que se misturam aos samplers e batidas eletrônicas minimalistas. Para obter a abstração na medida certa, Dillon trabalhou com dois produtores. Eles queriam valorizar os espaços entre um som e outro.

– Todos os barulhos e sons que colocamos nas músicas têm uma função. Eles ajudam a celebrar o silêncio, ajudam a formar a paisagem ao fundo – explica a cantora, que em uma pausa da turnê europeia se curava de uma sinusite em seu apartamento na capital alemã.

A turnê corrida, que começou em fevereiro e só deve terminar em meados de agosto, é a prova do sucesso. A artista, que chama todo o processo da produção e divulgação do disco de um “grande alívio”, já tem planos para a temporada pós-shows:

– Vou voltar para o estúdio e escrever. Preciso trabalhar no próximo capítulo. Se não escrevo, eu não me sinto bem. Por causa da turnê, estou há tempo demais sem escrever e isso me deixa furiosa. Canalizo na escrita meu balanço emocional, só assim consigo viver bem.

Com um nome francês, um sobrenome inglês e uma certidão de nascimento brasileira, Dillon se mudou para a cidade de Colônia aos cincos anos. O motivo: sua mãe amava o país. A cantora diz não lembrar muito do processo de mudança. Aos 11 anos, passou a estudar em uma escola britânica e o inglês tornou-se sua primeira língua.

– É engraçado, nunca na vida eu imaginei que fosse acabar pensando e sonhando só em inglês. Então eu nem me pergunto em que língua eu devo escrever – explica.

Tímida, Dillon diz que não se sente tão confortável em nenhum outro idioma. Com a turnê e todo o processo de divulgação do disco, mesmo o alemão já tomou um espaço secundário em sua vida.

Após a mudança para a Alemanha, ela garante ter ido ao Brasil cerca de uma vez a cada dois anos. Da última visita, vão-se quase três anos e a certeza de que ela ainda fala português, mas só “instintivamente”, como a própria descreve.

– Às vezes é bem confuso para as pessoas à minha volta. Começo uma frase em inglês, termino em alemão e, se minha mãe aparece, ainda coloco umas duas palavras em português no meio – diverte-se.

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