Donna - ir para home

Carla Körbes: beleza e elegência na pontas das sapatilhas de balé

Natural de São Leopoldo, bailarina conquistou os americanos

Carla dançando "Dom Quixote"
Carla dançando "Dom Quixote" Foto: angela sterling

Uma mulher forte, decidida, destemida, que experimenta o seu grande amor até as últimas consequências. Assim é Julieta, essa mesma, da literatura e do balé. E assim também é sua intérprete. Apaixonada, obstinada e perfeita, como uma obra-prima deve ser. Na reinvenção da coreografia clássica, um detalhe faz toda a diferença: a bailarina que empresta vida, olhos azuis e longos cabelos loiros a essa Julieta moderna é a gaúcha Carla Körbes.

Primeira bailarina do Pacific Northwest Ballet (PNB), de Seattle, Carla, 31 anos, ganhou os olhos e os corações do mundo em fevereiro deste ano, quando uma nova versão do clássico balé Romeu e Julieta, do russo Sergei Prokofiev, foi apresentada no City Center, em Nova York. Com Carla no papel principal, três apresentações bastaram para que os críticos de dança caíssem aos seus pés – descalços em parte da coreografia. “Uma visão inigualável de beleza e elegância”, disse o New York Times. “Quando ela dança, o tempo para”, sentenciou a revista Vanity Fair.

:: Confira algumas performances da bailarina:

- A nossa Julieta é diferente. Ela é forte, toma a iniciativa, sabe o que quer. E experimenta – comenta Carla.

Foi experimentando uma atividade artística capaz de drenar parte da energia das duas filhas pequenas que dona Nilze Körbes, mãe de Carla, apresentou a menina ao balé quando ela tinha apenas cinco anos. Junto com a irmã mais velha, Ana Paula, fazia aulas todos os dias na escola Compasso, em São Leopoldo. Foi aberto assim um caminho que a levou cedo, antes dos 15 anos, para viver e estudar balé nos Estados Unidos. E tornar-se, mais tarde, a ousada Julieta descalça e de cabelos soltos para quem Carla transfere sua graça.

Depois de ser aconselhada pela professora de Carla a transferi-la para uma escola mais especializada, Dona Nilze procurou o Ballet Vera Bublitz, em Porto Alegre. A essa altura, a irmã mais velha já havia cansado daquela rotina e partido para provar outras atividades. Ao chegar à nova escola, a instrutora levou um susto.

- Me chamaram para dizer que havia um “monstrinho” na sala. Quando vi a Carla dançando, percebi logo que tínhamos uma primeira bailarina – conta a professora de balé Carlla Bublitz.

Nos dois anos seguintes, a menina percorreu o caminho entre São Leopoldo e Porto Alegre todos os dias, sem faltas, atrasos ou desculpas. Depois do colégio, embarcava em dois ônibus para cinco horas de treino e ensaios. Em pouco tempo já estava sendo preparada para participar de concursos e festivais. O corpo ganhava força, e a dança tinha cada dia mais técnica.

- Era uma beleza vê-la dançar. Estávamos lapidando um diamante – relembra Vera, emocionada.

Para a visita do bailarino Peter Boal a Porto Alegre, promovida pela escola Vera Bublitz, Carla foi a escolhida como partner para dançar Apollo, de George Balanchine. Ao final do pas de deux, Boal já estava decidido a levá-la para os Estados Unidos. Ao jornal O Globo, ele contou que dançar com Carla foi uma experiência surreal, pois o primeiro ensaio foi quase sem falhas e cheio de naturalidade.

Alguns meses depois, antes de completar 15 anos, lá estava ela, em Nova York, falando muito pouco de inglês, estudando para terminar o Ensino Médio em um colégio para jovens artistas e morando nos alojamentos da School of American Ballet, no Lincoln Center. Foi protagonista em três espetáculos e, mesmo depois de romper os ligamentos do pé e passar seis meses afastada, recebeu o Mae. L. Wien Award ao final do curso – prêmio que consagra as melhores bailarinas.

Estava pronta para voar.

 

Busca da essência para alcançar o sonho

Com o destaque que ganhou durante o curso, Carla Körbes ingressou no corpo de baile do New York City Ballet em 2000. Era o topo do mundo para quem desejava ser uma estrela. O que sobrava de talento, no entanto, faltava em preparo emocional para enfrentar uma das maiores e mais competitivas companhias de dança do mundo. Dificilmente era enxergada pelos diretores, era avaliada friamente. A autoconfiança e a espontaneidade, que destacaram a menina no começo, foram morrendo. Já não tinha certeza do corpo, da técnica, do potencial. Sentia-se aprisionada, imperfeita, incapaz de brilhar. A grande solista, a primeira bailarina, estava ficando cada vez mais distante.

Foi quando seu velho amigo Peter Boal assumiu a direção artística do Pacific Northwest Ballet, de Seattle. Desafiou sua pupila a mostrar, novamente, toda a coragem e alegria de dançar que a tinham levado para os Estados Unidos.

- Ele me perguntou se eu conseguiria encontrar, dentro de mim, aquela menina que não tinha medo de nada. E eu aceitei o desafio. Tinha um desejo de crescer artisticamente e fui – relembra Carla.

Pouco tempo depois de ingressar no PNB, foi chamada para dançar os papéis principais. Desde então, já protagonizou quase todos os clássicos – Giselle, O Quebra-Nozes, Don Quixote, A Bela Adormecida, o Lago dos Cisnes e, claro, Romeu e Julieta. E também brilha no balé contemporâneo, que, segundo ela, é uma realidade em quase todas as grandes companhias.

Carla continua a mesma menina obstinada que não perdia um dia de aula, mesmo que para isso precisasse pegar dois ônibus de São Leopoldo a Porto Alegre. Já dançou pelo mundo, já fez os papéis que quis. Agora quer, quem sabe, romper as barreiras da companhia em projetos paralelos, abrir as asas para novos voos impulsionados pela técnica perfeita e pela disposição para o treinamento constante. E, mais ainda, impulsionada pelo dom natural que sua professora viu na infância, no qual Peter Boal apostou e que os críticos de dança deixaram registrado, como uma verdade inconteste, nas páginas dos jornais e revistas.

Uma guria de família

A comemoração dos 35 anos de casamento do casal Körbes e dos 60 anos de idade de dona Nilze foi especial. Em fevereiro, alguns integrantes da família se reuniram em Nova York para celebrar embalados pela estreia de Romeu e Julieta. Acomodados no teatro, o casal testemunhou o brilho de Carla e o resultado do incentivo que os dois deram à menina desde que, muito pequena, dizia a todo mundo que iria ser bailarina.

- Nossas duas filhas sempre foram livres para fazer o que quisessem. Apoiamos sem impor nossa vontade – comenta dona Nilze.

Na casa da família Körbes, em São Leopoldo, nunca faltou incentivo para os dons artísticos das filhas. Enquanto Carla morou com os pais, uma barra e espelhos foram adaptados na sala para que ela pudesse praticar. Para a irmã, que não perseverou no balé, o violão foi o caminho para formar uma banda. Os pais, que cantaram no Coral 25 de Julho durante 15 anos, iniciaram as filhas no repertório clássico que seria o cotidiano da bailarina mais tarde.

Quando Peter Boal chamou dona Nilse para uma conversa séria sobre o futuro de Carla, a enfermeira que deixou o trabalho para tomar conta da família percebeu a possibilidade de ver realizado o sonho da filha.

- Eu sabia que ela era talentosa e que ela sonhava com isso, mas achava difícil que um dia pudesse viver como bailarina aqui no Brasil – observa.

A distância, hoje, é o que mais dói em Carla e na família. Eles se falam quatro ou cinco vezes por semana pelo Skype, e os pais procuram estar presentes em todas as oportunidades possíveis. O pai, que é, provavelmente, o fã mais derretido e apaixonado, vasculha a imprensa mundial atrás de notícias, vídeos e fotos da filha. A mãe, segundo ela própria, segue sendo simplesmente mãe.

- Sei quando ela precisa de mim, estou sempre presente.

Contra o tempo

- O mundo do balé é meio cruel. É preciso muita disciplina, além de um corpo adequado. E o futuro é sempre incerto. Posso parar de dançar amanhã ou daqui a 10 anos – sentencia Carla, mostrando uma visão realista da profissão que escolheu.

Como depende exclusivamente da capacidade corporal para executar a perfeição de sua dança, Carla não se permite muitos descuidos. Tem uma rotina regrada e faz o possível para prolongar a vida de bailarina. Acorda às 6h30min para ter tempo de tomar o café da manhã com tranquilidade. Por volta de 10h vai para o PNB para duas horas de yoga, alongamento e aula de balé. Ao meio-dia faz uma pausa para um pequeno lanche – uma banana, nozes ou outras frutas – e emenda três horas de ensaio do espetáculo que estiver em cartaz ou em preparação. Por volta das 16h, quando a fome pega, é hora de almoçar. Depois de descansar um pouco, mais ensaio até às 19h.

- Termino o dia morta.

Nas poucas horas vagas que consegue encontrar, Carla estuda para terminar os dois anos básicos de ensino superior que cursa em Seattle. Está tentando escolher o que irá cursar de agora em diante. A faculdade pode ser uma alternativa para quando ela parar de dançar.

- Mas é difícil para mim escolher. Sou muito dedicada, muito apaixonada pelo balé.

Essa dedicação extrema traz limitações para a bailarina. Tem amigos em várias partes do mundo, mas os vê pouco. Também vem pouco ao Brasil. Divide o apartamento em que mora, em Seattle, com Bella (na foto ao lado), uma cadelinha da raça pintcher de nove anos que já se tornou uma espécie de mascote no PNB. Procura sair com amigos e colegas, mas não muito. Precisa estar preservada e sempre cheia de energia.

Reservada, não gosta muito de falar de si para uma repórter a quem sequer está vendo, por um fio de telefone que separa Seattle de Porto Alegre. Diz apenas que até gostaria de ter filhos, mas por enquanto não pensa nisso. E que teve um relacionamento de oito anos com uma pessoa de fora do mundo do balé.

- Foi bom, mas acabou há três meses. E é isso, vamos trocar de assunto – sorri.

Os planos para o futuro são quase todos amarrados nos laços de suas sapatilhas. Planeja dançar melhor, fazer coisas novas, correr o mundo com o balé. E realizar todos os dias o sonho da guriazinha de São Leopoldo que queria ser bailarina.

A rainha dos cisnes

Em uma noite de gala no Teatro da Ospa, em Porto Alegre, a pequena alemoazinha foi arrebatada na plateia. A bailarina que dançava o bem e o mal nas plumas dos cisnes branco e negro projetou um sonho indestrutível na alma da pequena Carla Körbes e ela teve certeza: queria ser bailarina para, um dia, dançar o Lago dos Cisnes.

Ao ingressar no corpo de baile do New York City Ballet em 2000, o topo do mundo para quem desejava ser uma estrela, Carla pensou que, finalmente, poderia realizar seu sonho. Quando estreou no papel secundário de um dos cisnes, viveu um pesadelo.

- Achei que seria demitida mesmo antes de assinar o contrato com a companhia, pois eu e outra bailarina erramos e nos batemos em cena. Foi um horror – relembra.

Em 2006, já como primeira bailarina do PNB, teve a chance de protagonizar o clássico que tanto ama.

- Quando coloquei aquela tiara na cabeça, concretizei meu sonho de criança. Era minha realização como bailarina. Recuperei a confiança ao dançar a peça inteira como a rainha dos cisnes e entendi que o balé sempre esteve dentro de mim.

:: Confira mais fotos de Carla Körbes:

 

 

Fotos: Angela Sterling

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