Carla Maffioletti é a erudita mais pop do Brasil

Preferida do aclamado violinista holandês André Rieu, a porto-alegrense Carla Maffioletti é a estrela em ascensão no universo da ópera mundial

Ao lado de André Rieu, de vestido rosa, dois laços no cabelo e bochechas bem coradas, Carla interpreta a boneca Olympia, da ópera "Os Contos de Hoffmann", que retorna ao Brasil para nova temporada
Ao lado de André Rieu, de vestido rosa, dois laços no cabelo e bochechas bem coradas, Carla interpreta a boneca Olympia, da ópera "Os Contos de Hoffmann", que retorna ao Brasil para nova temporada Foto: Gregor Ramakers

Em um dos momentos mais divertidos do show do violinista holandês e popstar André Rieu, a porto-alegrense Carla Maffioletti sobe ao palco com um vestido rosa, dois laços lilases na cabeça e uma bola vermelha pintada em cada bochecha. Com sua voz de soprano coloratura a tessitura mais aguda do canto lírico , ela interpreta a ária da boneca Olympia, da ópera Os Contos de Hoffmann, do francês Jacques Offenbach (1819 – 1880).

Caretas, trejeitos mecânicos de brinquedo e uma performance vocal impecável fazem com que Carla conquiste o público uma, duas, 24 vezes. Foi esse o número de apresentações do holandês Rieu com a Orquestra Johann Strauss no Ginásio Ibirapuera entre maio e julho. O show retornará para uma nova temporada na capital paulista de 11 a 16 de setembro. Não há previsão de escala no Rio Grande do Sul.

É a primeira vez que Rieu se apresenta no Brasil, e a primeira vez que Carla brilha na terra natal acompanhando o artista que a alçou à repercussão mundial. Com músicos sorridentes, vestidos com figurinos coloridos, o carismático Rieu arregimenta fãs por onde quer que passe – a maioria de cabelos brancos, como observou a reportagem de Donna em uma das apresentações na capital paulista.

Foi essa figura que Carla encontrou sentada ao piano em um estúdio holandês, em 2000, quando, aos 26 anos, realizou um teste por sugestão de colegas de conservatório. Na chegada, foi surpreendida por câmeras e microfones – a produção costuma registrar os bastidores de tudo. Rieu pediu para que cantasse o Bolero, de Ravel, e uma melodia da trilha do desenho animado Branca de Neve e os Sete Anões. Foi aprovada e participou do coro em diversos shows durante três meses. Dois anos depois, de volta a Porto Alegre, recebeu uma ligação inesperada.

– Carla, você se lembra de mim?

Era Rieu, o próprio, convidando-a para participar de um nova turnê, desta vez como uma das solistas. Desde então, Carla tem sido destaque de shows e gravações. Em um salão do hotel de São Paulo onde esteve hospedada, ao lado do elenco e da produção de André Rieu, a soprano gaúcha explica, com voz suave e um sorriso gentil sempre no rosto:

– Foi quando começou oficialmente minha carreira como solista. Rieu foi minha vitrine para o mercado internacional.

Carla é uma artista irrequieta. Fará parte do elenco de uma montagem da ópera Satyricon, do compositor italiano contemporâneo Bruno Maderna (1920 – 1973), de fevereiro a abril de 2013, em Lucerna, na Suíça. Antes, em 30 de setembro deste ano, lançará o primeiro disco solo, Blue Bird, com distribuição na Holanda e na Alemanha. A lista de músicas reúne clássicos da tradição europeia, como a Ária da Muzeta da ópera La Bohème, de Puccini (1858-1924), e Casta Diva de Norma, de Bellini (1801 – 1835), e do repertório brasileiro, como a Cantilena da Bachianas Brasileiras nº 5, de Villa-Lobos (1887-1959), e O Azulão, de Jayme Ovalle (1894-1955), que inspirou o título em inglês. Em vez de cantar acompanhada por uma orquestra usual, ela conta, no disco, com o conjunto holandês The Strings, com bandolins, bandolas e violões. É um universo familiar para Carla, que também toca violão no grupo. É uma forma de praticar sua segunda paixão musical, o violão, instrumento em que se especializou na graduação em Música no Instituto de Artes da UFRGS.

Depois da repercussão do trabalho com a divertida orquestra de André Rieu, a gaúcha também conquistou espaço no circuito erudito tradicional. Entre 2009 e 2011, foi solista da Ópera de Giessen, na Alemanha, participando de montagens de A Flauta Mágica, de Mozart (1756-1791) e Os Contos de Hoffmann, de Offenbach, entre outras. Será que houve desconfiança do austero universo erudito com o trabalho de apelo popular que ela desenvolve com Rieu?

– No começo, eu pensava que os dois mundos não se comunicavam. Fiquei surpresa com a receptividade ao meu trabalho. Mas na verdade a ópera também se beneficia dessa mídia. Os produtores de ópera querem ver o teatro cheio, o público se divertir.

Carla foi parar em Maastricht, na Holanda, onde mora hoje, pelas mãos da professora Mya Besselink. Foi por causa da vontade de ter aula com a mestra que ela abriu mão dos outros dois convites que recebeu: um para estudar canto nos Estados Unidos e outro na Alemanha. Antes, no Brasil, foi aluna da célebre cantora paulista Neyde Thomas, que morreu em 2011, aos 81 anos, em Curitiba. Ainda morando em Porto Alegre, Carla viajava pelo menos um fim de semana por mês para a capital paranaense.

A vocação estava presente desde sempre, e não é apenas modo de dizer. A mãe é professora especializada no papel da música na educação e chegou a ser professora de Carla. O pai também é melômano, embora não profissional.

– A dedicação ao canto foi relativamente tardia – lembra a mãe, Leda Maffioletti, professora da Faculdade de Educação da UFRGS. – Aos poucos, Carla foi escolhendo para seu repertório justamente as árias que eu ouvia em sua gravidez. Quando foi para a Holanda estudar canto lírico, dei a ela de presente o antigo cassete com as gravações. Não dei conselhos; chorei muito.

Apesar da saudade, a filha não planeja voltar da Europa, destino almejado por nove entre 10 cantores líricos brasileiros.

– Lá tem mais opções de trabalho em comparação com o Brasil – justifica Carla. – Mas é um trabalho diário. Tem que estar sempre no mercado, mostrando o rosto, fazendo audições. A Europa não vai resolver todos os seus problemas. É dedicação, disciplina.

Casada, sem filhos, ela é reservada com relação à vida pessoal. Sua filosofia de vida é clara: o rigor da profissão não deve se sobrepor ao prazer de viver.

– Quando acordo cedo, eu amo. Mas isso não acontece tanto – gargalha, explicando que alguns concertos terminam tarde. – Tenho uma superamiga que diz: “Tem gente que vive para cantar”. Mas eu canto para viver. Amo meu trabalho, gosto de viajar, de fazer projetos maravilhosos, mas também quero ter momentos para relaxar, para a vida pessoal.

Entre o final de novembro e o início de dezembro de 2011, Carla visitou a Capital para participar de dois concertos com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e para ministrar uma masterclass na UFRGS. A recepção calorosa dos conterrâneos a pegou de surpresa.

– Veio uma avalanche de gente para falar comigo. Foi impressionante. Pensei: “Nossa Senhora, eu sou mesmo conhecida?” – relembra, sorrindo.

E retornou para Maastricht com a certeza de que se tornou uma referência para jovens aspirantes à carreira lírica no país. Carla é uma estrela em ascensão. Como a boneca Olympia, basta dar corda que estará pronta para a próxima.

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