Casamentos complicam relacionamento entre Rússia e Síria

Conflito no país do oriente médio coloca em risco cerca de 30 mil russo que ali vivem

Wa el Dzhenid e sua mulher, Roksana, no seu apartamento, em Moscou
Wa el Dzhenid e sua mulher, Roksana, no seu apartamento, em Moscou Foto: Olga Kravets

Sob as sombras dos jasmins em um quarteirão da cidade portuária de Latakia, na Síria, Natalya vive a três casas de distância de Nina, a duas de Olga, a uma ruazinha de distância de Tatyana, e bem perto das casas de Yelena, Faina e Nadezhda. Todas elas são mulheres da antiga União Soviética que se casaram com sírios.

Contando com todas as cidades, o número de esposas russas no país chega a 20.000: o legado humano de uma aliança da guerra fria que, começando nos anos 1960, levou as elites jovens da Síria para os dormitórios e as salas de aula soviéticas.

Essa curiosa diáspora permite entrever a delicada relação entre os dois países, uma relação que impede o Kremlin de afastar o presidente da Síria, Bashar Assad. A Rússia tem interesses estratégicos na Síria, incluindo um contrato de venda de armas que chega a 700 milhões de dólares por ano e um pequeno porto no Mar Mediterrâneo, que serve como sua última base militar fora da antiga União Soviética.

Entretanto, existe também o fator humano, que teve início há 50 anos, quando laços sociais foram forjados entre jovens que se conheceram na faculdade. Quando se entra em qualquer ministério ou sede de empresa na Síria, é muito fácil encontrar homens que viveram na Rússia quando tinham 20 e poucos anos; muitos deles voltaram casados para o país e criaram seus filhos em casas onde se falava russo.

? Elas são as esposas da elite e possuem alguma influência, mas uma influência branda. A elite da Síria, os homens, são muito ligados à Rússia ? afirmou Nina Sergeyeva, que até pouco tempo mantinha uma organização para as russas que viviam em Latakia.

O conflito na Síria continua a impedir uma solução diplomática e, atualmente, há cerca de 30.000 cidadãos russos vivendo no país, a maior parte dos quais mulheres e crianças, segundo estimativas do governo russo.

Esse é um problema que Moscou já teve de encarar no Oriente Médio, quando o colapso da União Soviética deixou cidadãos russos isolados em outros países. Mas é a primeira vez que acontece algo dessas proporções, ao menos desde o início da era das mídias sociais, quando a situação dos russos pode se revelar um sério problema para Moscou.

? Com base nas recentes experiências com a evacuação do Líbano e da Palestina, nos últimos anos, sabemos que problemas sempre surgem ? embora, naqueles casos, não estivéssemos falando de milhares ou dezenas de milhares de pessoas, mas de apenas algumas centenas de indivíduos ? afirmou Yelena Suponina, analista política moscovita especializada no Oriente Médio. Segundo ela, a tarefa de evacuar os russos da Síria “seria 100 vezes pior”.

A população russa na Síria é o resultado de um experimento que começou em 1963, quando o partido socialista Baath chegou ao poder. Os soviéticos forneciam educação para os melhores alunos da Ásia, África e América Latina, colocando-os ao lado de colegas de classe soviéticos em equipes de trabalho e em “noites de amizade”.

O objetivo era formar uma elite intelectual soviética global; o resultado mais imediato foram os casamentos. Mulheres jovens emigraram como esposas de médicos, professores e outras autoridades; “o mundo soviético se despediu delas e, basicamente, se esqueceu de sua existência”, afirmou Natalya Krylova, historiadora com diversas publicações sobre as populações de origem russa na África.

As uniões sírio-russas eram especialmente comuns – e não apenas por razões geopolíticas, segundo afirmam os casais entrevistados. Muitos sírios se sentiram genuinamente transformados pelo tempo que passaram na Rússia; além disso, eles escaparam de pagar os dotes, como é costume no Oriente Médio.

Mahmoud al-Hamza, que conheceu sua esposa, Nadezhda, em um parque de Moscou em 1971, afirmou que para se casar com uma síria, “você precisaria de um apartamento, precisaria dar dinheiro e comprar ouro, já para se casar com uma russa você só precisa de um anel de noivado”.

As soviéticas também tinham suas razões para procurarem os sírios – homens sóbrios que, graças aos laços do partido Baath com os comunistas, viajavam livremente para dentro e para fora da União Soviética. Uma nova onda de casamentos teve início após o fim da União Soviética, quando as mulheres buscavam uma forma de escapar do caos econômico.

? É bom que todos ouçam isso: talvez não sejam todos assim, mas pelo menos metade dos homens russos não passa de gigolôs ? afirmou Roksana Dzhenid, que se casou com o empresário Wa’el no ano 2000 e vive com ele em Moscou. Segundo ela, Wa’el também se beneficiou, escapando dos intensos laços familiares que são o resultado do casamento com uma noiva síria.

? Se houvesse uma discussão, o que uma russa faria? Ela iria chorar. No máximo, ela iria conversar com uma amiga e dizer: ‘Ele é assim e assado’. E o que faria uma árabe? Ela iria juntar todos os seus parentes, iria até a mãe e as irmãs de seu marido e começaria a gritar ? afirmou.

Taha Abdul Wahed, um jornalista que se casou com uma russa e vive nos arredores de Damasco, afirmou que o fenômeno era tão pronunciado nos últimos anos que até os homens que jamais foram para a Rússia começaram a “nos ligar e dizer: ‘Me ajude, eu quero me casar com uma russa'”.

Famílias sírio-russas foram vítimas de um intenso conflito no ano passado, quando Assad começou a reprimir com violência os protestos contra o seu governo. Desde então, a oposição se transformou em insurgência armada. A Rússia culpa a influência externa pelo derramamento de sangue e continua a apoiar o governo com veemência, fornecendo armas para a Síria e impedindo ações que derrubariam Assad do poder.

A Igreja Ortodoxa Russa também defendeu o governo secular de Assad, argumentando que ele protege as minorias religiosas e impede o crescimento do islamismo radical.

Em fevereiro, depois que a Rússia vetou uma Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que pedia a renúncia de Assad, o principal representante da Igreja Ortodoxa na Síria reclamou para a Interfax que sua paróquia estava desaparecendo com a saída das famílias russas da Síria, que a embaixada havia fechado sua escola e que, segundo ele, “nossas mulheres estão sendo insultadas nas ruas de alguns bairros de Damasco”.

Uma autoridade consular russa, que falou sob condição de anonimato, afirmou que cerca de 9.000 russos se registraram oficialmente na embaixada, mas que algumas estimativas acreditam na presença de 30.000 cidadãos russos na Síria. Ele afirmou que não há planos de evacuação, mas que se houver a necessidade, ônibus poderão ser enviados até as cidades para transportar os cidadãos com segurança.

Essa operação seria especialmente difícil, uma vez que um grande número de esposas veio da Ucrânia, da Bielorrússia e da Moldávia, países que certamente pediriam ajuda a Moscou para evacuar os seus cidadãos, afirmou Suponina. Ela afirmou que conhece dezenas de famílias que enviaram as mulheres e crianças para a Rússia nas últimas semanas. As autoridades “estão prestando cada vez mais atenção a esse fato”, segundo ela.

? Você pode criticá-los por alguns de seus erros, mas já faz bastante tempo que Moscou entendeu que essa é uma questão muito dolorosa ? afirmou.

Entre os aspectos mais delicados está o fato de que após 50 anos de casamento, se tornou difícil definir quem é russo e quem não é.

Svetlana N. Zaitseva, que falou por telefone diretamente de sua casa na cidade portuária de Tartus, na Síria, tinha 19 anos quando conheceu seu marido, um estudante de linguística que vivia no mesmo alojamento que ela em Leningrado.

Ela e seus amigos tinham uma ideia muito limitada do que seria a vida em outros países, afirmou. Na União Soviética, “era como se o mundo todo fosse feito de amigos, irmãos e camaradas”. Seis meses depois de se conhecerem, “eu percebi que nos amávamos e que não poderíamos viver longe um do outro”.

? Com toda a experiência da minha idade, agora eu devo dizer que é obviamente melhor se casar com alguém de seu próprio país ? afirmou.

Mas essa decisão foi tomada há muito tempo por Zaitseva, de 62 anos, que tem três filhos e quatro netos. Ela se agarra à esperança de que o conflito chegue ao fim; mas mesmo que ele se transforme em uma guerra, ela ainda assim ficaria na Síria até o final, afirmou.

? Não existe alternativa. Nós nos tornamos parte desse lugar. Nossos filhos e netos estão aqui, eles são cidadãos da Síria. Tudo aqui é nosso.

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