Christiane Torloni reflete sobre vida, paixão e sexualidade aos 50 anos

Temas são abordados no espetáculo "A Loba de Ray-Ban", que a atriz encena em Porto Alegre

Christiane Torloni em uma das cenas de "A Loba de Ray-Ban"
Christiane Torloni em uma das cenas de "A Loba de Ray-Ban" Foto: Luiz Tripolli, Divulgação

Passaram-se 23 anos desde que Christiane Torloni veio a Porto Alegre com a mesma montagem que agora a traz de volta à Capital. Em A Loba de Ray-Ban, em cartaz nos próximos dias 17 e 18 de julho, no Teatro do Bourbon Country, ela interpreta a loba da história, é o centro do triângulo amoroso formado ainda pelos atores Leonardo Franco e Maria Maya.

Em 1987, Torloni dava vida à mulher de Raul Cortez, o protagonista de O Lobo de Ray-Ban. Agora, personagens e gêneros se invertem. O grande assunto da peça é o relacionamento amoroso, o papel da traição, da paixão e do ciúme. Por isso essa peça nunca fica datada, explica o diretor José Possi Neto, que também dirigiu a montagem anterior. O papel não poderia ter encontrado Christiane Torloni em melhor hora.

Aos 53 anos, ela sente-se à vontade para questionar todos os temas do espetáculo. A peça trata de liberdade sexual, avisa. Por telefone, a atriz atendeu Donna para a entrevista a seguir, interrompida meia dúzia de vezes para que conseguisse terminar o almoço, assinar o cartão de crédito, despedir-se do maître, atender aos fãs, pedir informações e incorporar Rebeca, uma viúva rica que logo entrará no ar, às 19h, no remake da novela Ti-Ti-Ti.

Donna – Há 23 anos, você participou da montagem O Lobo de Ray-Ban. A diferença é que interpretava a mulher de Raul Cortez, o lobo da história. Que paralelo você traça entre as duas montagens?
Christiane Torloni – É muito interessante a linha do tempo desse espetáculo, porque dá a impressão de que nunca foi interrompido. A Júlia, personagem que fiz 23 anos atrás, a mulher do lobo, que vivia com ele todo um questionamento sobre sua sexualidade, agora é o alvo dessa questão. Nesta peça, não importa se o personagem principal é o homem ou a mulher, porque os lobos são livres, independente do sexo. São solitários, mas são livres. E essa liberdade não incomoda o lobo, mas o outro. É uma ameaça para o outro. Esse é o grande questionamento, tanto do lobo quanto da loba.

Donna – Quando você começou a ensaiar a peça, e também logo na estreia, sentia muito forte a presença de Raul Cortez, era como “se ouvisse a voz dele”. Ainda é assim?
Christiane – (Risos) Vocês acham que isso é uma coisa paranormal, mas não é. Ela significa amor, e o amor é maior do que a morte. As pessoas não morrem, ficam encantadas, já dizia Guimarães Rosa. O Raul está com a gente o tempo todo.

Donna – Na montagem de 1987, havia a relação homossexual de dois homens e uma mulher. Agora, o triângulo se inverte: são duas mulheres e um homem. Essa montagem atual teria sido possível naquela época, ou seja: hoje a sociedade está mais condescendente para assistir ao relacionamento entre duas mulheres?
Christiane – Eu acho que é o inverso, né? Há 23 anos, fazer a montagem que o Raul fez foi algo muito inquietante. Na nossa sociedade, dois homens juntos é muito inquietante. Duas mulheres juntas, não. É só ver esses canais de assinatura para adultos e a quantidade de programas propondo um ménage à trois entre duas mulheres e um homem.

Donna – Mas você mesma interpretou um personagem na novela Torre de Babel, em 1998, que vivia uma relação homossexual com a personagem da atriz Silvia Pfeiffer e foi tamanha a rejeição do público que o autor Silvio de Abreu teve que matá-las em um incêndio.
Christiane – (Pensa) A sociedade é de uma caretice… E é tão patriarcal! Tem várias culturas que permitem ao homem ter mais do que uma esposa, ter duas, três. Eu não conheço nenhuma cultura no mundo que permita à mulher ter mais do que um marido. Você vê homens dizendo: “Ah, se eu pudesse teria duas mulheres”. Mas você não vê mulheres dizendo “ah, se pudesse eu teria dois, três homens”. Até porque elas mal aguentam um só.

Donna – Aquele relacionamento entre a sua personagem e a da atriz Silvia Pfeiffer seria aceito hoje?
Christiane – A sociedade continua tão careta quanto naquela época, mas está mais condescendente. Aliás, como a sociedade é hipócrita, né? (risos). Todo mundo tem um amigo gay, uma amiga sapata, mas, se for seu filho ou sua filha, todo mundo grita. Conheço pessoas esclarecidíssimas que, quando descobriram que o filho ou a filha era gay, o mundo veio abaixo.

Donna – Você fala sobre homossexualidade com muita naturalidade e se mostra bem à vontade em papéis homossexuais. Você diria que se deve à sua educação? Em casa, quando menina, esse tema não era tabu?
Christiane – São todas essas coisas juntas. É uma combinação de fatores. E mais: a minha agenda está repleta de amigos gays, homens e mulheres. São amizades de mais de 30 anos. Então, se eu resolver fazer qualquer espécie de patrulha ideológica na minha carreira, é melhor fechar a banca, você não acha?

Donna – Qual você diria que é a grande reflexão que a peça promove?
Christiane – É muito bonito essa questão da sexualidade vir à tona na idade do lobo, ou na idade da loba, aos 50 anos. Porque ninguém mais é adolescente, ninguém mais está naquela fase de testes, se gosta disso, se prefere aquilo, se são as duas coisas… Aos 50 anos, dificilmente alguém está discutindo se vai ou não sair do armário. Quanto às mulheres, isso é improvável. Os homens já são mais atrasadinhos…

Donna – Quais são as principais semelhanças e diferenças entre você e a Loba de Ray Ban?
Christiane – Não existe isso. Somos todos humanos. O que existe em comum é o questionamento humano. Independente do que a Júlia tem a ver comigo, ela tem a essência humana. Essa é a grande aventura de ser atriz: não é o que o personagem tem em comum com você, mas aquilo que ele vai agregar à sua vida.

Donna – A peça não trata apenas de homossexualismo, esse é apenas um dos enfoques. como bem insiste o diretor José Possi Neto. A peça também fala de traição, paixão e ciúme. Gostaria que você se definisse como mulher nesses três temas.
Christiane – Eu ainda pertenço ao gênero feminino e ainda pertenço à raça humana (risos). Portanto, enquanto eu estiver nesse plano, estarei negociando com todos os sentimentos, primitivos ou não, que fazem parte do código genético da gente. Quando eu me iluminar, quem sabe isso mude. É por isso que existe o tempo, é por isso que ele passa: para que a gente vá negociando com nossos impulsos internos e vá aprendendo onde a gente está sendo ridícula, onde está perdendo tempo, onde o problema não é o outro, mas a gente.

Donna – Você vive um casamento feliz há 15 anos, mas não se trata de um casamento convencional, já que você e seu marido, Ignácio Coqueiro (diretor), vivem em casas separadas. Você diria que essa é uma das principais características do sucesso da relação?
Christiane – Esse é um casamento peculiar, é? Eu conheço outros casamentos tão mais peculiares do que o meu… (risos). São acordos sociais, só isso. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre viveram assim durante 50 anos. A gente está apenas engatinhando, 15 anos não é nada!

Donna – Como é se apaixonar depois de uma separação?
Christiane – Vinicius de Moraes responderia bem a essa questão. Como é que um outro amor pode acontecer se você não deixar o antigo ir embora? Tem gente que reclama: “Ah, não consigo me apaixonar de novo, não consigo recomeçar a minha vida…” Mas é claro! Se não se desapega daquilo que foi, se fica segurando aquele morto para o resto da vida, fica cultivando um cadáver dentro de casa! Aí não tem jeito mesmo. Vai ficar ali, de viúva, o resto da vida.

Donna – Você tem 53 anos e, sempre que aparece na tevê, as mulheres querem saber o que faz para se manter tão bem. Conte.
Christiane – São várias coisas. Eu acho que a gente tem que se ajudar constantemente, em todos os aspectos. Quando uma pessoa diz para mim que ela não consegue fazer uma atividade física, sendo saudável e tendo todas as condições para realizá-la, eu viro as costas e vou embora, porque o nome disso é preguiça. Tem gente que não tem duas pernas ou dois braços e é atleta, basta ver as Paraolimpíadas. Ali está a prova do poder de superação em todos os sentidos. Daí você olha para isso e não consegue levantar de manhã para fazer uma aula?! Por quê? Nosso corpo foi feito para estar em movimento, e é em movimento que ele deve estar até o final da vida, cada um na sua medida.

Donna – Quais são seus movimentos?
Christiane – Eu caminho, ando de bicicleta, faço yoga… Coisas que me dão prazer. Atividade física tem que estar intimamente ligada ao lúdico, ao prazer que você tinha na infância ao se exercitar com alguma prática, que não se chamava nem ginástica, nem esporte. Quando a gente é criança, a gente brinca de correr, de jogar bola, de andar de bicicleta, de ficar em posturas engraçadas… Se você olhar, as crianças fazem tudo isso. E é isso o que eu faço hoje, com a minha idade e com as minhas limitações.

Donna – Sua mãe (a atriz Monah Delacy) diz que você se alimenta mal. Você concorda?
Christiane – (Risos) Eu adoro comer, mas há alguns anos cortei a carne vermelha e a de frango. Minha mãe, como filha de gaúchos, acha isso uma afronta. Minha avó era de Santa Maria, e meu avô, de Cruz Alta. Portanto, para ela é uma ofensa ao genoma familiar.

Donna – Qual seu estágio de vaidade?
Christiane – Eu não sou uma vítima da vaidade e da beleza, não. Pelo contrário: eu sou muito vaidosa com meu trabalho, porque não é um trabalho particular. Ele coloca você em uma exposição pessoal muito grande. Portanto, qualquer roupa mal cortada, maquiagem malfeita, jamais passa despercebida e pesa contra você. Nesse sentido, sou muito chata. Me preocupo com os figurinos, com a minha imagem. Mas é sempre uma vaidade relacionada ao meu ofício de atriz.

Donna – Você andou se queixando que o povo está tomando Rivrotril como se fosse floral, que as pessoas estão se anestesiando porque ninguém mais quer se emocionar.
Christiane – (Interrompendo) E anda mesmo, é impressionante! A vida tem que ser vivida sem anestesia. Anestesia tem hora, local e prescrição específica. A gente vive com algumas angústias, claro. Mas angústia e inquietação não são doenças. A inquietação fez o homem chegar à Lua. Se o homem tivesse tomado Rivotril nas cavernas, estaria colhendo até hoje. Caçar pra quê? Eu acho que a gente tem que tomar muito cuidado com essa predisposição social em que todo mundo é meio cool, parece anestesiado. A gente tem que entender que esses níveis de sentimento fazem parte da condição humana, que são normais. Eu concordo com a medicina quando ela evita que uma pessoa faça algum mal a si própria. Mas remédio para viver a vida? O homem criou essa sociedade, ele tem que estar preparado para ela. Agora vai começar a se dopar para não enfrentar o mundo que ele próprio criou? Que loucura é essa?

Donna – Você toca em um assunto que fez da escritora Lya Luft uma best-seller. Em Perdas e Danos, ela escreve: “Permitam-me o luto no período sensato. Me ajudem não interferindo demais. O telefonema, a flor, a visita, o abraço, sim, mas por favor, não me peçam alegria sempre e sem trégua.”
Christiane – (Interrompendo) Claro! A vida é isso: perder e ganhar, nascer e enterrar. À medida que a gente perde a capacidade de viver esse sentimento, a gente está em processo de autodestruição. A Loba de Ray Ban é um espetáculo de uma passionalidade incrível, não tem nada de light, porque a vida não é light. O espectador tem que ir preparado para o tête-à-tête da vida. Como é que você pode ter essa aproximação com a vida se você está o tempo todo anestesiado?

Donna – A peça deixa alguma lição nesse sentido?
Christiane – Sim. O final da peça é um grande questionamento sobre o que é a vida. E o Renato Borghi (autor) traz lindamente à cena o Calderón de La Barca (Pedro Calderón de La Barca, dramaturgo e poeta espanhol, autor do poema A Vida É Sonho). Ele diz que a a vida é sonho e, então, que sonhemos todos. Quem consegue sonhar anestesiado? O sonho ajuda a gente a ir para frente, ajuda a entender a nossa alma. E o teatro é isso, e por isso ele muda a vida das pessoas.

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