Cigarro: a vida de quem não consegue (ou não quer) largar o vício

Porto Alegre, após estudo do Ministério da Saúde, se destaca como a Capital com maior número de fumantes

Foto: Adriana Franciosi

No centro de Porto Alegre, a alguns metros da Praça da Alfândega, há um café dividido em duas áreas, conforme o apreço da freguesia pelo cigarro. O primeiro espaço é o cartão de visitas do local: amplo, arejado e com um balcão comprido do qual os funcionários acenam para os clientes mais chegados.

Separado por uma porta de vidro, nos fundos, há um segundo espaço menor. Simpático, com um pequeno jardim, mas isolado e visivelmente mais modesto do que o primeiro.

Nada incomum, exceto por uma peculiaridade: o primeiro espaço é o de fumantes.

Conversando com a proprietária, surge outra curiosidade. Ela se recusa a falar sobre o assunto cigarro – “falar sobre isso já me rendeu muita incomodação, peço que tu compreendas” – e tampouco deseja que ela ou o seu estabelecimento sejam identificados pelo nome.

A postura da microempresária diz muito sobre como o assunto cigarro é tratado em Porto Alegre. A cidade, após estudo do Ministério da Saúde, se destaca como a de maior número de fumantes. De acordo com o Vigitel 2011, levantamento que desde 2006 monitora “doenças crônicas não transmissíveis” em 26 capitais, um em cada cinco porto-alegrenses fuma – precisamente, são 22,6%, frente a uma média nacional de 14,8%. Quase metade deles (10,7%) fuma mais de 20 cigarros por dia. O comportamento parece alheio às campanhas de conscientização, prevenção ou de puro cerceamento ao fumante que proliferaram nos últimos anos.

Esse um quinto de Porto Alegre prefere não mostrar o rosto. Não se envergonha de fumar em companhia de amigos, na noite ou em intervalos do trabalho, mas se sente desconfortável ao ver fotos suas com o cigarro. Talvez porque, cada vez mais públicas na era das redes sociais, elas facilmente vão parar na frente dos pais, e todos detestam esses dois espectadores do tabagismo.

Como na tentativa de entrevista com a empresária do café na área central, Donna encontrou resistência para realizar a capa desta edição. A ideia original – uma mulher fumando, simples assim – teve de ser alterada. Embora a revista tenha procurado modelos profissionais que já fossem fumantes, nenhuma, de nenhuma agência pesquisada, quis ter em seu portfólio uma capa com um cigarro na boca.

Mas de que adianta o silêncio se o número de fumantes não está mais diminuindo (é estável em torno de 20% desde 2006)? Na noite porto-alegrense, onde o fumo nunca foi tão restrito, tem-se a impressão de que há muito os jovens não fumam tanto. Entre mulheres porto-alegrenses, o fumo pulou de 17% em 2006 para 20,9% em 2011.

Para entender por que, quando e onde fumam e o comportamento dos fumantes como consumidores e cidadãos, a reportagem frequentou ruas e festas em que abordou 40 pessoas. Embora as conversas não tenham seguido uma metodologia rígida – foram de longos bate-papos a diálogos com a duração exata de um cigarro – chegou-se às 10 conclusões que podem ser conferidas nas próximas páginas.

Antes delas, uma: se o cigarro é um grande inimigo da saúde pública, é fundamental ouvir mais quem convive com ele para combatê-lo.

1. Cigarro é desculpa

O popular tem fogo? ainda é o início de muitos relacionamentos, especialmente no Sul, onde a abordagem na noite, acredite, ainda é mais comedida do que no restante do país. Começou no fumódromo da casa noturna Farms o namoro (já encerrado) de Bibiana Terra Campos, 25 anos e fumante desde os 18. É ela quem ilustra a capa de Donna.

? Repara. Muitas vezes o fumódromo é o único lugar da festa em que dá para conversar. E o pessoal vai igual, não importa o quão horrível ele seja ? avalia Bibiana.

Assim como é uma oportunidade de approach, o cigarro ainda é a desculpa para arejar a cabeça de uma mesa chata ou barulhenta. Todo bar deixa o frequentador sair para fumar, mas não para beber um copo de cerveja em paz, a céu aberto.

Junto às 40 pessoas pesquisadas por Donna, outras oito fumavam, mas não se consideravam fumantes. Estavam ali apenas para acompanhar. Para não obrigar uma pessoa a comprar uma carteira de cigarro se quiser ouvir e ser ouvido durante uma festa, fumantes e não-fumantes concordam: seria ótimo a proliferação de espaços mais sossegados em casas noturnas, bares e afins. O cigarro pode ficar de fora.

2. O fumante, como todos, é vaidoso

“Pare de fumar” e o telefone de um pneumologista do serviço de saúde pública.
“Pare de fumar sem engordar” e os telefones de um pneumologista e de um nutricionista do serviço de saúde pública.

A qual dos dois anúncios, você fumante, responderia? Se for mulher, pode ter certeza que ao segundo. Das 22 pesquisadas por Donna, 19 mencionaram espontaneamente o possível ganho de peso como um receio para parar de fumar.

Da mesma forma, ressecamento de pele e “voz de traveco”, como diria a lojista Tai Holz, 26 anos, são fatores muito mais mencionados como malefícios do cigarro do que o risco de câncer.

Possivelmente as campanhas de prevenção fossem mais eficientes se entendessem que as pessoas estão mais preocupadas com os efeitos superficiais e a curto prazo do que com as consequências a longo prazo, por mais devastadoras que elas sejam.

3. O fumante não se sente adoecendo

Ao longo das entrevistas em pleno verão porto-alegrense, a reportagem ouviu os mais diversos timbres de pigarros e ataques de tosses. Ao entrecortar a conversa sobre tabagismo com pausas para o cof, cof, alguns nem reparavam. Outros riam constrangidos e davam desculpas como: Não é do fumo não, hein? É gripe ou É só a minha rinite.

Médico de 40 anos e apreciador esporádico de charutos e cigarros importados, Jauru Freitas conclui:

? É assim mesmo. Quem fuma não se sente definhando e também não tem medo de morrer disso. Na verdade, se as pessoas tivessem medo de morrer, não dirigiriam bêbadas, por exemplo.

Perceber o mal do cigarro no organismo é um bom começo para parar. Bibiana, por exemplo, parou por alguns meses e reparou notável evolução ao correr. Assim que se curar de uma lesão, tentará novamente aliviar no cigarro pelo esporte. Quer convencer seu amigo a parar de fumar? Comece dando um cansaço nele. É um choque de realidade.


Foto: Adriana franciosi/Agência RBS

4. É preciso repensar os rótulos

Se as pessoas se apavorassem com cabeças arrebentadas, membros cortados e pulmões em decomposição, os zumbis do seriado The Walking Dead não fariam tanto sucesso. Os rótulos ilustrados com efeitos bárbaros do cigarro são motivo unânime de chacota.

O único que causa um mínimo de efeito é o que mostra um feto atirado em bitucas de cigarro – repulsivo, mas exagerado. Ainda assim, as entrevistadas parariam de fumar somente ao ficarem grávidas. Não antes. E independentemente do rótulo.

? É o único (rótulo) que eu, às vezes, viro. Mas geralmente nem nesse aí eu reparo ? diz Jaqueline Machado Oliveira, 26 anos, funcionária de um salão de beleza.

No restante deles, o máximo de efeito é o fumante se sentir agredido, jamais conscientizado do malefício do cigarro. Está na hora de, como nas campanhas de trânsito, imaginar abordagens mais criativas. Hoje, os rótulos são paisagens. Horríveis, mas ainda assim paisagens.

5. Informação está em falta

Se as informações hoje sobre tabagismo fossem comparadas a doenças sexualmente transmissíveis, estaríamos no tempo em que as autoridades imaginavam que falar abertamente sobre o assunto poderia levar nossas crianças à devassidão.

Percepção semelhante teve a arquiteta Milena Hannud, 53 anos e fumante há mais de 30, ao fundar o site Eu Fumo (www.eufumo.com.br).

? Minha intenção não é estimular as pessoas a continuar. É dar informações importantes sobre saúde enquanto elas são fumantes. Os efeitos do cigarro já são ruins, será que eu não tenho o direito de querer melhorar as outras coisas em torno dele?

Milena compartilha, por exemplo, artigos sobre a alimentação mais adequada para quem fuma, médicos que fumantes precisam consultar regularmente e também textos contra os abusos e exageros que vê da Lei Antifumo de São Paulo, onde reside.

? Grande parte das colaborações de médicos é anônima. Embora eles reconheçam a importância das informações, não podem defender isso abertamente por puro obscurantismo ? diz Milena, que contabiliza 7 mil acessos mensais.

Para quem acha que se informar sobre o fumo estimula o fumante a continuar, Milena rebate de pronto:

? A sessão mais acessada do meu site é justamente a de como parar de fumar.

6. Os pais têm grande influência

A grande maioria dos fumantes entrevistados (mais de 30 deles) eram filhos de fumantes. Boa parte, filhos de pais que já não mais fumavam e que agora repudiavam a prática veementemente. Isso não impediu os filhos já maduros de, com décadas de atraso, adquirirem o mesmíssimo hábito.

A explicação é um misto de (mau) exemplo, de falta de autoridade para repreender o filho e até mesmo química, segundo a coordenadora da área de tabagismo da prefeitura de Porto Alegre, Fabiana Reis Ninov (leia a entrevista na página 18):

? Há estudos sobre isso. A nicotina é uma substância química associada ao prazer. Se a criança conviveu com fumantes, ela possivelmente guarde essa memória no cérebro lá da infância. É o mesmo princípio que faz de todo ex-fumante um eterno dependente químico.


Foto: Adriana Franciosi/Agência RBS

7. Respeito é bom e todos gostam

A maioria dos fumantes é simpática às restrições ao cigarro. Como todo mundo, também curtem voltar para casa de uma festa com as roupas menos fedorentas.

Mas se o tabagismo é considerado uma doença, certamente o tabagista não é tratado como um doente. Muitas vezes ele é tratado como um pária. Alguém obrigado a aguentar caras feias de outros frequentadores de um bar, mesmo à distância e em um espaço aberto, e os cubículos imundos que alguns estabelecimentos destinam a eles.

? Não deixo de sair porque eu fumo. Nem de fumar. Deixo, sim, de frequentar alguns lugares em que sou maltratada, como qualquer cliente ? declara Jaqueline.

Para Milena, do site Eu Fumo, achacar o fumante é, antes de tudo, ineficiente para fazê-lo parar:

? Como toda pessoa que é minoria, quando é isolada em vez de integrada, ela se une com pessoas excluídas como ela. Depois, ainda se torna mais radical.

8. O bolso pesa

De todas as estratégias do poder público para cercar os fumantes, a mais eficiente, afirmam os próprios, é o aumento de preço.

? Desde os 14 anos eu tentei parar diversas vezes. Aí que tu sentes o quanto pesa no bolso. Acho que de todas as estratégias, ficar muito caro é a que funcionaria comigo ? relata Tai.

Hoje, o cigarro custa por volta de R$ 5. Duas carteiras ao dia significa R$ 300 ao fim do mês, o suficiente para pagar uma academia ou um bom pacote de TV a cabo. Em 2013, está previsto novo aumento do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI). Ao fim do ano, o IPI corresponderá a R$ 1,05 do maço e R$ 1,25 do box.

9. Sabor importa

Pode ter efeito positivo a proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a cigarros com sabores como menta e canela, que correspondiam a 22% das vendas segundo dados de 2010. Entre os entrevistados que começaram a fumar ainda na adolescência, é comum os relatos de que iniciaram no tabagismo compartilhando cigarros de sabor com colegas de escola. É claro que o produto já não deveria estar sendo vendido a adolescentes, mas…

Emitida em março de 2012, a determinação previa um ano para o fim da fabricação e outros seis para a retirada do mercado. Vale lembrar que comercializar um produto menos saboroso não necessariamente faz diferença. A pouca variedade de sabores de cerveja comercializados no país, por exemplo, não impede o Brasil de ser o segundo maior consumidor da bebida.

10. O cigarro ainda seduz

Em Examinando as Cinzas (publicado no livro Como Ficar Sozinho), ensaio em que o escritor Jonathan Franzen analisa a indústria do tabaco, ele encerra narrando como, seis anos depois de abandonar o cigarro, ainda o abala a cena de uma mulher acendendo um: “Apaixonei-me à primeira vista enquanto ela permanecia lá, meio debruçada, inalando contradição e exalando ambivalência”.

Durante a apuração desta reportagem, em meio a tanto fogo oferecido e ofertado, cenas como essa arrebataram o repórter (que nem fuma) uma boa meia dúzia de vezes. Todas elas, porém, viraram fumaça frente a outra, ocorrida na Rua Padre Chagas.

Ali, no meio da tarde, uma senhora de enrugadíssimos 56 anos conversou com Donna na breve pausa da lavação da calçada. Em 10 minutos, fumou um cigarro e meio. Pediu desculpas e licença para fumar a última metade em silêncio, do contrário não terminaria durante o tempo do seu intervalo.

Diante da cena de uma senhora sentada na calçada, tragando, lutando contra o relógio e vencida pelo vício, coube apenas um adjetivo. Triste.


Fabiana Reis Ninov
Foto: Adriana Franciosi/Agência RBS

“Nicotina é uma droga pesadíssima”

Fabiana Reis Ninov fala de cadeira. Durante 20 anos, ela fumou três carteiras de cigarro por dia. Longe (nunca livre) do vício há 18 anos, desde agosto coordena a área de antitabagismo da prefeitura municipal de Porto Alegre.

Em 2012, cerca de 700 pessoas passaram pelo tratamento oferecido gratuitamente a quem deseja parar de fumar. O primeiro passo é comparecer a qualquer posto de saúde. Oferecer o programa estabelecido pelo Ministério da Saúde é obrigação de todas as prefeituras. Neste entrevista, Fabiana explica o projeto.

Donna – Como começa o tratamento?

Fabiana Ninov – A pessoa deve comparecer a qualquer posto de saúde. Em Porto Alegre, 42 oferecem o tratamento, mas os que não oferecem indicam os mais próximos. Vale lembrar que não é um programa oferecido apenas aqui. Todos os municípios são obrigados a fazer isso. Até dezembro, a meta é atender em 70 postos. Na Capital, temos 252 profissionais de saúde capacitados. Ainda é pouco diante do número de fumantes da cidade.

Donna – O tratamento usa medicamentos?

Fabiana – Na primeira etapa é marcada uma consulta com um médico, que é capacitado para o programa pelo Instituto Nacional do Câncer. Conforme o caso, ele pode receitar exames e, sim, medicamentos como adesivos e antidepressivos. A nicotina é uma droga pesadíssima, e o paciente está sujeito a crises de abstinência.

Donna – E como funciona o acompanhamento?

Fabiana – São quatro sessões de grupo, uma por semana. Depois, elas passam a ser quinzenais e mensais. Todo tratamento dura um ano. Em março, iniciaremos as primeiras turmas noturnas. Atingir quem trabalha durante o dia era um dos nossos obstáculos.

Donna – Há uma estatística de quantos que iniciam o tratamento conseguem parar de fumar?

Fabiana – Sim. Entre 30% e 40% dos que completam as quatro sessões iniciais conseguem deixar o vício. É uma boa taxa. É uma luta complicadíssima. Um dependente de nicotina enfrenta uma batalha por vezes mais difícil do que o de heroína ou cocaína, e recaídas acontecem.

Donna – Em que condições as pessoas costumam procurar o serviço?

Fabiana – Infelizmente, elas costumam vir diante de um ultimato de um médico, já com algum comprometimento no organismo. É muito triste, e não precisa ser assim. Por isso é importante divulgar e prevenir.

Mais informações para parar de fumar?
Ligue para (51) 3289 2774

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