Clara Averbuck: A violência dos nossos filhos não é “só uma brincadeira”

Foto: Pexels, divulgação
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Vou falar como mãe de adolescente e para mães de outras crianças e adolescentes: precisa haver uma responsabilização pelas violências que os filhos cometem em ambiente escolar.

É violência, sim, o nome.

Chamar de vagabunda, vadia, piranha e afins uma menina de 10, 11, 12 anos é inadmissível. É inadmissível em qualquer idade, mas usar esses termos pra atacar meninas tão jovens que sequer começaram suas vidas sexuais me tira do sério. E, sim, eu sei que meninas reproduzem esse machismo, mas isso tem que ser combatido, não tratado como algo normal e corriqueiro. O machismo é anterior a elas, já estava lá quando elas nasceram, está aqui agora, é parte da cultura da nossa sociedade. Mulheres adultas reproduzem, homens adultos são machistas e saem ilesos (às vezes aplaudidos). É claro que isso passa para os mais jovens.

Chamar uma criança negra de “macaco” não é só inadmissível. É criminoso. Falar mal de cabelo crespo dizendo que é “ruim” não é “gosto”, é racismo. E não, não existe racismo reverso. Perseguir o menino que não age feito machão ou a menina que não segue o molde de feminilidade não pode, não deve ser tratado como uma bobagem. Ofensas homofóbicas não são apenas palavras que devem ser deixadas pra lá.

E me põe em fúria a reação de alguns pais e mães: “era brincadeira”. Não, senhor, não era brincadeira. É violência que seus filhos estão cometendo e cabe a vocês, a nós, ensiná-los. Quando alguém aponta isso não é dizendo que seu filho é uma pessoa horrível e você um progenitor irresponsável; é porque o seu papel é educar pra que seu filho não se torne um misógino racista no futuro. Para que ele aprenda, desde cedo, os preconceitos que devem ser combatidos. Quando alguém aponta isso está querendo ajudar para formar uma sociedade melhor e não acusar seu filho injusta e gratuitamente.

Eu, você e todos os filhos vivemos no mesmo lugar.

E nossos filhos não são criados em bolhas. Parte do que aprendem vem de nós e parte vem do meio que frequentam, sua escola, seus amigos, do que consomem, do que veem normalizado na televisão e na internet. Não adianta achar que você é a única fonte de aprendizado e pilar moral; eles absorvem e filtram como podem as informações que têm à sua volta. E tem muita informação vinda de todos os lados, coisas que não podemos mais controlar.

Se o seu filho está sendo machista, racista, homofóbico, capacitista, gordofóbico na escola (e na vida!) não trate como “brincadeira”. Sim, pode ser só uma criança, e é justamente agora que precisa aprender a respeitar a diversidade e parar de reproduzir o que essa sociedade doente espalha. Se as crianças aprendem errado, estamos aqui para ajudá-las a acertar, não é? Ou vamos seguir passando os erros pra frente?

Ninguém nasce sabendo educar; mas podemos aprender juntos. Aliás, precisamos reaprender, porque o que nos foi ensinado está errado. É violento. Faz mal. Chamar bullying de frescura e minimizar dizendo que “está vivo” hoje mesmo tendo sido xingado na infância não ajuda nenhuma criança ou adolescente a passar por uma fase horrível, mas diz bastante sobre quem profere a frase; está vivo, mas, se acha que violência é normal, não deve estar muito bem. Ninguém tem que passar por violência alguma. Nunca..

Não é normal, não é brincadeira. Pode não ser sua culpa, mas é sua responsabilidade. Sua, minha e da comunidade onde seu filho vive.

Só que, para reeducá-los, precisamos nos reeducar antes.

Vamos começar repetindo que violência alguma deve ser normalizada?

Violência alguma deve ser normalizada. Jamais.

Em ambiente algum.

Em idade alguma.

Em circunstância alguma.

E vamos sempre lembrar da frase do Malcolm X: não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor.

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