Claudia Tajes: “Enroladores & Espertalhões”

Pode notar: sempre que um homem público, ou o administrador de algum serviço essencial, ou o encarregado de responder por determinada bronca e por aí vai começa uma entrevista com veja bem, não dá outra. Lá vem enrolação.

Ouço notícias o tempo inteiro. É um jeito de ficar mais perto de casa. Pena que as notícias, no mais das vezes, sejam ruins. Exemplo: alguém vai ao rádio anunciar o parcelamento de salários dos funcionários estaduais que ganham a partir de R$ 2 mil. Como ele começou a intervenção? “Veja bem”. Em seguida pediu para a população compreender que a medida era necessária. “Medida necessária” é um eufemismo para “vai estourar no de vocês”. Argumentem o que quiserem, parcelamento de salários não é medida. É perversidade.

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E aí teve o caso da falta de água por quase uma semana em Alvorada, Viamão, Cachoeirinha e Gravataí. Se de longe indignou ouvir as explicações do representante da Corsan, imagino o que sentiram as famílias prejudicadas. Difícil engolir (a seco, claro) as desculpas dele – e as culpas atribuídas ao imponderável e às administrações passadas. Pode até ser verdade, mas adianta o poder público usar o microfone para se queixar? Nessas horas, vale o mantra do famoso personagem de desenho animado: Mutley, faça alguma coisa.

(Diego Vara/Agência RBS) 2015. Pode uma coisa dessas?

(Diego Vara/Agência RBS) 2015. Pode uma coisa dessas?

O melhor estava reservado para o final da entrevista. Perguntado sobre uma possível isenção na conta dos clientes afetados, o cidadão limpou um pigarro e tascou, sem dó e nem piedade: “Veja bem, nós daremos um desconto. A isenção impediria a companhia de tomar as medidas necessárias”.

Quando parecia que estava ruim o bastante, alguns comerciantes das cidades atingidas aumentaram o preço da bombona de água de 20 litros. Alguns davam uma facada de até R$ 40 antes da chegada do PROCON. Os donos de poços artesianos também passaram a cobrar para abastecer os vizinhos. Em plena situação de calamidade pública, apareceu coisa ainda mais triste que a falta de água: a falta de solidariedade. Eita, mundo.

Um pouquinho de graça para aguentar o tirão

Um pouquinho de graça para aguentar o tirão

E-mails recebidos a respeito da coluna sobre o lixo, publicada no dia 19 de julho. O leitor Luiz Alberto Lomando considerou alarmismo: “Tempos atrás assisti a um documentário num desses canais tipo Discovery relatando pesquisa feita por um navio espanhol que percorreu o Pacífico em busca do propalado lixão. O resultado foi que simplesmente isso não existe, ao menos da forma como os alarmistas de plantão apregoam. Face a minha formação em engenharia, tenho por hábito duvidar de toda publicação alarmista – aquecimento global provocado pela atividade humana, destruição da camada de ozônio, etc. Pesquisando em diversas fontes, todas disponíveis na Internet, percebemos que não existe nenhum consenso sobre questões relevantes como essas. Existe sim interesses escusos envolvendo verbas milionárias que financiam projetos de ONG’s movidas a dinheiro público”. Concordo bem mais com a opinião do também engenheiro Paulo Azevedo, que pensa que a indústria precisa assumir a sua parte nesse problema. ” (…) A sociedade não pode mais assumir o papel ou ser protagonista da geração de lixo isoladamente, será necessário que os fabricantes desses produtos e/ou alimentos comecem assumir seu papel de grandes geradores”.

Inspiração pra quem governa: faça alguma coisa!

Inspiração pra quem governa: faça alguma coisa!

Em parceria com amigos, o Lucas Rheinheimer desenvolveu um aplicativo para conscientizar sobre a importância da separação do lixo, com um programa de recompensas coletivas baseado nos pontos individuais dos participantes. O aplicativo já foi apresentado para quatro empresas que, mesmo gostando do projeto, não compraram a ideia por não ver nela uma possibilidade imediata de lucro. Para quem se interessar, segue o e-mail: lucas@mosh.in.

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