Com pouca idade e muito estilo, meninas trocam brinquedo por maquiagem e mandam no próprio guarda-roupa

Mães se assustam com o excesso de vaidade e especialistas falam sobre os limites dessa brincadeira

Meninas não podem ser estimuladas desde muito cedo a serem tão vaidosas quanto as mães, dizem especialistas
Meninas não podem ser estimuladas desde muito cedo a serem tão vaidosas quanto as mães, dizem especialistas Foto: TK Helena

O despertador toca às seis da manhã convocando para o dever, que começa às sete em ponto. Lutando contra o sono, ela se arrasta até o espelho para confirmar o que já desconfiava: tantas tarefas por dia e poucas horas de sono lhe causaram terríveis bolsas e olheiras, que só mesmo um bom corretivo dá conta de amenizar. Ignora os berros que vêm da cozinha chamando para o café-da-manhã, com pão quentinho e leite com chocolate, e dá início ao ritual obrigatório de todas as manhãs.

Abre o estojo de maquiagem, disfarça as olheiras, devolve o corado ao rosto com um blush rosado e ressalta o sorriso com o brilho labial favorito. Por último, penteia os cabelos e escolhe um adereço charmoso. Pronto. Agora sim pode encarar o dia.

O ritual acima tem, aos poucos, invadido a rotina de milhares de lares onde vivem meninas. Paletes de sombras, esmaltes, blushes, pincéis e palavras desconhecidas até para algumas mulheres já crescidinhas, como bronzer (ou pó bronzeador, para as menos íntimas) passaram a fazer parte do vocabulário de pequenas que mal dão conta de pronunciar o próprio nome. Todos esses itens pularam da prateleira mais alta para a mais baixa nos supermercados e lojas de cosméticos e se juntaram a ursinhos de pelúcia, bonecas, jogos de tabuleiro e gadgets tecnológicos.

Sim, elas tem nécessaires cheias de maquiagem, pintam as unhas e não deixam de encher o guarda-roupa com peças que fariam inveja mesmo aos mais antenados fashionistas. Nada passa despercebido por essa geração que dribla pais, dermatologistas e pedagogos preocupados com os desdobramentos de tanta vaidade no futuro.

Enquanto ele não chega, elas não só aprendem como ensinam no portal de vídeos YouTube dicas de maquiagens úteis para pessoas com o dobro, o triplo ou o quádruplo da idade delas. Além disso, desfilam por aí com roupas que são sonhos de consumo de gente grande. Duvida?

A pequena notável

Duas penteadeiras, seis sombras, algumas escovas de cabelo, muitos esmaltes ?quase todos cor-de-rosa ? e um batom em formato de morango dividem o espaço com algumas bonecas Barbie espalhadas pela sala e quarto. Nicole Khouri tem só 3 anos, pouco tamanho e vaidade de gente grande. Muito maior até que a da mãe, Neuza Khouri, 41, que desde a gravidez deixou um pouco esquecida a nécessaire de maquiagem.

Nicole recebeu a reportagem de pulseiras, meias, sapatos e esmalte cor-de-rosa, tudo para combinar com o vestido de babados escolhido para a fotografia. O guarda-roupa, aliás, está às tampas com vestidos de princesa, bem rodados.

? Não dá para escolher roupa para ela. Ela chega na loja apontando o que quer e, quando cisma, é impossível não trazer o vestido para casa ? conta Neuza, por sorte dona de uma loja de roupas infantis.

Incontáveis vezes a mãe chegou a levar o vestido e, depois, às escondidas, devolvê-lo à loja. Com estilo já bem definido, a pequena só aprova os modelos compridos, quase no pé, nem que para isso tenha que levar para casa peças dois ou três números maiores que o seu manequim. Shorts e camisetas, nem pensar. Além dos vestidos, ela ostenta uma paixão comum a muitas mulheres já bem crescidas: sapatos.

Enquanto Neuza fala sobre a vaidade da filha, Nicole compara o esmalte pink, do qual está orgulhosa, com o da mãe, que é vermelho. Insatisfeita, passa uma camada de glitter azul por cima. Depois, cisma em pintar as unhas da babá, trabalho que faz pacientemente e, quando termina, ensina que ela precisa ficar com as mãos imóveis para a pintura não borrar.

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Quem falou em piscina de bolinhas, mesas enfeitadas, palhaços e mágicos? Nada disso. Um novo tipo de festa de aniversário tem feito a alegria das pequenas vaidosas. O lugar da comemoração é um salão de beleza. Entre um gole e outro de refrigerante, as crianças aprendem truques de maquiagem difíceis mesmo para quem já tem intimidade com a coisa, como delinear os olhos e marcar o côncavo. Prestam a maior atenção às dicas da “prófi” e fazem tudo com a maior facilidade.

? Pode misturar azul e branco? ? indaga uma aluna curiosa. ? E rosa e roxo? ? empolga-se outra, de pincel na mão. ? É uma festa mesmo para elas e acaba sendo terapia para a gente ? afirma a maquiadora Carol De Marchi, dona de uma loja de maquiagem no Lago Sul (Brasília) que, vira e mexe, recebe festinhas regadas a maquiagem.

Natália Brandão acabou de completar 9 anos e já é craque em make-up. Juntou o grupo de amigas para comemorar o aniversário num curso de automaquiagem.

? É legal e a gente brinca de maquiagem! ? justificou, empolgada, a aniversariante.

A mãe, Tatiana Brandão, achou que era uma forma de fugir das tradicionais festinhas. Para garantir a segurança das pequenas, os produtos usados nas aulas são todos próprios para crianças e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Depois de maquiadas, o momento mais esperado: supernervosas, as meninas desfilam para as mães, enfeitadas com boás coloridos e com direito até a passarela.

Hidratação e cachinhos

Maria Clara da Costa tem 9 anos e, além de ser super alto astral e comunicativa, sempre foi vaidosa. A mãe, Walkiria, conta que a menina adora ganhar roupas, sapatos, xampus e já sabe pintar as unhas sozinha.

? Eu não sei de onde veio esse lado dela. Apesar de ser cabeleireira e maquiadora, eu não sou tão vaidosa e minha filha mais velha também é bem desligada desse tipo de coisa.

A menina tem uma coleção de esmaltes de dar inveja em qualquer adulto. A mãe conta que aos 4 anos ela já adorava se maquiar.

? Ela pegava as maquiagens da irmã mais velha e levava para a escola escondido para se pintar ? relembra.

Hoje, Maria Clara só tem permissão para usar maquiagem nas apresentações de ginástica rítmica.

? No dia a dia, só gloss e olhe lá ? alerta Walkiria. Ela conta que a filha quer tudo o que não é próprio para a idade. ? Ela insiste em pintar o cabelo. Eu explico que ainda é cedo para essas coisas, ela é muito nova. Tenho receio que ela pule a infância e deixe de aproveitar essa época tão boa e importante da vida.

Apesar de adorar produtos de beleza, para o Dia das Crianças pediu de presente uma Barbie.

? Eu amo ir ao shopping, comprar roupa e tudo mais. Mas ainda prefiro brincar. E a Barbie que eu quero é muito chique ? descreve. Desde os 5 anos, Maria Clara faz hidratação nos cabelos. ? Às vezes, eu enfeito, boto uma faixa ou faço um rabo de cavalo, mas gosto mesmo é de deixá-lo solto. Além disso, só deixo a minha mãe cortar as pontinhas, gosto dele grande.

Na dose certa

Se o excesso de vaidade é motivo de preocupação dos especialistas mesmo entre adultos, com as pequenas a coisa é ainda mais grave. Psicólogos e pedagogos defendem que maquiagem nas baixinhas é até legal, mas desde que seja encarada como uma brincadeira e que tenha acompanhamento de perto dos pais.

Além disso, a maneira como a criança vai ou não levar essa vaidade para o futuro também tem muito a ver com a forma com que a família recebe esse comportamento em casa na infância, como explica a psicóloga infantil, pedagoga e professora da Universidade de Brasília Penélope Ximenes.

? Uma coisa é uma criança vaidosa cujo comportamento não é valorizado. Essa vaidade excessiva vai naturalmente sumindo. Outra é uma criança que é estimulada a se enfeitar. Nesse caso, se ela for uma menina carente de afeto, vai começar a achar que a única forma de receber atenção é pela vaidade ? alerta.

Para a psicóloga da pediatria da Unifesp, Patrícia Spada, preocupação demais com a aparência pode até mesmo ser um sintoma de algum conflito psicológico.

? A menina que vive em função de se maquiar enquanto o mais adequado para a idade dela seria brincar já revela que está passando por alguma dificuldade emocional ? afirma Spada.

Perceber a tênue linha entre a brincadeira e o exagero não parece fácil. Uma dica é observar o tempo que o ato de se embelezar ocupa na rotina da criança.

? Se a menina não sai de casa porque não acha o batom, se fica acordada até tarde mexendo na nécessaire, se vai mal na escola e se isso afeta a vida social dela, é hora de impor limites ? orienta Penélope Ximenes.

E o limite, que para muitas mães é um quebra-cabeça sem encaixe, é mais simples e fácil do que pintam os pais, segundo a pedagoga.

? Diga não ? sugere. ? Tem mãe e pai que tem medo de dizer não e aí a criança cresce sem saber o que é isso. Está excessivo? Diga não e ponto ? ensina.

A coisa só fica mais complicada quando o comportamento da criança é quase uma réplica da mãe ou quando, sem perceber, ela incentiva a vaidade da criança, como observa Mônica Spada.

? A mãe precisa identificar se ela não está estimulando um comportamento sem limite. Ela é a autoridade e o modelo e deve resolver o que é bom ou não para a criança.

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