Com seus timbres e belezas, cantoras vivem o compasso noturno de POA

Conheça a história de personalidades que dão ritmo às noites da cidade

Foto: Juliano Oster

A madrugada traz uma melodia singular às ruas de Porto Alegre. É uma melodia noturna que pode ter a batida de muitos ritmos e estilos musicais, do jazz ao rock, do samba ao tango. E para cantar essa multiplicidade musical, surgem vozes singulares, vozes de mulher. A noite é territótio delas: em meio às luzes dos bares e casas noturnas, as cantoras brilham. Não importa o que se cante. Se a voz no palco é feminina, há algo de sublime no ar.

Seguindo o rastro de grandes nomes da música popular brasileira formadas aqui mesmo, na Capital, como Elis Regina e Adriana Calcanhotto, essas mulheres vertem sua arte em bares, pubs e casas noturnas. E também nos teatros e grandes palcos, quando atingem um reconhecimento mais abrangente de seu talento. Para levar essa vida noturna, enfrentam as consequências de trabalhar enquanto a maioria dorme e encaram o desafio de serem mulheres que escolheram a música da noite para viver.

Apaixonada pelo canto desde os 14 anos, Bella Stone, 23 (foto), é um dos novos talentos que há muito frequenta os palcos da noite na Capital. Depois de ter estudado música erudita, formou uma banda com amigos de colégio.Queria experimentar-se na arte. Com o grupo, aos 16 anos, começou a cantar em bares de rock. A formação lírica, no entanto, a inquietou para que descobrisse outras características de seu talento.

Foi quando embarcou no estudo do jazz e caiu de amores por cantoras como Ella Fitzgerald e Aretha Franklin. Natural de Pelotas, Bella também não ficou indiferente à música feita por seu conterrâneo, Vitor Ramil, cujas canções estão sempre presentes no repertório. Essa mistura resulta em interpretações econômicas e, ao mesmo, tempo intensas, seja na intimidade dos teatros ou no burburinho dos bares e casas noturnas.

No ano passado, por indicação de amigos, Bella se inscreveu no programa The Voice Brasil, da Rede Globo. Chegou às semifinais, exposição suficiente para que ficasse mais conhecida no Rio Grande do Sul e no país. Por que não quis ficar no Rio de Janeiro para tentar seguir carreira por lá? Ela responde:

? Gosto de morar aqui. Não gostaria de viver em cidades como o Rio ou São Paulo.

Mãe precoce, Bella compreendeu desde cedo as dificuldades e responsabilidades de viver de música. Para conciliar o trabalho como cantora com a criação do filho, Érico, cinco anos, conta com a ajuda da família e de amigos. E também carrega o guri para muitas de suas apresentações.

? Ele conta para as pessoas na fila do supermercado: “Sabia que a minha mãe é cantora?”. Ele está crescendo em meio a músicos, camarins, shows. Às vezes, até me apresenta ao público, no palco. Tem que se acostumar com o trabalho da mãe dele, né?

Organizar o orçamento também desafia o errático trabalho de artista. Equacionar os prazos de pagamento dos contratantes, a divulgação do trabalho e a agenda de apresentações nem sempre é uma operação simples e de resultado positivo.

? Quando se tem filho, essa responsabilidade pesa ainda mais.

Em função dessas vicissitudes da profissão, Bella comenta que já se questionou sobre a escolha pela música. Até pensou em mudar de carreira, trabalhar em algo mais estável. Mas nunca conseguiu. Cantar, para Bella, é uma espécie de seiva vital, sem a qual não é possível existir.

Enquanto trabalha no seu primeiro CD, de conteúdo intimista e feito para “sentar e escutar”, segundo ela própria, Bella não deixa a noite. Atualmente, pode ser vista no palco do Ocidente com o projeto Back to Black, um tributo a Amy Winehouse, ao lado de um time de músicos consagrados da cena porto-alegrense.

? Esse trabalho se encaixa perfeitamente no ambiente da noite. É o meu ambiente natural.

Vanessa Marques: Vida que emana da música

Quando começou a cantar, aos 17 anos, Vanessa Marques não sabia direito o que queria da vida. Mas sabia de três coisas: não gostava de estudar, amava enlouquecidamente – e ainda ama – Marisa Monte e sentia um fascínio pela noite. Cantar foi uma escolha natural, que nasceu do talento da guria com o microfone.

?Sou outra pessoa na noite. Funciono bem, sou feliz. E quando comecei a cantar me viciei nessa vida noturna, nesse trabalho. Na real, eu nunca trabalhei na vida. Só me divirto – brinca Vanessa.

Pensar em um trabalho formal, em horário comercial, é, para ela, algo impossível. Um escritório para passar o dia é uma imagem assustadora para Vanessa.

? Gosto de me sentir livre.

Aos 20 anos, quando conheceu o marido, Claus, a carreira de Vanessa ganhou não só um incentivador, como o parceiro que faltava. Juntos formam a dupla batizada com seus nomes, viajam o país com seus shows e têm canções entre as mais pedidas das rádios. Com o marido na mesma profissão, ela teve certeza de que trocar parte da noite pelo dia era o caminho a seguir.

É claro que os dois não conseguem abster-se das atividades diurnas que envolvem a carreira e também a vida pessoal. Mas, com marido e mulher na mesma profissão, fica mais fácil harmonizar horários, compromissos, tarefas.

Antes das primeiras músicas autorais da dupla estourarem, eles eram figuras fáceis nos bares e casas noturnas de Porto Alegre e da região metropolitana. No final de 2006, com o lançamento do primeiro disco, a agenda foi ficando cada vez mais apertada. Até que eles decidiram dar um tempo na noite para dedicarem-se exclusivamente à divulgação das músicas próprias e aos shows.

? Fomos menos felizes naqueles três anos em que ficamos longe da noite – conta Vanessa.

Há cerca de um ano, voltaram a se apresentar com regularidade, dessa vez no 72 New York, onde podem ser vistos toda quarta-feira.

? A noite é a melhor escola de palco, de música e de interação com o público. Sou viciada na noite, não vivo sem isso. Sem contar que as mulheres têm um encanto especial no palco, causam um fascínio diferente na plateia. É uma sensualidade feminina, coisa de mulher.

Até o final deste ano, o casal promete novidades. Vanessa, que tem 33 anos, quer ficar grávida ainda em 2013. Sempre teve o sonho de ser mãe, mas a carreira esteve, até agora, em primeiro lugar. Como será conciliar a maternidade com a vida de cantora? Ela não se preocupa.

? Meu filho vai ter que entrar na dança, vai se acostumar com a vida dos pais.

Andréa Cavalheiro: Empresária, artista, mulher

 

Andréa Cavalheiro, 38 anos, descobriu o vozeirão cantando em coral. Mas foi na noite que se descobriu como cantora, como artista. Primeiro, como uma das vocalistas da Hard Working Band, e depois na carreira solo, Andréa foi contaminada pela paixonite noturna:

? Gostaria de viver de noite, sabe? Não apenas cantar, mas viver mesmo.

Reconhece, no entanto, que é difícil para um artista da noite, como ela, viver somente sob a luz da lua. No gerenciamento da própria carreira, ela faz reuniões com contratantes, discute questões técnicas, trabalha com orçamentos, arregimenta músicos para os shows e resolve toda sorte de arranjos burocráticos durante o dia para que possa, com o cair do sol, brilhar no palco e realizar aquilo que mais ama. Atualmente, também trabalha para divulgar o financiamento coletivo para seu próximo CD, que pretende lançar em 2014.

Ser mulher neste ambiente? Normal. Tranquilo até, garante Andrea. O antigo preconceito com as mulheres artistas, que viviam da noite, está hoje completamente superado.

? As mulheres são tratadas simplesmente como mais um músico, mais um profissional.

Apesar da paixão pela vida que escolheu, a cantora admite que, em algumas situações, as mulheres do palco ficam em desvantagem. A insônia permanente, por exemplo, é um dos contras da profissão que Andréa sente na pele. Não consegue dormir antes das 4h, mesmo que tenha compromisso na manhã seguinte. A convivência familiar também perde. Nos churrascos de família, que começam ao meio-dia, lá está Andréa chegando atrasada e, pior, sem fome, pois fez uma refeição às 7h, quando encerrou o trabalho, e está sonolenta. Conhecer pessoas novas e namorar também pode ser um desafio.

? Alguns homens têm medo de chegar na cantora, sentem-se intimidados. E também não esperam ela descer do palco para começar uma conversa.

Uma espécie rara

As cantoras noturnas foram ícone que representa gerações passadas. Nos anos 1950 e 1960, cantavam nos palcos dos bares Brasil afora o samba canção, a bossa nova, as músicas românticas e os sentimentos nostálgicos que caracterizavam a arte dessas mulheres.

Em Porto Alegre, as vozes femininas entoaram os lamentos das canções de artistas locais como Lupicínio Rodrigues. Esse perfil de cantora, no entanto, é uma espécie em extinção não somente na noite da Capital, mas nas casas noturnas do resto do país.

Segundo o jornalista e crítico musical Juarez Fonseca, o perfil das cantoras da noite, atualmente, está mais ligado ao estilo musical dos bares e das bandas nas quais elas cantam. Outra característica apontada por Fonseca é a mescla da atividade na noite com uma carreira paralela, mais autoral, fórmula na qual a maioria das cantoras aposta. Para ele, apesar de ter gerado grandes nomes da música brasileira, o Rio Grande do Sul ainda é, em certa medida, ingrato com suas cantoras.

?Temos relativamente poucas mulheres nos palcos. E temos grandes intérpretes fora de atividade – salienta.

Nina Moreno: A paixão que arrebata a noite

 

O ventinho frio que sopra na Cidade Baixa traz para dentro do bar uma figura de tamanho diminuto, passos pequenos e gestos discretos. Cabelos muito negros e olhos delineados por lápis, ela está à vontade em meio à fumaça do ambiente e às vozes alegres que se mesclam ao tilintar dos copos. Nina Moreno está em seu habitat natural. E é nele que a maior cantora de tango de Porto Alegre recebe a reportagem de Donna para uma conversa.

Criatura da noite, Nina já virou uma espécie de lenda, de entidade que ronda os ambientes noturnos do bairro que sempre amou. Aos 84 anos – idade que a repórter indelicadamente revela, apesar dos pedidos contrários de Nina – a cantora está em plena forma. Canta sem microfone, acompanhada, normalmente, por bandoneon e violão, e faz questão de comparecer pontualmente sempre que lhe contratam. Atualmente, pode ser vista, com regularidade, às quintas-feiras no Parangolé.

Da história da vida, Nina não faz questão de falar.

? No, querida. No me vás a preguntar sobre mi vida. Isso as outras reportagens já disseram – dispara ela com o sotaque que nunca perdeu, agarrando na mão da repórter, afastando caneta e bloco, para que nada seja escrito. – A música e a noite são a minha vida.

Do nascimento e da infância no Uruguai, passando pela desilusão amorosa que a fez deixar a terra natal, até chegar à música, que a levou para a Argentina e depois a trouxe para Porto Alegre, Nina não faz questão de falar. Quer mesmo é explicar o significado de cantar na sua vida.

? Se não canto, estoy muerta. E canto com sentimento, com paixão. Só assim posso viver.

Os dois filhos, que não vivem em Porto Alegre, bem que tentaram tirar a mãe da boemia da cidade. Vivendo sozinha em um apartamento não muito longe dos bares onde canta, Nina é motivo de preocupação. Mas as lamentações dos rebentos de nada adiantaram. Não foram capazes de transformar a pequena senhora em um ser do dia.

Nina é da noite. E é livre. Para ela, é fundamental ser autêntica. E toda a sua autenticidade está expressa nos tangos, boleros e outras canções do folclore latino que tanto gosta de entoar.

Além de encontrar os velhos amigos, que a prestigiam com frequência, a cantora tem outra alegria nas noites: a emoção que derrama da plateia em forma de gritos, aplausos e até lágrimas a alimenta. Por isso executa pacientemente os pedidos que se repetem todas as noites:

? Por una Cabeza, Nina!

? Agora La Barca, por favor!

Bem que gostaria de cantar mais as canções menos conhecidas, dos compositores que mais admira, como os argentinos Horácio Guarany e Ramona Galarza. Mas se o público quer os clássicos, ela lhes dá.

? Afinal, eles me dão tudo! Como posso negar?

A conversa avança pelo frio da noite, na mesa do bar. Com as mãos da repórter nas suas, Nina dispara uma impressão que teve desde o início do papo.

? Tu, querida, tu cantas, não?

A cigana cantora de pai andaluz viu, sabe-se lá de que forma, o passado escondido no coração da repórter que um dia sonhou cantar.

? Sim, dona Nina, canto sim. Nunca profissionalmente, mas amo cantar.

? E por que não cantas?

? Por que também sonhei ser jornalista.

? Então voltes a cantar, querida. Não serás feliz se não cantares!

Com abraços, termina a entrevista e a pequena mulher desaparece em meio às mesas e vozes dos amigos. A repórter compreende, com o arrebatamento de um tango, o sentimento de ser uma cantora da noite.

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