Como conversar sobre a morte com as crianças

Dinho Ouro Preto ficará em observação pelo menos nas próximas 24 horas
Dinho Ouro Preto ficará em observação pelo menos nas próximas 24 horas Foto: Ricardo Duarte

Quando a morte bate à porta de uma casa com crianças, a dor da perda se mistura à dúvida de como tratar o tema com os pequenos. Muitas vezes, quem se foi é transformado em estrelinha, anjo ou amigo do papai do céu. Mas é preciso ir além de uma explicação lúdica: contar a verdade com clareza é sempre a melhor solução para elaborar a perda.

Foi com uma perda e muita conversa que Isabella Kunzler Dantas, oito anos, aprendeu sobre a morte. Hoje, aos poucos, os planos de ser dona de um outro bicho de estimação começaram a amadurecer. Ela deseja um cachorro e lhe promete cuidados de sobra para zelar pela saúde e o bem-estar do mascote que ainda não chegou.

– Ele ganhará bastante comida para ficar forte e água. O pote nunca ficará vazio – diz a menina.

O cuidado tem explicação no passado. Há pouco tempo, Isabella perdeu Lili, uma tartaruga considerada sua grande amiga.

Lili era companheira de Flecha (um macho), e os dois viviam em um aquaterrário instalado no banheiro da casa. Todos os dias, a menina alimentava-os e os colocava para tomar sol, com água, para se refrescarem. Só que, uma vez, a dona das tartarugas as esqueceu, e a água destinada à dupla secou. Lili não resistiu à desidratação, e Isabella entrou em pânico.

– Recebi um telefona dela aos prantos, assustada e sem saber o que fazer. Estava apavorada por ver a tartaruga morta – lembra a mãe.

– Cheguei na escola chorando, e meus amigos disseram que isso faz parte. Aprendi que os bichinhos morrem assim como os adultos. A gente tem de cuidar deles – desabafa a pequena.

Para encarar o luto, a mãe conversou com a filha e negociou o enterro do animal no pátio da casa. A duas a colocaram em uma caixa, fizeram uma oração e um buraco na terra. O ritual foi uma maneira de se despedir de Lili e viver um pouco do luto.

Sentindo-se culpada pelo acidente, Isabella não deu mais atenção a Flecha, que teve de ser doado a uma tia da menina. Tempo depois, foi a vez da hamster Dorica partir. Mas Isabella se recusou a participar do enterro no quintal.

Entender a vida e a morte é um processo importante e essencial na vida da criança, afirma a psicóloga Adriana Binotto, especialistas em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto. O convite ao ritual de adeus e a explicação sobre o porquê da morte devem ser pensados e avaliados pelos pais.

– Experiências como a perda de um animal de estimação são importantes ensaios para perdas futuras e inevitáveis. São formas de a criança entrar em contato com a finitude do outro e de si mesma – explica Adriana.

Tratar do tema com clareza, de forma direta, tentando mostrar que é irreversível e dando liberdade à criança para chorar, também faz parte do processo de superação da dor, diz Nadine Cabral, psicóloga e orientadora educacional. Lidar com a morte pode ser uma experiência ruim quando a família fantasia em vez de explicar. Então, mesmo que quem se foi se transforme em anjo ou estrela, é preciso explicar às crianças por que tudo tem um fim.

Aceitar perdas é crescer

Luto é a decorrência natural de uma perda. É um processo pelo qual a pessoa restabelece suas relações com o mundo, que agora, é um lugar diferente. Como os adultos, a criança precisa enlutar-se para aceitar a perda e continuar com seus planos e sonhos. Vivenciá-la completamente não é uma opção e, sim, um pré-requisito para que se restabeleça uma vida saudável.

Quando o luto é vivido de forma saudável e natural, é esperado que se torne parte da história da criança. Alguns fatores, entretanto, como a idade da criança, o tipo de morte e a falta de uma rede de apoio podem dificultar a aceitação.

Expresse sentimentos

É importante que a criança possa se sentir triste e expresse os próprios sentimentos, seja chorando, falando, desenhando, escrevendo ou brincando. A expressão adequada do sofrimento auxilia o processo de luto, que é um período de crise necessário. Reações como a desorganização, infantilidade, agressividade, medo, isolamento e perda de sono e apetite podem ser comuns.

Tenha coragem para explicar

Quando se fala em viver um luto, não existe uma regra que se aplique a todas as pessoas. Cada situação deve ser avaliada, mas, de forma geral, quando o adulto expressa e compartilha sua dor com a criança, facilita para que ela também o faça.

Então, não se preocupe em chorar ao dar a notícia da morte. É importante que a criança saiba que o adulto em quem confia está triste, o que lhe autoriza a se entristecer também e a expressar sentimentos. Muitas vezes a dificuldade do próprio adulto em lidar com a sua dor em relação à morte influencia na maneira como a criança o fará também.

Na hora de explicar uma morte para a criança, seja claro e objetivo, dizendo o que realmente aconteceu em uma linguagem que ela possa entender. É importante que o portador da a notícia seja alguém próximo à criança, em quem ela confia, buscando passar a ideia de que, quando alguém morre, não volta mais.

Se for utilizar a fantasia de que a pessoa ou o bicho de estimação “foi para o céu” ou “virou estrelinha”, não deixe de explicar a razão disso e que a morte é irreversível.

Fontes: Nadine Cabral, psicóloga e orientadora educacional, e Adriana Binotto e Karina Polido, especialistas em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto

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