Como lidar com a própria maldade

Restaurante D.O.M., do chef Alex Atala, foi apontado como o 24º melhor do mundo
Restaurante D.O.M., do chef Alex Atala, foi apontado como o 24º melhor do mundo Foto: Divulgação

No século IV, Santo Agostinho pregava: todo o homem nasce mau, viciado pelo pecado original. Centenas de anos depois, Jean-Jacques Rosseau discordou do cristão e reorganizou as palavras. Para ele, “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”. Afinal, qual dos dois estava certo? Para estudiosos modernos, nenhum dos dois ou, então, os dois. Com os avanços das pesquisas científicas sobre as origens da maldade humana, especialistas chegaram a um consenso. Todo o ser humano tem dentro de si espaço para bondade e para maldade, que vivem em conflito constante.

Agora, a atenção dos médicos está concentrada em como um paciente pode lidar com sua própria maldade, ou seja, como alguém pode deixar de ser o vilão para ingressar no time dos mocinhos. O tema fará parte da IX Jornada Gaúcha de Psiquiatra,  que começou na quarta e se encerra hoje, em Porto Alegre, promovida pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

– O primeiro passo, e o mais importante, é perceber essa situação. Mesmo que o paciente esteja sempre praticando o mal, em algum momento, ele vai saber que aquilo é errado e, se quiser, poderá buscar ajuda – enfatiza o psiquiatra Carlos Augusto Ferrari Filho.

Uma das frentes para reduzir a maldade que habita em nós é tratar o narcisismo. Pessoas autocentradas e egoístas costumam ter menos consciência do outro e podem ferir o sentimento de pessoas próximas sem se dar conta. As experiências de vida também contribuem para a formação de uma personalidade maldosa. Crianças que foram agredidas pelos pais e viveram em ambientes com pouco afeto  tendem a se tornar adultos com desvio de conduta.

– A personalidade se forma nos primeiros anos de vida. Quando adulto, a personalidade está bem definida e fica muito difícil de ser modificada – afirma Paulo Oscar Teitelbaum, coordenador de Psiquiatria Forense da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

Teitelbaum afirma que a psicanálise pode se tornar uma aliada para descobrir situações vividas no passado que ainda se refletem no dia a dia do paciente, mesmo que ele não perceba. Ao identificar os traumas, o analista pode ajudar a superá-lo, amenizando assim as consequências que ele provoca na vida do paciente.

Por que alguém se torna uma má pessoa?

:: Todos nascem com potencial para ser bom ou ser mau. O lado que prevalecerá é moldado a partir das experiências de vida

:: Pessoas que são muito perseguidas, maltratadas e agredidas na infância têm  grandes chances de reproduzirem a violência que viveram quando adultas.

:: Quem é maltratado na infância e se torna um adulto violento está reagindo às agressões do passado. O processo se inicia como uma autodefesa, mas ao longo dos anos se torna permanente.

:: Há casos de pessoas violentas que têm um distúrbio psiquiátrico grave, a psicopatia. Os psicopatas sentem prazer no sofrimento dos outros, condição que torna difícil o tratamento.

:: Para quem pratica a maldade, mas não é doente, pode buscar ajuda em psicoterapias, que incluem acompanhamento psicológico, psicanalítico e com medicamentos, em alguns casos

Agressividade versus maldade

Nem sempre a agressividade tem uma relação direta com a maldade. Pelo contrário. Especialistas acreditam que a agressividade é uma reação, que embora seja violenta pode ter como objetivo algo bom, como se defender de uma ameaça. Já a maldade é um estado mais permanente. São ações sistemáticas desnecessárias, feitas com o objetivo simples de prejudicar outras pessoas, inclusive aquelas que não são ameaçadoras, até mesmo da mesma família ou do círculo de amigos.

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