Companheiros de vida e de trabalho do cantor Roberto Carlos desmitificam o Rei

Cantor fará cinco shows em Porto Alegre

Roberto Carlos é o único artista latino a vencer a barreira dos 100 milhões de discos vendidos
Roberto Carlos é o único artista latino a vencer a barreira dos 100 milhões de discos vendidos Foto: Rafael França, TV Globo

Rei que é rei se mede em números. Roberto Carlos é o único artista latino a vencer a barreira dos 100 milhões de discos vendidos. No início do mês, lotou o Maracanã com mais de 60 mil pessoas que, mesmo debaixo de chuva forte, comemoraram com ele o cinquentenário de carreira. A friorenta Porto Alegre também serve de termômetro: a temporada de dois shows que Roberto fará no Gigantinho, em agosto, teve de receber o reforço de mais três sessões extras. No total, RC receberá ao vivo o calor de mais de 55 mil gaúchos.

Quem já assistiu pela TV ou da platéia a um show de Roberto Carlos, experimenta várias emoções: fica tocado pela participação da plateia, fica impressionado pelo profissionalismo da apresentação, e fica se perguntando que diabos (ooops, que o Rei não nos ouça) Roberto Carlos sussurra baixinho quando termina de cantar uma canção. Por trás disso, há um enigma ainda maior: como o capixaba consegue estender seu reinado por 50 anos, sobrevivendo a sucessivas jovens guardas e a amantes de modas antigas ou modernas?

O Donna buscou a resposta junto a pessoas mais próximas de Roberto Carlos, gente que não o chama de Rei. Uma testemunha privilegiada do tempo que Roberto já era uma brasa, mora, mas ainda não tinha um milhão de amigos é Jerry Adriani. Integrante da tropa do iê-iê-iê, Jerry lembra que, já em meados dos anos 1960, Roberto já mostrava sua majestade – ou, ao menos, tino comercial:

– Enquanto nós não tínhamos tanto cuidado com os músicos que nos acompanhavam, ele tinha. O resto da jovem guarda não era organizado, mas o Roberto já tinha um escritório para cuidar de seus negócios.

Jerry destaca principalmente o fato de Roberto e Erasmo formarem uma dupla dos sonhos na composição:

– Roberto amadureceu, e como ele compõe, seu repertório amadureceu com ele. E ainda propôs algumas pequenas transgressões. Detalhes, por exemplo, é uma canção em que a letra é maior que a melodia, quase um rap. O Raul Seixas se inspirou nela para compor Ouro de Tolo.

O maestro Eduardo Lages, que faz direção musical e regência dos shows de RC desde 1978, identifica a verdadeira riqueza do Rei se divide em vários tesouros: o casamento ideal entre Roberto e Erasmo, o equilíbrio entre romantismo e uma pitada de transgressão, o perfeccionismo. Lages, que está preparando o show RC Rock Symphony, em que bandas de rock, pop, reggae e rap vão homenagear Roberto, diz que é difícil explicar o inexplicável:

– Grupos com O Rappa, NX Zero e Titãs são apaixonados por Roberto, e não por uma fase apenas. Por todas as fases, por todos os Robertos.

Lages lembra que, há uns 20 anos, estava ao lado de Roberto Carlos em um show no Madison Square Garden, em Nova York. O público – 70% de brasileiros e o resto de latinos – estava aos pés do Rei. mas a reação dos experientes músicos americanos contratados para o show, que um mês antes tinham acompanhado Frank Sinatra, era de espanto com a afinação perfeita que o brasileiro tinha mostrado ao cantar.

Genivaldo Barros, 69 anos, começou como operador de som nos shows da jovem guarda e, desde 1996, é gerente de produção dos espetáculos de Roberto. E conta que a primeira impressão ficou:

– Conheci Roberto em agosto de 1965, e percebi que ele já sabia o que queria, enxergava além da gritaria das fãs. No início dos anos 1970, soube mudar de estilo, se preocupando mais com o prestígio, com a qualidade da música, do que com o sucesso.

Cicão Chies, 49 anos, é sócio de Dody Sirena na DC Set, empresa que produz as turnês de Roberto. Os dois gaúchos começaram a trabalhar com o Rei em 1992, e a convivência com o artista já rendeu a Cicão algumas convicções:

– O diferencial é que Roberto pode estar cantando a mesma música pela milésima vez, mas, naquele momento, é absolutamente verdadeiro, como se interpretasse a canção pela primeira vez.

Em entrevista a Estilo Próprio, do Donna, Dody lembrou um episódio bem representativo. Segundo o empresário, “uma simples mensagem de Natal para uma rádio ele se nega a gravar com antecedência fingindo que é o fim do ano”. Jerry também recordou um incidente que revela uma faceta desconhecida do Rei. Meados dos anos 1960, e Roberto voltava de São Paulo pela Via Dutra dirigindo seu Volkswagen, tendo Jerry na carona. No meio do caminho, um caminhão de boias-frias começou a implicar, provocando a dupla aos gritos de cabeludos e de homossexuais. Chegaram a dar um encontrão no Fusca e amassar o carro de Roberto.

– Ele ficou fulo. “Vou quebrar a cara daqueles camaradas” (diz Jerry imitando o jeito de Roberto falar). Tive de fazer força para conter ele.

A pista mais importante para compreender o mito Roberto Carlos, no entanto, é dada pelo próprio cantor com os versos “Detalhes de uma vida / Histórias que eu contei aqui…” . As canções de Roberto, não importa se o tema seja o amigo, a mãe, o amante, o cachorro sorridente, a gordinha ou Jesus Cristo, todas são cantadas com absoluta convicção, dando grandeza às pequenas coisas que qualquer um de nós também experimenta. Ou seja, o Rei é rei porque ele é igual a cada um de nós.

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