Confira um bate-papo sobre carreira e vida pessoal com a cantora Marina Lima

Artista se apresenta em Porto Alegre em setembro

Foto: Divulgação

É uma tarde cinza em São Paulo quando encontro com Marina Lima. Estamos os dois na casa do cineasta Esmir Filho, e é lá, sentada sobre o tapete de pele com uma xícara de chá branco entre as mãos, que Marina dispara: 

?  Ismael, quero que você me entreviste para esse show em Porto Alegre!

Conheço Marina desde quando, ainda adolescente, encontrava em suas músicas possíveis traduções para certos estados de espírito que eu, pela primeira vez, experimentava. Suas canções, seu timbre, seu estilo, me traduziam.

Ainda traduzem. Nessa conversa entre amigos, Marina fala sobre a “perda” da voz, a os cabelos grisalhos, a relação com os animais, sexo, idade, o novo livro “Maneira de Ser” e também sobre a quebra de um jejum de seis anos sem tocar na capital gaúcha. Seu show está marcado para 5 de setembro, no Bar Opinião.

Donna – Você é uma cantora que, em determinado momento da carreira, “perdeu” a voz. Ganhar é também perder? O nosso tempo sabe lidar com a perda?

Marina Lima – Eu acho que perder é perder. Agora, logo adiante, não sei a que distância, às vezes quase na mesma hora, você ganha imediatamente alguma coisa. Se a pessoa quizer fazer valer a sua existência, ela saberá potencializar essa perda em vida. Sobre o nosso tempo, acho que essas manifestações todas que estamos vendo representam uma impaciência com o que vem acontecendo. Essa juventude que está aí não quer mais perder nada. Eles querem um mundo à altura dos jovens. Se as pessoas mais velhas deixaram passar impunidade, ou isso ou aquilo, esses jovens estão gritando para que não se deixe passar mais. Eu acho que está se buscando reencontrar alguns valores que são primordiais para uma existência digna.

Donna – Recentemente você descobriu que as suas cordas vocais foram vítimas de um erro médico. Durante anos você falou sobre a perda da voz, buscando uma responsabilidade para isso. Como você está agora que descobriu que o seu corpo não foi o culpado pelo trauma que causou o problema vocal?

Marina – Foi um alívio! Primeiro, porque é enlouquecedor ficar procurando fantasmas que não existem. Mas me vi obrigada a lidar com uma limitação. Teve uma época na minha carreira em que eu era uma cantora mesmo. Eu me sentia cantora, cantava bem, fazia aula, cantava o dia todo. Eu acordava cantando, adorava cantar. A minha voz me fazia companhia. A relação com a minha voz mudou completamente depois disso. Hoje eu tenho mais cerimônia com a minha voz. Não tenho cerimônia com a palavra, nem com a escrita, nem para compor. Mas para cantar eu tenho uma certa cerimônia. Comecei a mergulhar, de novo, no meu lado compositora, arranjadora e instrumentista. A criar coisas para eu cantar por cima. Voz é uma coisa que sobressai, é uma coisa que hipnotiza. O cantor pode estar cantando a maior besteira, o arranjo pode ser uma droga, a música sem a menor consistência, mas se o cantor tiver uma voz realmente bonita e passar para quem está ouvindo que ele acredita naquilo, todo mundo passa a ouvir. É uma coisa que ninguém resiste. Voz é irresistível.

Donna – Você sempre foi um símbolo do Rio de Janeiro. No entanto, você se mudou para São Paulo. De alguma forma você perdeu o Rio?

Marina – Quando fui embora para São Paulo, eu achei que tivesse perdido o Rio. Eu não poderia dizer isso naquela época, mas, para mim, eu havia perdido o Rio. Ou o Rio havia me perdido. Havíamos perdido um ao outro. Eu não me via mais no Rio. E São Paulo parecia, e parece, a cidade mais atraente que eu tinha à mão. É uma cidade muito grande, onde eu podia me “perder”, onde eu podia viajar, eu podia ser uma estrangeira. Ao mesmo tempo eu podia voltar para o centro. São Paulo é tecnológica, mistura raças, cores, personalidades, muitas coisas existem aqui, muito mais do que no Rio. Eu não sei se eu ganhei São Paulo. Eu acho que eu não dou conta de São Paulo ainda, mas eu sinto que ganhei uma aliada. A cidade gosta de mim, e eu gosto da cidade. Eu reclamo da poluição, de uma série de coisas, mas a cidade me tratou muito bem. Ela me acolheu muito bem, me respeita e se interessa por mim. E eu por ela. Mas numa medida muito cerimoniosa. Eu saio muito pouco. Fiquei muito tempo sem sequer ir ao Rio. Quando ia, era horrível. Havia uma sensação de que eu não tinha mais nada a ver com aquilo. Que aquilo fazia parte de um passado enterrado. Era muito ruim constatar isso. Ficava triste, agoniada. De uns tempos para cá, tenho conseguido ir ao Rio e entender que sou carioca. Consigo ficar dois ou três dias no Rio sem sofrer.

Donna – Você começou a sua carreira com cabelo crespo. Você era uma espécie de “porta-voz das crespas”. Quando decidiu alisar os fios? A crespas perderam essa porta voz?

Marina – (Gargalhadas) Hoje em dia, eu acho que as crespas têm que ficar muito calmas, muito tranqüilas. Porque a quantidade de produto que existe… Não é nem para alisar, é para o cabelo crespo ficar mais sedoso. Deixa eu te contar um negócio: uma cabelereira americana me disse: “Olha, a questão do cabelo não é ser crespo ou ser liso, a questão é ele não parecer seco, ele tem que parecer sempre sedoso”. Quando ela me disse isso foi como se uma luz se acendesse, ela me explicou a existência! Essa é a questão, entendeu? Parecer sedoso!

Donna – No livro Maneira de Ser, você fala sobre a importância do cabelo. Você começou crespa, depois ficou lisa, depois teve a história de raspar o cabelo nos momentos de mudança. Agora você vem namorando a ideia de manter os cabelos grisalhos.

Marina – Estou adorando essa perspectiva! Porque eu, na realidade, sempre quis ser mais velha. Desde criança eu queria ter 30 anos. Por uma inteligência corporal, sempre fiz muita ginástica, sempre cuidei muito do meu corpo. Estou com cinqüenta e poucos anos com muita saúde, com flexibilidade, me sentindo bem. E essa coisa do cabelo branco torna a minha assinatura mais a minha cara.Claro que eu poderia pintar o cabelo, e ficar parecida como era quando tinha 30 ou 40 anos, mas eu não estou querendo isso, estou gostando de ser as minhas mudanças, sabe? Estou me sentindo interessante e gostando de me apresentar ao mundo assim. Essa sou eu mesmo. Estou gostando e achando atraente. Não tenho esse culto à juventude, tenho culto à saúde e ao bem-estar. É você tentar se tornar bonita para o mundo. Eu acho a Fernanda Montenegro uma mulher belíssima. A Costanza Pascolato é uma mulher belíssima. Tem mulheres que são belíssimas com 80 anos. Minha mãe era uma mulher linda. Então a questão não é a idade, é o cuidado, entendeu? É você se tornar uma pessoa interessante, atraente, com a sua idade. E, sobretudo, não ficar com uma atitude de soberba em relação à vida. Porque, se você tem 60 anos, e eu vou fazer 60 daqui a pouco (ela completa 58 em 17 de setembro), cabelos grisalhos e age com soberba, ou com uma pretensa superioridade, aí acabou. Aí você já morreu e esqueceu de deitar. A questão é se tornar interessante e ser interessado na vida. É por aí. Esse é o meu interesse.

Donna – Em uma de suas músicas você pergunta “por que as mulheres também não podem ter a sua sauna gay?”. Como você encara a sexualidade feminina?

Marina – Eu acho que as mulheres podiam ter uma sauna gay, sim. Até para aprenderem a serem menos infantis. Geralmente, as mulheres gostam de sexo, mas têm pudores. Então a sauna gay seria um bom lugar para resolver logo isso. Talvez as mulheres chegassem nas relações com menos expectativas, sabe? E eu digo isso para mim também. Volta e meia, me vejo ainda com algumas fantasias de que virá alguém para me salvar. É uma luta contra essa sensação, ou esse sonho, essa utopia. É muito ruim, porque as mulheres chegam com uma expectativa nas relações de que alguém vai salvá-las, quando, na realidade, esse alguém vai transar com elas, desenvolver uma afinidade, ou outra coisa. As mulheres são muito infantis. Elas querem o tempo inteiro, que todo mundo as entenda.

Donna – Como você está vendo o sexo na política hoje? Marcos Feliciano, cura gay…

Marina – É uma loucura, parece caótico até. A sexualidade é realmente uma coisa importantíssima para a vida. Então, começa a vir tudo que é loucura de tudo quanto é lugar. As pessoas mais diferentes, as correntes mais diferentes, as crenças mais diferentes, as regras mais diferentes, os papas mais diferentes… São muitos estímulos! Eu acho que o que o ser humano deve fazer, sem sentido de religiosidade, mas no sentido de espiritualidade, é procurar o bem dentro de si. Procurar o que é o bem para si. Se neste bem está incluído transar com alguém do mesmo sexo, compartilhar as coisas, é ele que vai saber. Ele vai descobrir o que é o bem para si, vai descobrir qual é o seu lado mais sinceramente ligado ao bem. E a partir daí a gente vai criando uma ética, entendeu? Não uma ética baseada em regras. As pessoas atropelam a liberdade do outro. A sexualidade é muito vital para ser reprimida. Se não acontecer uma catástrofe como foi a Aids, em que morreram milhares de pessoas, se não aparecer outra epidemia como essa, virão outros pensamentos. Eu conheço muita gente jovem, me relaciono, tenho amigos, volta e meia eu namoro alguém mais jovem, e me apaixono por pessoas incríveis mais jovens. Eu sinto todas elas muito mais abertas do que eu. Parece que elas já partiram de um ponto mais adiante. Já já estão mais desencanadas, em um lugar bem mais leve.

Donna – A maternidade foi uma questão para você? Você se arrepende por não ter tido filhos?

Marina – Foi uma questão quando eu tive 40 anos e não me arrependo de jeito nenhum! Eu, na realidade, substituí criança por animais. Algumas mulheres vão ficar horrorizadas, e outras vão rir muito, porque, como eu, tem um monte de gente que faz isso. Eu acabei não tendo filhos mas eu tenho vários animais que vivem comigo há muitos anos. Eu direcionei esse instinto maternal para os bichos e também para as pessoas com quem eu me relaciono, meus amigos. Eu tento proteger e passar adiante as coisas que sei para todo mundo que quero bem, que eu gosto e simpatizo. Na época em que quis ter filho, não senti que era capaz de ter uma infraestrutura para isso. Comecei a ficar insegura de colocar outra pessoa nessa vida que escolhi para mim. Daí acabei não tendo. O que não invalida que eu possa adotar algum dia, ou mesmo casar com alguém que queira ter filhos.

Donna – Você é uma artista que transborda. Seu livro Maneira de Ser, que terá lançamento na Palavraria, em Porto Alegre, no dia 4 de setembro, é um transbordamento?

Marina – Você tocou num ponto chave. Essa palavra é muito boa. O Maneira de Ser é um desejo meu de falar para as pessoas, de chegar perto delas, com assuntos muito importantes para mim. Falar sobre a minha vivência até aqui, até este momento. São coisas que me tornaram que eu sou na vida e na música, na maneira de olhar o mundo. Não é uma biografia. Não dá para explicar o que é esse livro. São encontros, pensamentos, coisas antigas, fotos… Eu queria me apresentar às pessoas sem ser através da música. Uma maneira de ser, fora estar no palco cantando. É uma vontade de deixar o meu desenho, de ir deixando pistas do que eu sou. Volta e meia alguém vai encontrar esse livro e vai entender melhor quem eu sou, o que me atrai, o que eu lamento.

Donna – No seu último show, Maneira de Ser, que assisti em São Paulo, você comentou sobre a relação entre Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro nos seus afetos. Você poderia falar mais sobre isso?

Marina – Claro! Eu já falava isso na época do disco Clímax. Porque no Clímax, o Edu Martins, que está comigo há alguns anos e que é meu produtor, se mudou de São Paulo para Porto Alegre justamente quando eu havia me mudado para São Paulo. Fora o Edu, tem o Alex Fonseca, que é o meu outro produtor e é de Porto Alegre, mas foi morar no Rio. Então, olha só: eu sou do Rio e vim morar em São Paulo, o Edu é de São Paulo e foi morar em Porto Alegre, e o Alex é de Porto Alegre e foi morar no Rio. Tem um trio aí que habita a minha vida.

Donna – O que as pessoas podem esperar desse show que você vai apresentar no dia 5 de setembro no Opinião?

Marina – Eu quero tocar umas três músicas do Clímax. Não me Venha Mais com Amor (parceria com Adriana Calcanhoto), A Parte que me Cabe e ainda vou pensar na terceira. Quero tocar algumas músicas que estão revisitadas e que comecei a recriar os arranjos em Porto Alegre, que é Fullgas, À Francesa e Virgem. Talvez algumas canções do Maneira de Ser, não sei ainda. No Opinião, o público fica em pé. Então, preciso pensar em um show com esse tipo de energia. Não pode ser um show para um público sentado, pedindo bebida, sabe? Quero fazer um show que tenha uma conotação para mim e para quem for de reencontro meu com os gaúchos, sabe? Tem anos que não vou aí. Anos. Tenho uma ligação muito forte com Porto Alegre.

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