Conheça a primeira mulher a ocupar o cargo de juíza no país

Thereza Tang, 86 anos, marcou para sempre o Poder Judiciário

Aos 86 anos, Thereza mantém o hábito da leitura e deseja agora comprar um notebook para não ficar "offside"
Aos 86 anos, Thereza mantém o hábito da leitura e deseja agora comprar um notebook para não ficar "offside" Foto: Arquivo Pessoal

Problemas trazidos pelos anos alteraram a voz firme de desembargadora, a agilidade de juíza que fazia questão de inspecionar prisões pelo Estado afora e a memória que guardou tantas leis, processos e jurisprudências. Apesar da “inexorabilidade do tempo”, como definiu no discurso que antecedeu sua aposentadoria no Tribunal de Justiça (TJ) de Santa Catarina, a gaúcha Thereza Grisólia Tang, 86 anos, marcará para sempre o poder judiciário do país: ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo de juíza no Brasil.

A posição vanguardista catarinense em uma época em que mulheres não eram bem-vindas nos tribunais não foi conseqüência da benevolência de juristas examinadores, mas da aptidão que a concorrente a uma vaga no TJ de Santa Catarina demonstrou na entrevista, uma das etapas do concurso da magistratura. Na época, ano de 1954, mal assumiu o cargo e pôde sentir o quanto teria que trabalhar para provar a competência feminina e fazer jus à toga.

– O presidente da Casa me disse que eu seria um teste. Não me espantei porque sempre tive que lutar muito para realizar o que queria – lembra a desembargadora aposentada.

Hoje, contente pelas conquistas, mas sem esquecer de ressaltar com veemência que ainda há muito o que fazer para que homens e mulheres tenham, também na prática, direitos iguais, ela conta que o primeiro obstáculo que enfrentou em virtude do preconceito foi na universidade. Na Faculdade de Direito de Porto Alegre, só homens estudavam, até a jovem conquistar seu lugar – junto do marido Valter Tang, que era dentista e voltou aos bancos da graduação para acompanhar a esposa, ela concluiu o curso.

Se a trajetória daquela que carrega o título de primeira desembargadora catarinense renderia uma biografia das mais originais, a história da mulher nascida em São Luiz Gonzaga, em1922, não é menos atraente. A vida particular guarda uma história de amor de causar inveja aos mais românticos. Quando era adolescente, moradora da cidade gaúcha, passou em frente a uma delegacia, no período da II Guerra Mundial, e viu um tumulto. A causa do burburinho era um alemão que, sem saber o motivo, fora detido. A justificativa usada pela polícia era a de que ele era nazista.

Indignada com a situação, Thereza começou a questionar os policiais e a exigir que dessem ao homem o direito de se defender. Ali, o sentimento de justiça dava os primeiros sinais. Estudante das que guarda os boletins, todos com notas acima ou iguais a oito, não imaginava que quando concluísse os estudos teria um casamento a sua espera. O alemão do episódio da delegacia chamava-se Valter Tang e havia se apaixonado pela menina, 15 anos mais nova, que o ajudou a livrar-se da prisão.

Questionadora, Thereza disse que casaria, mas com a condição de poder fazer faculdade. Depois de assinar uma espécie de termo de compromisso exigido por ela, Valter pôde levá-la ao altar e, claro, à universidade. O sentimento que ela chama de juizocultura veio nessa fase, quando, já casada, freqüentava a faculdade e começou a vislumbrar a possibilidade de chegar à magistratura.

Vida íntima

Thereza é mãe, de uma filha; vó, de três netos, e bisavó, de seis. Desses, os três que moram no Brasil almoçam na casa da bisa todos os dias da semana. Para tê-los por perto, valeu a pena até abrir mão do gosto pela casa bem arrumada e deixar que uma bisneta instalasse uma mesa de pingue-pongue em uma das salas do apartamento que mora em Florianópolis.

Aposentada há 16 anos, não abandonou o hábito da leitura, seu passatempo predileto. Confessa que os livros relacionados à profissão tornaram-se raros em seu cotidiano. O título que lê atualmente é I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias.

– Ela disse que precisava comprar um notebook para não ficar “offside” – entrega Roger Tang, neto de Thereza.

Catálogos de jóias também merecem sua atenção. Broches, brincos, anéis. Os objetos sempre foram cobiçados por Thereza. Até em casa faz questão de usar ao menos uma peça.

Aliás, vaidade é uma característica que mantém intacta. Assim como nos tempos de Tribunal, ela faz questão de receber um cabeleireiro em casa para arrumá-la. Batom é item indispensável.

– Quando trabalhava, ia sempre de saia para lembrar os colegas que tinha uma mulher presente – conta, no ensejo do assunto vaidade.

Entre tantas passagens vividas para serem contadas, a resposta para a pergunta sobre qual seria sua melhor lembrança não demora a ser respondida:

– Essa pergunta é boa. Mas são muitas.

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