Conheça a rotina de quem tem muitos filhos

Saiba como funciona a vida de famílias que optaram por ter a casa cheia

Mariana Selistre e o marido Frederico Barbosa optaram pela família grande
Mariana Selistre e o marido Frederico Barbosa optaram pela família grande Foto: Tadeu Vilani

Antigamente, era comuns as famílias gigantes, com muitos filhos. Hoje, até um parece demais. Se em outros tempos vários rebentos eram sinônimo de casa cheia e um quadro que mais simbolizava alegria do que preocupação, agora, ter mais de dois filhos geralmente é visto como sinônimo de despesa e pouca qualidade de vida.
 
Ano a ano, a quantidade de filhos por mulher está diminuindo. A chamada taxa de fecundidade mensurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) despencou de 6,28, em 1960, para 2,38, em 2000, e, agora, está em menos de dois.
 
Na contramão da história, alguns casais ainda topam encarar por três vezes ou mais as alterações na rotina, as noites mal dormidas, os gastos com fraldas e as repetidas doses de mamadeira. Eles fazem parte de um grupo que, além de coragem, têm a crença de que formar uma família grande vale a pena.
 
É o caso de Mariana Selistre, 33 anos, que, ao lado do marido, Frederico Ribeiro Barbosa, 34 anos, já passou quatro vezes pelo ciclo gestacional e acaba de aumentar a família com a chegada da primeira filha mulher. Para ela, falar sobre o assunto é mostrar seu maior orgulho:
 
– A minha casa vive cheia de vida e alegria. Aqui não existe monotonia.
 
Mãe de Lucas, nove anos, Caynã, oito anos, João Pedro, três anos, e Manuela, três meses, ela largou a faculdade, abriu uma empresa com o marido e deixou para estudar e se divertir depois. Ela não abdicou da realização profissional: apenas seguiu outro rumo e optou pela profissão “mãe”, garante. Junto a isso, deu um jeito de tocar a vida adiante. O marido também parou os estudos.
 
Para dar conta da criação da tropa, o casal resolveu ir para o Interior. Em Santo Antônio da Patrulha, ficaram mais perto da família e mais longe dos altos preços da vida na Região Metropolitana, onde moravam:
 
– Levamos em conta que aqui há mais possibilidades de investir em uma boa casa, com pátio, em um bom colégio particular.
 
Como são donos do próprio negócio, fica mais fácil jogar com os horários. No almoço, procuram comer juntos, na correria.
 
A inspiração de Mariana veio de casa. Integrante de uma família grande, passou a infância rodeada de primos, tios e irmãos. O fato levou a jovem a querer repetir o modelo, o que é motivo de orgulho para o pai, o aposentado Mauro Batista Brito de Oliveira. Com os quatro netos, Oliveira gaba-se para os amigos que ainda esperam para ser avôs. Ciente de que a filha não seguiu o padrão dos jovens da sua época, ele compreende que a escolha foi bem pensada:
 
– Com o estilo de vida e a informação que se tem hoje, quem tem filho é porque quer.
 
Proveniente de uma geração em que a criação não exigia tantos cuidados “supérfluos” além de educação, saúde, moradia e alimentação, Oliveira diz que, embora os tempos sejam outros, ele deixou o exemplo de batalhar pelo que se quer conquistar. E essa é a regra básica que Mariana leva em conta para administrar seu familião.
 
Turma do barulho

Mais alegria ou causa de dificuldades financeiras? As consequências de formar uma família grande hoje em dia dividem opiniões entre os pais
 
Aos 29 anos, a gestora de mídias sociais Fernanda Herrera é mãe de três filhos e considera que ter uma família grande é uma tarefa recompensatória. No depoimento abaixo, saiba como ela concilia a rotina de mãe, mulher e profissional:
 
“Sempre quis ter filhos. E algo me dizia que seriam três. Só não sabia que seria tão cedo. Engravidei aos 17 anos. Meu primeiro filho nasceu quando eu tinha 18. Terminei o Ensino Médio grávida. Tenho as fotos da formatura em que eu estava de barrigão. O que me ajudou muito, e ajuda até hoje, é o apoio da minha família e dos pais dos meus filhos.
 
O Raiar, de 10 anos, é filho do meu primeiro namorado, o Luís. Ficamos juntos por quatro anos. Não deu certo. Depois eu conheci o Alex. Estamos juntos há quase nove anos. E temos o Zaion, de sete anos, e a Alice, de um ano e cinco meses. Nunca deixei de estudar e trabalhar por causa dos filhos ou da gravidez.
 
Fiz faculdade (tudo bem que demorei oito anos) e agora vou fazer pós-graduação. Trabalho com redes sociais, o que permite que eu trabalhe em casa e cuide das crianças.
 
Não sou de família grande. Sou filha única. Talvez o fato de ter sentido falta de irmãos tenha feito com que eu quisesse uma família grande. Não planejei nenhum dos meus bebês. Foram feitos com amor e deixamos eles virem. Destino ou acaso, hoje, tenho uma família linda que amo muito!
 
Acho que os maiores desafios de se ter filhos, sendo nova ou não, são o financeiro e o da educação. Ainda mais quando se tem três. Ter filho é caro! E demanda atenção, disposição e carinho para que eles cresçam boas pessoas, com caráter e discernimento de certo/errado, bem/mal.
 
Tenho em casa idades distintas – em cada, uma um desafio. O de 10 anos às vezes já quer ser adolescente, o de sete de vez em quando tem problemas com as regras, e a pequena de um está descobrindo o mundo por meio das experiências que proporcionamos a ela.
 
Acho que a melhor vantagem de uma família grande é ter sempre a casa cheia. Filhos, amigos dos filhos e todos juntos fazendo barulho. Quem tem irmão sempre tem com quem contar. Amigos são maravilhosos, mas não substituem pai, mãe e irmãos. E eu falo sempre para os meus pequenos que é muito bom e importante que eles sejam amigos, parceiros. Quem tem irmãos também aprende cedo a dividir, a se relacionar com os outros, o que facilita a convivência com as pessoas de fora da família”.
 
Três é demais

Mesmo apaixonado pela família e feliz com a recente notícia da chegada do segundo filho, o veterinário Pedro Luis Dreher Toniolo, 32 anos, é um pouco resistente quando o assunto é aumentar a prole:
 
– Eu acho que paro nesses dois. É muito trabalho e despesa.
 
Pai de Lucas, dois anos, e “grávido” de mais um bebê, ele é da opinião de que um é pouco, dois é bom e três é demais. Toniolo sente falta do tempo para investir no desenvolvimento profissional e na realização pessoal após a chegada do primeiro filho. Por isso, não se imagina com três.
 
Essa postura reflete o pensamento de muitos jovens desta geração. Isso representa o que demógrafos chamam de “transição demográfica” – que, no caso brasileiro, ocorreu de forma vertiginosa, se comparado com os países da Europa.
 
Quem explica é a antropóloga e professora titular na UFRGS Ondina Fachel Leal. Segundo ela, há vários fatores que influem no processo. Entre eles, a urbanização, o nível de escolaridade, o acesso à saúde pública, a contracepção, a entrada da mulher no mercado de trabalho e o aumento da qualidade de vida.
 
– Criar um filho para este novo mercado é diferente do que há duas gerações – diz.
 
Essa diminuição da quantidade de filhos influencia diretamente na taxa de reposição da população, estimada em 2,1 filhos por mulher. Com a média abaixo deste índice, o Brasil passou a fazer parte dos países que estão abaixo da taxa de reposição da população.
 
A antropóloga acrescenta a ideia de que as cesáreas contribuem para o reforço das estatísticas. Outro fator foi a telenovela, que, de acordo com ela, estabelece importantes padrões de consumo.

 

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