Conheça Bia Kern, a gaúcha que mudou a vida de mais de três mil mulheres

Aproximando mulheres e empresas para cursos na construção civil, Bia foi indicada a prêmio nacional

Foto: Lauro Alves

A piadinha machista diz que mulheres, para melhorar a autoestima, devem passar em frente a uma construção. A realidade mostra que as mulheres devem é entrar nela.

É o que atesta Maria Beatriz Kern após cinco anos e mais de 3 mil vidas mudadas pelo trabalho da ONG Mulheres em Construção. Bia é uma espécie de furacão ao contrário. Corpulenta e sorridente como uma boa alemoa de São Leopoldo, por onde ela passa falando alto e gesticulando, os problemas vão se resolvendo e o ambiente se organizando.

Aos 54 anos, habituada a conciliar estudos, trabalho e deveres domésticos desde que se conhece por gente, ela matuta sobre a desigualdade entre os gêneros há pelo menos duas décadas.

– Vem de berço, né? É a filha quem vai lavar a louça, e o filho quem vai trocar o botijão de gás. Mas lá em casa, como nossos pais se separaram cedo e meus irmãos não sabiam fazer nada, eu tomei conta. Isso aqui tudo, ó, eu sei fazer – diz ela apontando para lâmpadas e tomadas ao seu redor.

Noves fora a vida mansa dos irmãos, a principal motivação para Bia se especializar foi a péssima qualidade dos serviços oferecidos pelos homens em consertos domésticos. De tanto se irritar com encanadores, eletricistas, pintores e afins, ela resolveu aprender para deixar de ser engambelada. E se ela foi capaz de aprender, por que não ensinar outras donas de casa? Em 2006, após anos trabalhando na organização de eventos, ela entrou na loja Companhia da Construção, em Canoas, diposta a bolar uma forma de qualificar mulheres para a construção civil. As próprias empresas revendedoras de tintas, argamassas e afins poderiam bancar as aulas para promover os seus produtos.

Dois anos depois, o curso piloto de pintora predial saiu da prancheta com um número de erguer as sobrancelhas louras da organizadora: para as 25 vagas, havia 300 inscritas:

– Provei que eu não estava louca. Que havia interesse da mulherada em entrar para esse mercado.

O primeiro curso para valer do Mulheres em Construção, ainda em 2008, é exemplar da avidez do setor por mão de obra. Ministrado por engenheiros da Ulbra para 300 candidatas a pedreiras azulejistas, o curso formou “apenas” 219 alunas. Boa parte das 81 desistências foi de mulheres chamadas para trabalhar ao longo do curso. Abdicaram do diploma pela urgência em colocar a mão na massa, literalmente. Desde então os cursos se repetem Estado afora na casa das centenas de interessadas, com metologia feminina própria.

– É mágico ensinar Pitágoras a mulheres com a 4ª série do Ensino Fundamental – explica Bia.

Menos botox, mais epóxi

– Imagina décadas da tua vida criando filhos. De repente, tu estás com 50 e tantos anos, meio gordinha, já com ruguinhas e cabelos brancos. Quem é que vai te dar um trabalho por aí?

A pergunta tristemente sem resposta é de Fátima Wilhelm, 56 anos. Ela é uma das 10 profissionais autônomas que realizaram na semana passada, em Canoas, um workshop de dois dias sobre um novo tipo de massa para cimentar e sobre a instalação de contramarcos de janelas. É um evento de pequeno porte, típico do período eleitoral, quando a ONG atua com mais discrição para não servir de palanque.

O problema apontado por Fátima virou um trunfo na construção civil. Trata-se de um setor em que mulheres maduras e mães da família são admiradas. As empresas buscam a seriedade com que elas encaram o trabalho.

Ao requisitar mulheres, as empresas também evitam uma chaga. São casos em que a palavra “pedreiro”, se torna um trocadilho sem a mínima graça.

– É comum rapazes jovens se apresentarem para trabalhar como serventes de obra, por exemplo, só para depois, no primeiro pagamento, sumir para comprar pedra de crack – conta Fátima.

E que vantagem leva quem paga a conta de grande parte dos cursos, as empresas de material de construção?

– As mulheres são ótimas multiplicadoras para uma marca. Quando elas gostam, elas saem fazendo propaganda do produto – explica Mara Cervieri, gerente comercial da Betonex, empresa paranaense promotora do curso da vez, em parceria com a catarinense Kimarco.

Mara exemplifica vendendo o seu peixe:

– Este produto substitui a mistura com areia, então é especialmente prático para elas, que não precisam fazer força. Se uma mulher descobre algo assim, de que gosta, além de usar sempre, ela vai falar para as amigas. O homem não. Primeiro, ele é mais reticente em mudar. Depois, se muda, não conta aos “concorrentes”.

Trégua no copo

Embora ainda ocorram casos de peões que recolhem suas ferramentas e dão meia volta ao deparar com uma mulher na obra, discutir se um empreiteiro deve optar por homens ou mulheres é um debate vencido. É sólido como cimento seco que os sexos dividirão cada vez mais vigas e tijolos.

A partir daí, ocorre o mesmo fenômeno observado em outros ambientes tipicamente masculinos que começam a ser frequentados por mulheres, de estádios de futebol a faculdades de engenharia. Percebe-se que a presença feminina, ainda que mínima, já é o suficiente para que os homens saiam da Idade da Pedra. É o fim das cantadas em frente à obra e do xixi nas paredes, entre outros hábitos guturais.

Segundo Bia, há um sinal universal de armistício na guerra dos sexos. É quando, depois de uns dias observando a colega sofrer, um deles oferece um copo d’água. Eis o código de que ela foi aceita no grupo. Dali para começar a trabalharem barbeados e destravarem a língua é um pulo.

– Não vou negar que já acabou em namoro, mas o mais frequente é elas virarem amigas e conselheiras sentimentais – relata Bia.

Eles dividem com as colegas dilemas do relacionamento sobre os quais não tinham com quem conversar. Quem incentivaria, por exemplo, um peão a comprar flores para a esposa aniversariante se antes ele não tinha intimidade com nenhuma mulher exceto a sua?

A segunda mudança ocorre nos lares delas. Ao testemunharem a independência das mulheres, os maridos percebem que não podem ficar para trás. Temem perdê-las. Passam a se envolver menos com bebida e a respeitar aquela com quem dividem a cama.

  – Várias me dizem que passaram a ter assunto com os maridos. Parece pouco, mas é uma pequena revolução – avalia Bia.

Retoques e casa própria

O Mulheres em Construção cresce feito condomínio em bairro nobre. Bia, por exemplo, é a única residente no Rio Grande do Sul a concorrer ao Prêmio Cláudia 2012, que homenageia mulheres empreendedoras (a votação vai até este domingo pelo site premioclaudia.abril.com.br, na categoria Trabalho Social). Mas o projeto precisa de acabamento.

O primeiro desafio é construir a sede da ONG, em terreno já cedido. O prédio de cinco andares abrigará uma escola capaz de qualificar 100 mulheres por dia.

Então poderá ser atacado o segundo problema. A ONG calcula que cerca de 60% das mulheres formadas nunca deixaram de trabalhar. As demais se perdem por problemas familiares ou por falta de incentivo. Com a escola como ponto de referência, a ideia é cimentar uma rede de contatos entre ex-alunas, indicando trabalhos.

Por fim, a meta é construir pontes com as secretarias da mulher dos municípios, de onde vêm infraestrutura e dinheiro. Nesta semana, o anúncio de uma linha de microcrédito pela Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo do Estado levou às lágrimas Cláudia Adriana Mendes, de 42 anos. Para muitas, é um dinheiro essencial para adquirir ferramentas ou simplesmente para reingressar no mercado de trabalho com o nome limpo na praça.

Capacete rosa, xale, camisa e um belo relógio dourado, Cláudia é a mais bem arrumada do curso. Ela se recorda das pequenas vitórias da primeira construção em que trabalhou, há cerca de três anos. Em um par de meses, ela foi de servente a mestre de obras. Mas o momento de maior alegria não foi a promoção, foi algo muito mais trivial:

– Foi quando colocaram um banheiro químico só para mim. Lembro dos colegas instalando embaixo e eu lá de cima da obra, vibrando feito uma louca.

É a prova viva de que o trabalho dignifica o homem. E a mulher.

Histórias de vidas reconstruídas

Ao conversar com ex-alunas da ONG Mulheres em Construção, Donna colheu relatos de como renda e emprego devolveram sentido à vida das novas trabalhadoras

Elizabeth Zenger, 47 anos, pedreira, moradora de Canoas

“Tinha uma resposta pronta para quando perguntavam o que eu fazia da vida: ‘Vendo almoço para comprar janta.’

Vendia, na verdade, vassoura, produtos de limpeza. Catava sucata. Até 2008, eu fazia o que dava para arrecadar algum dinheiro. Às vezes conseguia, às vezes não. Vi o anúncio de jornal do curso para trabalhar em construção civil, fui selecionada, mas não achei que fosse chegar a lugar nenhum. Pois 15 dias depois de terminar as aulas, entrei na primeira obra e nunca mais saí.

Sou mãe de cinco filhos, casada há 33 anos, e todos na minha casa enchem a boca para dizer que a mãe é pedreira. Está escrito na minha carteira de trabalho. Engraçado é que eu vejo as fotos da época do curso e mal me reconheço. Eu era muito gorda e muito atirada. Dentes, roupas. Eu achava que não precisava de nada disso pra ser mais feliz. Precisei virar cimento, empilhar tijolo, para aprender a me cuidar.

Percebo pelo ônibus, de manhã, que tem cada vez mais mulheres trabalhando em construções. Para quem diz que obra não é um ambiente de trabalho bom para mulheres, eu digo que o ambiente é a gente quem faz.

Os anúncios de jornal já falam bem direitinho: ‘para sexo masculino e FEMININO.’ Já trabalhei em uma obra, em Cachoeirinha, que tinha 19 mulheres. Meu próximo objetivo é construir a minha casa própria de alvenaria. Comento com os colegas, homens e mulheres, e eles dizem: pode contar comigo.

Resumindo pra ti, minha vida mudou do péssimo para o bem bom.”

Cinara Ribeiro Frutuoso, 37 anos ceramista, moradora de Canoas

“Sabe como é acordar sabendo que o dia vai ser igual ao de ontem? Era assim que eu me sentia desempregada. Desmotivada, sem perspectiva. Como operadora de telemarketing, eu ganhava no máximo R$ 600. Tinha mês, não tenho vergonha de dizer, que eu tirava R$ 120. Em uma dessas manhãs, caminhando na praça com o meu filho, eu passei pela prefeitura e vi o cartaz escrito ‘Mulheres em Construção’. Me inscrevi e me esqueci.

Dois meses depois, me chamaram. Eu, que nunca me imaginava em uma obra. Conversei com o meu marido e ele disse: ‘é isso aí mesmo, tu tens que te qualificar.’ Ele trabalha com Comércio Exterior e, hoje, como ceramista e azulejista, eu ganho mais do que ele. Geralmente as mulheres começam nas obras como serventes. Eu disse: ‘Nada contra, mas de servente, eu não quero. Eu tenho curso, ora. Sou qualificada.’ Pedi três meses ao engenheiro para mostrar o meu trabalho, e lá se vão dois anos em uma empresa multinacional.

É outra coisa para o teu ego quando tu tens dinheiro para comprar alguma coisa para os filhos. São três. A mais velha, de 15 anos, faz inglês. Quando ela fala em cursar faculdade de engenharia eu quase choro de alegria. Penso em fazer mais cursos, quando tiver mais tempo, e quem sabe, no futuro, abrir uma microempresa. Sou metida, falo para os colegas que não precisamos passar a vida trabalhando no mesmo lugar.

Vira e mexe, aceito os convites da Bia para falar sobre o projeto. Sei que muitas mulheres começam o curso achando que não vai dar certo. Vou lá para dizer que dá, sim. Basta querer. Se deu pra mim, dá pra todo mundo.”

Raquel Naibert, 32 anos, pintora, moradora de São Leopoldo

“Não estava mais conseguindo, sabe? Eu chegava no fim de tarde, de carroça cheia, enchia o pátio de lixo e colocava as crianças a me ajudar. A mais velha das quatro tem 13 anos, a mais nova, seis. E a vida era isso. Uma competição cada vez maior, o material vendido para reciclagem cada vez por menos. Mas, sendo mãe solteira, precisando trabalhar, o que mais eu podia fazer? Fazer unha, vender cosméticos… Essas coisas que a mulherada faz, nunca foi a minha.

Foi um psicólogo do Creas (Centros de Referência Especializado da Assistência Social) quem me falou dos cursos, e eu me encantei de cara. É muito bacana ser só mulheres, a gente ganha mais rápido intimidade para contar casos, fazer piadas, dar dicas.

Fiz cursos de pedreira hidráulica e pintora, hoje pinto mais ou menos um apartamento por semana. De 2011 pra cá, comprei uma moto e, do mesmo homem para quem eu vendi a minha carroça, eu comprei um Chevette – nenhum luxo, mas já dá para fazer visitas no fim de semana.

Com as sobras dos serviços, pintei aqui em casa. O que era um monte de lixo, hoje é uma casa azul bem linda. Me sinto mais livre. Mais útil, mais limpa. Agora, pretendo fazer um curso de eletricista. Outro dia, achei um absurdo ter de chamar um homem para fazer um conserto.”

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