Conheça Daniela, a primeira brasileira a integrar a ONG Palhaços Sem Fronteiras

Atriz integra a organização que viaja o mundo levando alegria para crianças

Foto: Mauro Vieira

É enquanto se maquia que a atriz Daniela Biancardi vai deixando para trás sua personalidade sisuda e incisiva para se transformar em Ligia Maria, a boba e divertida palhaça com quem divide a vida desde a adolescência. Nem só de lápis preto, batom vermelho e pó branco se constitui a mudança, Daniela alterna um desenho na sobrancelha com uma careta caprichada na frente do espelho, um reboco nos lábios, com um olhar esbugalhado para o reflexo. E se dá conta:

– Ver o palhaço se maquiando pode ser até mais divertido que a performance.

Daniela é a primeira mulher brasileira convidada a participar da ONG internacional Palhaços sem Fronteiras. Na companhia dos colegas irlandeses Jonathan Gunning e Bryan Quinn, a paulista de Jundiaí saiu em uma expedição de um mês e meio por Lesoto, na África do Sul, um dos lugares mais pobres do mundo, com o lema “nenhuma criança sem um sorriso”. Experiência que lhe garantiu o Prêmio Cláudia 2011 na categoria Cultura.

O convite para integrar a organização foi o reconhecimento de Jonathan, responsável por escalar o trio, ao trabalho que Daniela vinha realizando há um ano em bairros de periferia de São Paulo. Os dois se conheceram na temporada que a atriz passou estudando na Europa (ao todo, foram quatro anos entre lições na École Internationale de Théâtre de Jacques Lecoq, em Paris, e na Kiklos Scuola, em Firenze) e não deixaram a amizade e a cumplicidade profissional esmorecer.

A brasileira abraçou o desafio de encarar crianças cuja expectativa de vida é de 34 anos e quatro meses devido à devastação do HIV e eternizar momentos de troca e alegria. O grupo era acolhido em aldeias, casas de missionários e líderes comunitários e a disponibilidade e generosidades das pessoas foi o que mais tocou Daniela.

– Tem que ser um profissional capacitado para encarar um trajeto como esse. Mesmo com toda experiência você chora. Se é alguém sem preparo, desaba.

Inspirada em Charles Chaplin, mestre citado por ela inúmeras vezes, a atriz usou da mímica e dos ruídos, linguagem universal, para transmitir mensagens aos pequenos:

– Em alguns lugares era difícil conquistar o riso com o símbolo do palhaço. Para eles, o riso vem por outro caminho. Não necessariamente o que eu proponho para uma criança aqui, causa efeito lá. É no desastre e no fracasso que às vezes o riso vem. Ou seja, eu conseguia o riso de uma criança na tentativa frustrada de fazê-la sorrir.

Estima-se que pelo menos 10 mil gargalhadas foram agregadas na bagagem do trio, número de pessoas que assistiram às performances.

Aos 37 anos, Daniela tem uma birra momentânea com a vida: o pouco tempo que lhe sobra para o amor e qualquer hobby. Com uma agenda profissional lotada de viagens, palestras, aulas e espetáculos, prioriza as horas de folga para ficar em casa e curtir a família.

Enxerga filhos como um projeto distante. Atualmente, foca nas aulas no primeiro curso de humor do Brasil, na SP Escola de Teatro, e nos ensaios de uma nova peça ainda sem título, que deve estrear em meados de abril de 2013. O tema ela adianta: um espetáculo de palhaços com base em uma tragédia grega.

Dona do próprio nariz

A proposta parece simples: que Daniela escolha uma das perucas penduradas no cabideiro da casa de festas Peta Perruge ou coloque um nariz vermelho qualquer para ser fotografada como palhaça. A sugestão soa estranho para a atriz. Não há cachê nem palavras que a convençam a vestir um nariz de palhaço que não seja o seu.

– Nos ensinamentos que tive em Paris, aprendi a tornar sagrada toda máscara teatral. É muito comum você ver as pessoas vestirem o nariz e acharem que o palhaço já está ali. Não é assim, tem todo um trabalho físico e corporal para esse estado cênico acontecer.

Daniela molda os narizes que utiliza com base nos cursos de artesanato e desenho que fez ao longo da vida ao trabalhar com cenografia e assistência de palco. Se por descuido esquece o adereço em casa, tem que fazer um trabalho de aquecimento corporal bem mais intenso do que as duas horas e meia despendidas normalmente para acender o palhaço interno e não perder a potência que a máscara dá.

Dependendo da sintonia com o ambiente ou a sensação que a apresentação possa ter lhe causado, Daniela, por vezes, entrega o nariz para alguém da plateia ao final da peça.

– O problema é quando vivo tanto a poesia que esqueço que posso precisar do nariz no dia seguinte – sorri.

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