Conheça joinvilenses que são especialistas em cerveja

Sim, as mulheres gostam de tomar uma cervejinha e isso não é nenhuma novidade. Mas algumas foram além da simples apreciação. Pesquisaram para dominar o universo da bebida e passaram a produzi-la também

Natasha, Andrea e Miriam se uniram e criam a cerveja 'As Valkírias'
Natasha, Andrea e Miriam se uniram e criam a cerveja 'As Valkírias' Foto: Rodrigo Philipps

No inverno de 2012, as empresárias Nathasha Vieira, 28 anos, Andrea Redondo, 42 anos, e a administradora Mirian Monich, 49 anos, se reuniram três vezes para produzir uma receita.

Nos dois primeiros encontros, discutiram ingredientes e métodos. No terceiro, executaram a criação: um líquido laranja-escuro, brilhoso e levemente turvo, com aromas frutados com toques de abacaxi e laranja e a ele deram o nome ‘As Valkírias’.

Era a primeira produção de uma cerveja artesanal totalmente feita pelas três apaixonadas pela ‘bebida da alegria’.

A definição é de Nathasha, que aprendeu a gostar de cerveja com a mãe e com a avó, acompanhando as duas nas horas de relaxar com a amarelinha.

? Mas era cerveja comum, aquela de supermercado ?, explica.

A paixão pelas cervejas especiais veio junto com a paixão por Mauro, que já produzia artesanalmente desde 1998 e hoje é seu marido.

? Comecei a fazer viagens, a experimentar cervejas diferentes e ficar mais seletiva. Passei a defender a cerveja como patrimônio ?, conta Nathasha, que também é professora de gastronomia e faz mestrado em patrimônio histórico ? o tema de pesquisa de sua dissertação, aliás, é cerveja. 
 
Assim como ela, Andrea e Mirian também aprenderam a gostar das cervejas diferentes com seus maridos, todos eles membros do Instituto Joinvilense da Cerveja e mestres-cervejeiros ou, simplesmente, grandes apreciadores da bebida.

Mas foi sozinhas que desenvolveram o gosto e decidiram, no ano passado, criar ‘As Valkírias’ para um concurso em Blumenau.

? Enquanto eles faziam churrasco, nos reunimos para criar a cerveja ?, lembra Andrea.

O prêmio não veio, mas a experiência serviu para que as três moradoras de Joinville descobrissem que também tinham potencial para produzir uma cerveja gostosa e diferente, que foi envasada e ficou como lembrança na geladeira de cada uma delas por um bom tempo.  

Um trabalho para mulher

Quando produziram sua primeira cerveja, Nathasha, Andrea e Mirian estavam repetindo uma tradição de mais de seis mil anos.

Segundo o pesquisador Ronaldo Morado no ‘Larousse da Cerveja’, em várias culturas a tarefa de fazer cerveja era exclusiva das mulheres.

Na Babilônia e na Suméria, por volta do ano 4.000 a.C., as mestrescervejeiras eram consideradas pessoas especiais, com poderes quase divinos; e até o século 16, na região Norte da Alemanha, os utensílios para a produção de cerveja faziam parte do enxoval das noivas.

Uma lenda escandinava guarda o mito de que os guerreiros podiam alcançar a imortalidade se tivessem bebido cerveja produzida por divindades chamadas de ‘Valquírias’ – daí a escolha do nome que as joinvilenses deram à sua primeira produção.

? Como era uma atividade relacionada à padaria, era a mulher quem fazia a cerveja, enquanto estava fazendo o pão. Mesmo recentemente, em muitas famílias, você ainda podia encontrar mulheres que eram as responsáveis por essa produção caseira ?, explica Nathasha.

Foi a Revolução Industrial que, há cerca de 250 anos, começou a tirar a tarefa das mãos das mulheres, que ainda não estavam incorporadas ao mercado de trabalho.

Para todos os paladares

Thonia é especialistas em vinho e também bier sommelière

Aquela história de que mulher só gosta de bebida docinha e leve não se encaixa aqui. Entre as amigas, Nathasha é quem gosta das cervejas mais adocicadas, enquanto Andrea e Mirian preferem as amargas.

No mesmo time está a sommelière Thonia Carla Cadorin, 30 anos, que tornou-se especialista em vinhos, mas quando se trata de um copo com colarinho de espuma, é das mais fortes, como a India Pale Ale, da qual ela gosta mais.

? Sempre gostei de cerveja, aquela coisa de cerveja e churrasco, sabe? Gostava de experimentar, apesar de trabalhar e entender os vinhos ?, afirma Thonia.

Isso foi resolvido há cerca de dois anos, quando ela se especializou em cervejas e tornou-se bier sommelière, descobrindo um mundo bem diferente. Ela garante que quem afirma não gostar do ‘amargo’ da cerveja pode aprender a curtir a bebida se encontrar o estilo certo.

? É questão de aprimorar o paladar ?, diz.

Há algumas semanas, ela se reúne com mais cinco mulheres para degustar, em bares especializados da cidade, cervejas diferentes, formando uma Confraria da Cerveja totalmente feminina.

A primeira reunião já provou que o paladar para a cerveja é totalmente independente do gênero: as notas entre as seis participantes divergiam a cada bebida, com grupos que gostavam das frutadas e refrescantes e outras que preferiam os sabores mais marcantes.

Cerveja para degustar

Quando Nathasha ainda namorava Mauro, ela ia esperá-lo sair do trabalho sentadinha em alguma choperia ou um bar da cidade e bebia uma cerveja. O pai dela não gostava muito do local escolhido.

? Ele ficava reclamando, dizendo: Onde já se viu mulher bebendo sozinha em bar?, ? recorda ela, que hoje tem um restaurante especializado em cervejas premium ao lado do marido.

Alguns anos antes, em São Paulo, Andrea estudava engenharia em uma turma formada praticamente apenas por homens. O grupo, no entanto, era formado por abstêmios que ficavam só ‘no suco e na Coca-Cola’, enquanto Andrea era a única da mesa a pedir cerveja.

? Acho que temos que tirar o estigma da cerveja, que ainda é considerada uma bebida vulgar. Ninguém aqui bebe para cair, o que se procura é uma experiência de degustação, igual à do vinho ?, avalia Andrea, proprietária de uma franquia dos quiosques Beer Code, que comercializa cervejas especiais e que foi, aliás, criado por uma mulher, a gaúcha Ketlyn Zim.

O mundo exclusivamente masculino da bebida pintado pelas campanhas publicitárias das cervejas populares ? nas quais as mulheres figuram quase sempre como mais um produto a ser consumido, e não como consumidoras ? fica bem longe destas especialistas na bebida.

? Eu não me sinto afetada porque nem são as cervejas que eu bebo ?, afirma Nathasha, que é seguida pelas amigas.

? Geralmente, são cervejas sem qualidade e que precisam se basear na imagem ?, analisa Mirian, para quem a idade também afeta muito o julgamento na hora de escolher a bebida, já que o público das cervejas premium é mais velho e bebe em casal, para dividir impressões e informações.

A bier sommelière Thonia concorda: neste caso, a questão de gênero não se aplica.

? O que mais acontece é ficarem encantados quando veem uma mulher que entende de cerveja ?, afirma.

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