Conheça mulheres que reivindicam o direito de cuidar dos filhos e da casa

Família volta a ser priorizada em lugar da carreira

Manuela Monteiro, 26 anos, advogada, mãe de Marina e Martín, adiou o projeto profissional para se dedicar
Manuela Monteiro, 26 anos, advogada, mãe de Marina e Martín, adiou o projeto profissional para se dedicar Foto: Diego Vara

Por décadas, as mulheres lutaram por trocar o avental de dona de casa por um diploma universitário e uma carreira. Nessa escalada em direção ao mercado de trabalho, já são maioria nos cursos de graduação e pós-graduação e ocupam cada vez mais postos de gerência e diretoria. Mas agora surge um movimento na direção contrária: há mulheres reivindicando o direito e o tempo de fazer exatamente aquilo que suas avós e as avós de suas avós fizeram: cuidar dos filhos e da casa.

Diferentes pesquisas apontam que cada vez mais mulheres priorizam a família em lugar da carreira. Nas classes AB, de acordo com estudo Movimentos Femininos, realizado pelo Ibope, esse percentual subiu de 8%, em 2005, para 15%, em 2008. Levantamentos com mulheres porto-alegrenses, da Rohde e Carvalho Pesquisa e Diagnóstico, indicam que se reduziu à metade a parcela de mulheres que colocavam a carreira em primeiro lugar. Mas algumas vão além de desacelerar o ritmo: movidas pela vontade de acompanhar de perto os primeiros anos de vida dos filhos e amparadas por um marido com condições para ser o provedor da família, optam por interromper a carreira.

– Depois de décadas lutando, a mulher se deu conta de que os múltiplos papéis só estressavam, viu que não dava conta de tudo. E aí fez uma opção –  avalia Liliane Rodhe, professora da ESPM e sócia-diretora da Rohde & Carvalho.

Nesse retorno ao lar, as mulheres encontram um contexto diferente daquele vivido por suas avós, em que as mulheres tinham poucas alternativas senão cuidar da casa e dos filhos e os homens estavam habituados a exercer o papel de provedores. As profissionais graduadas que optam por ser donas de casa têm o desafio hoje de reinventar esse papel: são mulheres educadas para serem independentes em um tempo em que homens são cobrados a compartilhar direitos e responsabilidades.

Há quatro meses, antes mesmo de saber que estava grávida do segundo filho, a agente de viagens Roberta Saltz, 28 anos, decidiu deixar o emprego para se dedicar à filha, Sofia, dois anos e meio: julgava que a menina precisava mais do que apenas quatro horas por dia com a mãe. O marido, Sandro Saltz, 35 anos, dono de uma agência de viagens, confessa que num primeiro momento achou a ideia “meio retrógrada”, mas apoiou a mulher ao perceber que esse tempo era importante para ela e por entender esse afastamento do mercado como uma fase temporária, até que os filhos fiquem maiores.

– Não estou trazendo dinheiro para casa, mas estou cuidando da nossa filha e da nossa casa. A vida em família está bem melhor – diz Roberta.

– Está sendo muito positivo – diz Sandro – minha única questão é a Roberta ter outras atividades, além da casa e dos filhos, para não cair na mesmice da dona de casa da antiga.

Essa reinvenção do papel de dona de casa não significa necessariamente esquentar a barriga no fogão. E até o mercado consumidor já descobriu isso: as mostras de decoração valorizam o lazer indoors, como espaço gourmet e salão de jogos, a moda lounge wear, que oferece conforto com estilo. As novas donas de casa são administradoras do lar: contam com a ajuda de empregadas (e eventualmente dos maridos), administram contas, supermercado, mantém-se atualizadas e dedicam-se sobretudo aos filhos. E apesar de já terem ouvido muito a pergunta “O que tu fazes o dia inteiro?”, afirmam que nunca falta o que fazer: a parada estratégica pode ser também o momento de investir em cursos de especialização de olho na volta ao mercado.

Essa foi a escolha de Lisiane Lahorgue, 33 anos. Ela atuava como coordenadora nacional de eventos e patrocínios de uma empresa de telefonia, viajava o Brasil todo e mal conseguia acertar a rotina com a do marido, diretor de arte de uma agência de publicidade. Decidiram diminuir o rimo para ter filhos e combinaram que ambos tentariam um emprego no Exterior: ele conseguiu primeiro, e Lisiane o acompanhou a Berlim, na Alemanha, lá engravidou e hoje estuda alemão, faz pós-graduação e prepara a chegada de Alexandre, prevista para outubro.

– Minha mãe quase não acreditou que eu iria largar uma carreira bem-sucedida para cuidar de casa, marido, filhos. Mas minhas amigas, que trabalhavam na mesma área que eu, me apoiavam e diziam que gostariam de estar no meu lugar – conta Lisiane.

A advogada Manuela Monteiro, 26 anos, diz ouvir os mesmos relatos. Ela deu à luz a Marina três meses antes de se formar, em 2007, e a família aumentou em março com a chegada de Martín. O plano de ter filhos cedo e de Manuela adiar a entrada no mercado foi uma decisão conjunta com o marido: um projeto afinado com um fenômeno que se esboça nos Estados Unidos, em que as mães, cada vez mais jovens, optam por dar à luz antes de engrenar na carreira.

– Quero curtir meus filhos e depois tenho a vida inteira para trabalhar – diz Manuela. – Minhas amigas, que não têm essa possibilidade, gostariam de poder viver o que estou vivendo e dizem para eu aproveitar essa chance.

Por trás deste desejo está correria diária de mulheres que, em sua maioria, seguem a jornada dupla ou tripla, administrando carreira, casa e filhos.

– As mulheres perceberam que ocuparam um pouco o lugar que era do homem, mas que ninguém ocupou o espaço dentro de casa  – avalia Rubens Hannun, presidente do H2R Marketing em Pesquisas Avançadas, que também detectou a tendência de se voltar mais para o lar entre mulheres executivas.

Mas feministas veem com desconfiança essa volta ao papel de dona de casa. A historiadora Joana Maria Pedro, coordenadora do Instituto de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina, acredita que essa escolha poderá significar no acordo do casal que as crianças são responsabilidade da mulher. E pergunta:

– Por que o marido não fica com as crianças, e elas seguem sua carreira?

No cenário atual, em que mulheres ainda lutam por equiparação de salários, a resposta de Leila Costa, 40 anos, formada em Educação Física ex-coproprietária de uma loja de decoração, possivelmente vale para muitas donas de casa por opção:

– Nem pensamos nessa alternativa, porque meu marido ganhava bem mais do que eu.
Leila deixou a loja, onde trabalhava de segunda a segunda, e hoje, grávida de nove semanas, administra em casa uma linha de bijuterias que faz em parceria com uma amiga.

– A decisão de eu parar de trabalhar foi fácil, porque ficamos muito tempo tentando ter um bebê e sempre falei que não teria um filho para os outros cuidarem.

Em sua pesquisa de dissertação, a psicológa Sabrina D’Affonseca, de São Carlos comparou o desempenho escolar das crianças e indicadores de estresse tanto de famílias em que a mãe trabalhava fora, quanto nas que a mãe era dona de casa. E não encontrou diferenças relevantes – a não ser a culpa das que passavam o dia longe dos filhos. Trata-se, ao fim, de uma escolha – e de quem tem condições de escolher.

No caminho para casa, mulheres que deixam seus empregos para ser mães e administradoras do lar esbarram em uma das mais antigas bandeiras feministas, a autonomia financeira.

Enquanto cada uma das donas de casa por opção advoga o direito de estabelecer suas prioridades, teóricos e pesquisadores avaliam sob a perspectiva do movimento feminista os significados desta tendência.

– Vejo isso como uma espécie de retorno ao século 19. Ter uma mulher dedicada a ser esposa e mãe era uma demonstração de que o homem tinha conseguido vencer na vida. Mas essa escolha é um risco: sabe o que é depender de uma outra pessoa? – questiona a historiadora Joana Maria Pedro, coordenadora do Instituto de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina. – A mulher vai entrar uma relação de poder, com papéis desiguais como no século 19. Quem garante que não vá refazer papéis antigos?

Até o plano de retomar a carreira quando os filhos estivessem maiores seria uma aposta de risco, de acordo com Joana, que esbarraria na forte concorrência. Aí, o projeto que era para ser temporário correria o risco de se tornar definitivo. Depois de gerações terem batalhado por espaço nas universidades e no mercado, a escolha dessas mulheres as levaria a perder a chance de ascender na profissão.

A feminista mais contestada pelas feministas, a americana Camille Paglia, propõe, contudo, um novo olhar sobre as mulheres que se dedicam ao lar. Em passagem por Porto Alegre, em 2007, a teórica do pós-feminismo condenou a marginalização da dona de casa em entrevista à Zero Hora:

– O movimento feminista tende a denegrir a mulher que quer ficar em casa, amar seu marido e ter filhos, que valoriza dar à luz e criar um filho como missão central na vida. Está mais do que na hora de o feminismo ocidental conseguir lidar com a centralidade da maternidade para a maioria das mulheres no mundo.

– Por que não está na hora de os homens centralizarem a paternidade? – pergunta Joana Pedro.

Militante feminista, a professora de Sociologia da Universidade de São Paulo Eva Blay também questiona:

– Para algumas mulheres e alguns homens, filhos são prioridade. Mas podemos generalizar?

Eva Blay afirma que estudos têm mostrado que este retorno à casa e aos filhos não corresponde a uma tendência estatisticamente significativa e que tem aumentado o número de mulheres no mercado. A pesquisa do Ibope intitulada Movimentos Femininos, que estabelece como cenário justamente o crescimento da participação feminina no mercado, também em cargos de gerência e diretoria, e a maioria de mulheres em cursos de graduação e pós-graduação, sinaliza como tendência igualmente a busca mais intensa de independência e um retorno para a família. Nelsom Marangoni, CEO do Ibope, não vê aí uma contradição:

– A valorização da carreira, de ser dona de casa, é algo que a mulher pode decidir. Tem a ver com essa busca pela autonomia.

Da casa para o trabalho, do trabalho para casa

As tarefas domésticas são um trabalho que passa quase despercebido em um mundo voltado para ascensão profissional, acúmulo de renda e atividades lucrativas – desde, claro, que tudo esteja limpo e em seu lugar. Mas, de tempos em tempos, o esforço diário para manter a casa em ordem, os filhos bem-cuidados e a vida da família organizada ganha relevo e recoloca no centro de debates a função de donas de casa – ainda majoritariamente feminina. Em um breve retrospecto histórico, é possível observar como o contexto de cada época influenciou o movimento das mulheres de casa para o trabalho, e vice-versa.

Lar: domínio feminino

As mulheres sempre trabalharam – seja no campo, seja cuidando da casa e dos filho. Inclusive foram mão de obra na Revolução Industrial, no século 18. E é justamente a partir deste século que há uma tomada de consciência sobre a importância do trabalho realizado pela dona de casa, apontada então por economistas e moralistas como o núcleo do equilíbrio econômico e familiar nos meios operários: a educação da prole e as tarefas domésticas eram entendidas como “naturalmente” femininas. Surgem tratados de economia doméstica e a preocupação de preparar as mulheres para as tarefas do lar – inclusive nas escolas e nas fábricas, encarregadas de formar as esposas dos operários.

As guerras e os sexos

Na retaguarda dos soldados que haviam partido para o combate, mulheres ocuparam os postos de trabalho deixados por eles durante a I Guerra Mundial. Findo o conflito, elas foram convidadas a voltar para casa e para as tarefas domésticas em nome dos direitos dos egressos dos campos de batalha. Para as que resistiram, sobrou principalmente o setor terciário. O mesmo movimento – em direção ao mercado para casa e, depois, de retorno ao lar – se repetiria ao fim da II Guerra Mundial.

Dedicação exclusiva

Nos anos 1920, a compatibilização do trabalho feminino com a família era tema de pesquisas. Especialistas em economia doméstica realizaram estudos comparativos sobre o tempo gasto nas tarefas domésticas para provar que eram uma atividade que demandava dedicação integral. O tempo economizado com os eletrodomésticos que surgiam deveria ser, defendiam eles, dedicado à educação dos filhos. Neste período, ter uma esposa dedicada ao cuidado do lar e dos filhos dava prestígio ao marido. Mostrava que ele era um bom provedor.

Boom dos eletrodomésticos

O progresso técnico que cunhou as três décadas que se seguiram à II Guerra mudou os lares. A habitação moderna distinguia cozinha, sala, banheiro e quarto de dormir, e cada vez mais pessoas tinham acesso à água encanada, à eletricidade e a saneamento. Nos anos 1960, a pílula anticoncepcional proporcionou maior controle de natalidade e reduziu sensivelmente o número de filhos por família. Para completar, novos eletrodomésticos e produtos de limpeza prometiam facilitar a rotina da dona de casa, que surgia em anúncios bem penteada, maquiada e sorridente. Com supostamente mais “tempo livre” e cada vez mais produtos para comprar, muitas mulheres foram incentivadas a voltar ao mercado para reforçar a renda da família. Sem esquecer das tarefas domésticas, é claro.

Jornada dupla

Em fins do século 20, cada vez mais numerosas no mercado de trabalho, as mulheres reivindicavam equiparação de salários e buscavam então chegar ao topo das grandes empresas – uma batalha que segue sendo travada. Embora a imagem da dona de casa tradicional tenha ficado associada a mulheres “à moda antiga”, e esse papel não deixou de fazer parte da vida daquelas que trabalhavam: a chamada jornada dupla.

Volta para casa

No século 21, frente a questões contemporâneas, como a crise financeira mundial, o desemprego vigente, a aceleração do ritmo de vida e a crise de valores e instituições tradicionais, e mesmo problemas do âmbito familiar, como a alardeada falta de limites das crianças, pais e mães são cada vez mais cobrados a se dedicarem à educação dos filhos. Mas, a despeito de pais e maridos mais participativos na criação das crianças e nas tarefas domésticas, a balança das responsabilidades – ou da disposição de se incumbir delas – ainda parece pender mais para o lado da mulher. Neste cenário, despontam duas tendências rumo ao lar: para se dedicar aos filhos e à casa, mulheres antecipam a maternidade e protelam a carreira ou abrem mão de seus empregos para priorizar suas famílias.

Fontes: Minha História das Mulheres, de Michelle Perrot; História das Mulheres – O Século XX, com organização de Georges Duby e Michelle Perrot; Joana Maria Pedro, coordenadora do Instituto de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina; Eva Blay, professora de Sociologia da Universidade de São Paulo.

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