Conheça o paisagista gaúcho que transformou jardins de mansões em Nova York

Frederico Azevedo criou o famoso jardim dos Ammon, que foi palco de um assassinato em 2001

Foto: Divulgação

O primeiro contato com um dos paisagistas mais prestigiados dos Estados Unidos, cuja assinatura está nos mais belos jardins dos Hamptons, bairro dos sonhos de Nova York, onde os multimilionários americanos constróem suas mansões, foi tenso. Por uma distração, julguei estar ligando às 11h50min, horário americano, 9h50min, horário de Porto Alegre. Engano. Estava era ligando às 7h50min da madrugada. Frederico Azevedo mal falou comigo. Pediu que eu retornasse no horário combinado e desligou. Sua voz não era de sono, pelo contrário. Estava agitado. Estaria na academia, ou tomando café da manhã, ou saindo de casa, ou chegando no trabalho, pensei.

Algumas horas mais tarde, quando finalmente engatamos a entrevista por telefone, fico sabendo, mediante um desnecessário pedido de desculpas do meu gentil interlocutor, que estava tão enganada nas minhas suposições sobre suas atividades matinais quanto estive no cálculo do fuso horário. Àquela hora da manhã, ele já estava no meio de uma acalorada reunião com clientes e fornecedores.

Frederico Azevedo, 51 anos, é bem assim. Acorda às 5h30min, uma hora depois já está em seu escritório, nos Hamptons. Trabalha cerca de 15 horas por dia e não chega em casa antes das 20h, 21h. Sim, ele adora trabalhar, mas não faz somente isso da vida. Também aprecia a companhia dos amigos e especialmente dos dois filhos para programas como viagens, cinema, teatro, passeios ao ar livre.

Nasceu em Porto Alegre, em uma casa cercada de árvores e muito espaço para treinar suas experimentações no jardim, no bairro Três Figueiras. Na casa de praia da família, em Atlântida, adivinha quem era o jardineiro? Quis ser paisagista desde sempre. O sonho o levou para estudar na Europa e nos Estados Unidos. Um dos mentores foi o sujeito que, durante anos, assinou o design do Chelsea Physics Garden e do Jardim do Parlamento Inglês, ambos em Londres.

Confira mais jardins criados por Frederico:

Morando há 23 anos nos Estados Unidos, Frederico já se atrapalha um pouco com o português, idioma materno que raramente pratica. A sede da empresa de paisagismo fundada e dirigida por ele, Unlimited Earth Care, tem 25 funcionários que fazem design, execução e manutenção de jardins em todo o país. Além dos projetos de paisagismo, Frederico escreve para revistas, já fez programas de televisão e assina objetos de decoração de jardins com a sua marca. É, enfim, mais do que um empresário muito bem sucedido. É quase uma unanimidade quando o assunto é paisagismo. Depois do mal entendido do fuso horário, falou generosamente com Donna por quase duas horas. Além de todos os atributos profissionais que o credenciam, a conversa deixa claro, acima de tudo, que Frederico é simplesmente um cara legal.

Donna – Você sempre quis ser paisagista?
Frederico Azevedo –
Sempre adorei desenhar jardins, foi uma coisa natural em mim. Fazia os jardins da casa dos meus pais em Porto Alegre e na casa de praia, em Atlântida. Sempre fazia coisas diferentes, tentava adaptar flores de um jardim para o outro.

Donna – O paisagismo sustentável é uma tendência mundial?
Frederico –
Sempre houve a introdução de muitas plantas exóticas nos projetos paisagísticos, tanto aí no Brasil quanto fora. Talvez até mais fora do que no Brasil. E por isso muitos projetos não eram bem sucedidos. As plantas ficam muito mais bonitas quando elas tem relação com o environment onde foram plantadas. Desde pequeno eu tentei fazer isso. Tentava ver o que crescia ao redor das dunas, na praia, e trazia para o jardim. Em Porto Alegre, se você procurar reproduzir o ambiente que cresce no entorno do Guaíba, por exemplo, o seu jardim vai ficar muito mais bonito e atraente. Quanto mais natural você faz o seu jardim, menor a necessidade de fertilizar e utilizar defensivos químicos. E isso é muito bom.

Donna – Você tem conseguido colocar em prática esses conceitos aí nos Estados Unidos?
Frederico –
Sim. Na realidade, fui um dos primeiros a promover essa ideia aqui nos Hamptons, onde fica o meu escritório. Essa ideia já existe no Brasil há muito tempo, desde a criação do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, que foi todo plantado com árvores nativas. A gente não costuma valorizar, mas no Brasil surgem grandes ideias. Essa preocupação com a ecologia vem dos anos 1970, período em que eu cresci. Quando cheguei aqui, a maioria dos meus clientes queria o que eles viam na Europa ou em alguma outra parte dos Estados Unidos. Eles não tinham novas ideias.

Donna – E como os teus clientes estão recebendo essas ideias agora?
Frederico –
Muito bem. Por exemplo, trabalhei com Leonardo DiCaprio, em 2005, quando ele fez os edifícios com green engineering (engenharia verde, em livre tradução). Também colocamos grama em casas de Aspen, local de muito frio e neve, o que foi uma grande inovação. Essa discussão cresce por aqui e na Europa, para onde viajo com frequência. Existe uma preocupação de não só fazer o paisagismo com plantas nativas, mas introduzir plantas que, mesmo não sendo nativas, adaptam-se com facilidade ao ambiente. Isso diminui o uso de químicos na terra e o paisagismo torna-se mais natural. Até o final dos anos 1990, ninguém pensava sobre o mal que estava fazendo ao usar cada vez mais fertilizante, cada vez mais spray, para ter um belo jardim. Hoje, a dimensão do que é bonito também se modificou.

Donna – O que você viveu aqui em Porto Alegre e no Brasil ainda inspira o seu trabalho?
Frederico –
Sim, muito. O Parque Farroupilha, em Porto Alegre, me inspira muito, até hoje. O Parque Moinhos de Vento, que foi criado pouco a pouco enquanto eu ainda morava aí, é muito interessante. No Rio de Janeiro, o Parque do Flamengo também é uma grande inspiração, assim como os jardins do sítio do Burle Marx. Há coisas notáveis que consegui implementar aqui, como os passeios do Parcão, que são feitos de terra batida. Mas claro, é necessário adaptar para satisfazer os clientes. Trabalhando aqui em Nova York, tenho uma clientela extremamente exigente.

Donna – Você lida bem com esse nível de exigência?
Frederico –
Sim, adoro isso. As pessoas viajam, conhecem muitas coisas ao redor do mundo, então me obrigam a estar constantemente atualizado. Nunca posso estar behind anything, tenho que conhecer o que vem next.

Donna – Você tem relações longevas com os clientes.
Frederico –
Sim. Tenho uma companhia inteira de paisagismo, que desenvolve o meu desenho e ainda instala e faz manutenção dos jardins. É comum ficarmos com os clientes por 18, 20 anos. Mudam de casa, mas não mudam o paisagista.

Donna – Como foi a reação da família quando você anunciou que seria paisagista?
Frederico –
Eu sempre tive essa ideia. Cresci dentro do jardim, sabia que era a paixão da minha vida. Acredito que quando as coisas são para dar certo, elas dão. E quando a gente percebe que o que queremos está dando certo, aí mesmo é que temos que investir. No final do meu primeiro ano de trabalho, em uma outra companhia, já estava tocando dois projetos meus, um deles em uma das áreas mais prestigiadas dos Hamptons, em uma casa de 2 mil metros quadrados e um jardim de 16 mil metros quadrados. A família viu que estava dando muito certo, então, todo mundo estimulou.

Donna – Qual o momento mais prazeroso do seu dia?
Frederico –
Gosto de tudo o que eu faço. Nunca sonhei que a minha vida podia ser tão maravilhosa como é. Adoro trabalhar, estar com meus filhos, minha casa, meus amigos. Não tem algo principal. Cada momento é um grande momento e eu gosto de todos eles.

Donna – O ruidoso assassinato do milionário Ted Ammon, em 2002, ocorreu na mansão cujo jardim foi feito por você. Isso te rendeu notoriedade?
Frederico –
Não gosto de falar nisso, porque se falou nisso até demais. Quando eu criei o jardim para os Ammons, ele se tornou um ponto turístico em East Hampton. A Generosa (esposa do milionário assassinado) endossou todas as minhas ideias. Naquela época havia uma padronização nos jardins, uma ideia de que o branco deveria dominar tudo. Aí eu fiz completamente fora dos padrões, tudo em amarelo e vermelho. Tornou-se assim um ponto turístico, as pessoas iam para East Hampton para passar na frente do jardim, virou capa de revista, ponto de show de televisão, enfim. A partir daí a minha carreira ganhou um impulso muito grande e eu me tornei conhecido nacionalmente nos Estados Unidos. Mas pelo trabalho que foi feito no jardim, não pelo crime que ocorreu na casa um tempo depois. A desgraça da família não beneficiou em nada o meu trabalho. Aliás, só tenho coisas boas para falar deles. Generosa era uma pessoa espetacular. Tínhamos encontros às 6h da manhã para decidir as questões do jardim. Como estava lá neste horário, via que ela mesma fazia o café da manhã para os filhos. O Theodore era um homem extremamente envolvido com arte, era um dos diretores do Lincoln Center. Eram pessoas de uma sensibilidade maravilhosa. Agora, a gente não pode saber porque uma desgraça dessas acontece. Minha experiência com eles foi maravilhosa.

Donna – Esse reconhecimento e esse nível de excelência seriam possíveis no Brasil?
Frederico –
Acho que sim. A chave é encontrar pessoas que tenham o mesmo entusiasmo que você. Com isso, não tem endereço para as coisas acontecerem. Não é o lugar que determina o que acontece ou não para você. A vida simplesmente acontece e você é o que você é.

Donna – Costuma vir a Porto Alegre?
Frederico –
Sim, vou agora para o Natal. Fico em Porto Alegre até o dia 27, depois vou para Punta. Minhas idas ao Brasil não são muito frequentes, vou quando há alguma razão.

Donna – Você tem uma filha adolescente, de 16 anos, moram juntos. Como é essa convivência, especialmente para uma pessoa que trabalha tanto?
Frederico –
Minha filha é a melhor pessoa do mundo, é a minha melhor amiga. É a pessoa mais inteligente que conheci na minha vida. É claro que nós dois sabemos os nossos limites. Certas coisas ela tem que engolir, outras quem tem que engolir sou eu. Se bem que acho que eu ando engolindo mais do que ela… (risos).

Donna – Os seus filhos conhecem as origens no Brasil?
Frederico –
Claro. Minha filha, por exemplo, ficou na casa da minha irmã em Florianópolis por duas semanas recentemente. Meu filho fez o trabalho final do High School sobre a reciclagem nas favelas do Brasil. Ele ficou um mês trabalhando no posto de reciclagem de uma favela aí em Porto Alegre.

Donna – Algum deles pretende seguir a sua carreira?
Frederico –
Os dois me ajudam muito e me admiram. Quando eles eram pequenos, íamos no cinema e, se aparecia algum jardim bonito eles diziam: “Pai, esse foi você que fez?”. Eles desenvolveram o bom gosto e o olhar apurado nas viagens que fazem para o mundo todo comigo, desde que nasceram. Mas talvez nenhum deles se torne paisagista. O Lorenzo está cursando a Business School e a Lydia está no segundo ano de High School. Ela quer ser engenheira.

Donna – Quais plantas te agradam mais para o paisagismo aqui no Rio Grande do Sul?
Frederico –
Eu gosto muito de hortênsias. É uma planta que se adapta muito bem nos jardins aí no Sul. E se elas são plantadas em massa, criam uma linha, criam abundância, são muito bonitas. Gosto também da azaléia, especialmente para ser plantada no começo da primavera, anunciando o início da estação. Gosto também de lantanas, por causa do aroma e da simplicidade como ela cresce, para ficar ao lado de plantas mais baixas. Também adoro lírios. Os pastos naturais – não a grama, mas os pastos nativos – ficam lindos quando misturados com as flores. Os pinheiros e as árvores frutíferas são espécies excelentes. E as figueiras, então? Se você tem uma figueira no jardim, você tem um monumento.

Terror no paraíso

Era simplesmente mais uma história excêntrica de milionários. O casal Theodore e Generosa Ammon se conheceram em função da relação dos dois com a arte. Casaram-se, adotaram gêmeos e viveram felizes em seu apartamento de luxo em Manhattan e na mansão que mantinham em East Hampton. Um belo dia, decidiram se separar. O divórcio, por envolver uma mega fortuna, foi ruidoso. E, de quebra, Generosa se envolveu com um eletricista, Daniel Pelosi, que prestava serviços na casa da família. Um dia antes de selar definitivamente o acordo de separação, Theodore apareceu morto na mansão numa tarde de sábado, em outubro de 2001. Para piorar a situação, três meses depois, Generosa se casa com o eletricista.

Apesar das longas investigações, a polícia encontrou poucas pistas do assassino.Em 2003 Generosa morreu, vítima de um câncer. Cerca de um ano depois da morte dela, Pelosi foi condenado pela morte de Ted Ammon. Ele ainda está em uma prisão de segurança máxima nos Estados Unidos.

 

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