Conheça os benefícios do cambará, a planta que cura

Pesquisadores estudam as propriedades da folha da árvore típica da Serra catarinense

Pesquisa liderada por Valfredo Schlemper comprovou eficácia da folha
Pesquisa liderada por Valfredo Schlemper comprovou eficácia da folha Foto: Alan Pedro

Difícil quem nunca ouviu da avó dicas de receitas “infalíveis” à base de plantas que nascem no quintal de casa para curar este ou aquele problema de saúde. Muitas não passam de crendices. Mas outras são estudadas e surpreendem por suas propriedades medicinais eficientes.

Foi por isso que pesquisadores da Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac), de Lages, resolveram estudar o cambará, árvore existente apenas nas florestas de araucária da Serra de Santa Catarina e que está em extinção devido ao uso descontrolado da sua madeira para a construção de cercas em propriedades rurais. A folha do cambará também é utilizada há séculos pelo povo da região como remédio para dores abdominais, crises respiratórias e obstrução nasal.

Assim, liderados por Valfredo Schlemper, professor de Farmacologia nos cursos de Medicina, Biomedicina e Psicologia na Uniplac, os pesquisadores foram em busca desta planta a fim de desmitificá-la, identificar suas possíveis propriedades medicinais e se realmente tem a eficácia que os moradores acreditam ter.

Os estudos iniciaram há três anos e, há alguns dias, chegaram a uma importante etapa, foi comprovado cientificamente o que os leigos já suspeitavam muitos anos atrás: a folha do cambará tem poder contra problemas abdominais e respiratórios.

Foram colhidos 150 quilos de folhas da árvore em uma fazenda no município de Bom Retiro e, deste total, obteve-se 80 miligramas do princípio ativo da planta. Um porquinho-da-índia, utilizado desde o século 19 pelos cientistas como modelo para sugerir os efeitos dos sistemas gastrointestinal e respiratório dos humanos, serviu de cobaia.

Em laboratório, partes do intestino do animal foram retiradas e mantidas vivas em cubas com um líquido que contém todas as propriedades do plasma sanguíneo. Contrações intestinais (cólicas) foram simuladas com mediadores químicos provenientes de proteínas produzidas pelo corpo humano. Estes mediadores foram colocados no intestino e, depois, aplicado o extrato da folha do cambará.

E aí está a grande conquista. A partir de um software específico, os pesquisadores constataram que a atividade antiespasmódica no intestino é maior com a aplicação do extrato da folha do cambará. Em outras palavras: o secular remédio popular da Serra Catarinense faz efeito.

? Não existe comparação do extrato da folha do cambará com medicamentos, e sim, com um padrão que simula o ambiente humano. E o resultado é positivo ? diz Samuel Freitas, acadêmico do quarto ano de Medicina e um dos pesquisadores do projeto.

Estudo é reconhecido nos EUA
Por VALFREDO SCHLEMPER, pesquisador

Comprovadas as propriedades medicinais da folha do cambará, os pesquisadores da Uniplac enviaram o estudo a revistas científicas especializadas em farmacologia de produtos naturais. Um destes veículos, a Research Journal of Medicinal Plant, dos Estados Unidos, aceitou o resultado e o publicará em sua edição de 2011.

As próximas etapas do estudo consistem em provocar asma farmacológica em camundongos para analisar se o extrato de folha do cambará é tóxico ou não e, depois, realizar os testes em humanos para saber quais são os efeitos colaterais.

Mas chegar a esta etapa pode levar muito tempo. Para o professor de Farmacologia Valfredo Schlemper, vai depender de investimentos, incentivos e de políticas públicas, como o Plano Nacional de Fitoterápicos do Ministério da Saúde, que incentiva a pesquisa científica no Brasil e prevê que até 2015 pelo menos duas plantas de cada bioma brasileiro resultem em fitoterápicos reconhecidos.

? O objetivo maior é que o possível medicamento à base do extrato da folha do cambará seja aplicado nos humanos via oral. Mas até chegarmos a este ponto é necessário um trabalho que envolve uma equipe multidisciplinar, com médicos, farmacologistas e químicos ? diz Schlemper.

O pesquisador garante que os medicamentos à base de plantas são eficazes, tanto que 40% do que existe atualmente nas farmácias vem de plantas. Além da folha do cambará, Schlemper estuda, desde 1996, as propriedades medicinais de outras plantas nativas da Serra Catarinense, como o pinheiro araucária, que pode ser um importante anti-inflamatório.

  • Debmota

    Olá,achei muito interessante a pesquisa com o Cambará. Ocorre que em meu estado (Minas Gerais) há uma espécie com mesmo nome popular Cambará porém com características distintas da espécie mostrada na foto da matéria. Gostaria de saber o nome científico para comparação das espécies.

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