Conheça os riscos e os benefícios do uso de plantas medicinais

Irmã Aracy estuda propriedades de plantas medicinais há 15 anos
Irmã Aracy estuda propriedades de plantas medicinais há 15 anos Foto: Charles Guerra

Otratamento de inúmeras doenças – de tosse a câncer – passa pelas plantas medicinais, e há quem diga que é delas que virá a cura para a Aids. A confiança na natureza para o combate aos males do corpo remonta à pré-história e se reforça a cada vez que colhemos uma erva para tomarmos um chá digestivo, por exemplo. Esse hábito está tão arraigado a nossa cultura, que poucas vezes nos questionamos se ele poderia trazer alguma consequência negativa a nossa saúde.

Ervas que curam

Imagine-se vivendo num planeta onde não há analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios ou anestésicos, mas onde existem quase todas as doenças dos dias de hoje. Não é difícil formar uma ideia: os primeiros seres humanos estavam vulneráveis e indefesos às moléstias que surgiam e à dor que elas causavam. Até que um dia, um deles começou a testar as abundantes plantas das florestas no combate a esses males (no processo, descobriu as que têm propriedades alucinógenas, mas isso é outra história).

No Brasil, que tem uma das mais ricas biodiversidades do planeta, especula-se que o uso das plantas medicinais tenha começado com os primeiros habitantes indígenas, há 12 mil anos. Sabe-se que, desde 3.000 a.C., os nativos da ilha de Fiji já socavam a planta kava kava (Piper methysticum) em pequenos pilões e misturavam com água.

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A beberagem, acreditavam, tinha efeito calmante. As gerações seguintes seguiram usando a planta, mas os céticos alegavam que não havia provas de sua eficácia. Não houve até o início do século 20, quando cientistas alemães estudaram a propriedade da kava kava e comprovaram que seu extrato tinha mesmo efeito no combate à ansiedade. O uso da kava kava pelos habitantes de Fiji é um dos mais antigos registros do apreço dos humanos pela fitoterapia. A palavra, que vem do grego, significa cura pelas plantas, e dá nome à ciência considerada a precursora da medicina moderna.

Os séculos passaram, os medicamentos alopáticos (remédios tradicionais) se desenvolveram e se modernizaram, mas a humanidade nunca mais deixou de lado o hábito ancestral de ver na natureza uma farmácia viva. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população mundial faz uso da fitoterapia. Isso sem falar no uso de produtos à base de ervas, como medicamentos, suplementos, alimentos e cosméticos. Só no Brasil, o setor fitoterápico movimenta R$ 1 bilhão por ano, tem cerca de 200 empresas e emprega mais de 100 mil pessoas. Mas, em geral, as plantas medicinais são consumidas na forma de chás caseiros, à base de folhas, caules e raízes de plantas.

No Rio Grande do Sul, macela (Achyrocline satureioides), espinheira-anta (Maytenus ilicifolia), capim-cidreira (Cymbopogon citratus), hortelã (Monarda punctata), sene (Cassia angustifolia) e guaco (Mikania glomerata) estão entre as mais populares para tratar dores de estômago, má digestão, prisão de ventre e gripe. Mas boa parte dos usuários não sabe como preparar um chá dessas plantas, não as reconhece in natura e desconhece o fato de que o uso frequente de uma delas pode causar abortos e de outra, câncer.

– Existe uma crença disseminada de que aquilo que é natural não faz mal, mas os piores venenos vêm da natureza. Quase todos os remédios tradicionais também vêm de plantas. Boa parte dos tratamento de câncer é feito com medicamentos que têm princípios ativos naturais. Ou seja, natural não significa inofensivo – adverte João Ernesto de Carvalho, professor do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da Universidade de Campinas (Unicamp).

Não tenha medo, tenha cuidado

F oi uma febre. Em meados dos anos 80, desembarcou no Brasil uma planta natural da Rússia que, diziam, era sucesso no Japão graças a seu potencial como emagrecedor, desobstrutor do sistema circulatório, regulador de funções intestinais e de problemas respiratórios, cicatrizante e calmante. Como se não bastasse, a maravilha de longas folhas baixava a pressão arterial e ainda curava a anemia.

O frenesi durou até o início dos anos 90, quando cientistas ingleses revelaram que a erva continha alógenos tóxicos que podiam causar problemas gravíssimos no fígado, de cirrose a câncer. Todas os remédios feitos com confrei sumiram das prateleiras e quem tinha o hábito de usá-lo no chá ou chimarrão tomou um belo susto.

O professor da Unicamp João Ernesto de Carvalho diz que há duas plantas bastante populares no Rio Grande do Sul que podem – se tomadas continuadamente – causar efeitos de gravidade semelhante a do confrei. Uma é o sene.

– Em uso prolongado, além de diarreia, o sene pode causar câncer. Ele irrita a mucosa intestinal e pode causar mutação celular, assim como a cáscara-sagrada. Isso sem falar que o intestino pode ficar dependente dessas subastâncias e parar de funcionar – afirma o pesquisador.

Carvalho ainda alerta que as gestantes devem evitar os “chazinhos”. O de espinheira-santa, por exemplo, poderia ser fatal para a vida do feto, e há outras dezenas de vegetais que não passaram por estudos toxicológicos. Por isso, é fundamental que futuras mamães e doentes crônicos sempre perguntem ao médico se podem usar essa ou aquela planta medicinal. Isso porque podme haver substâncias presentes nas ervas capazes de interagir negativamente ou até anular o efeito das drogas.

– Hipertensos e diabéticos em geral usam chás diariamente, mas não contam ao médico. Mas aí o remédio para de fazer efeito ou dá uma reação adversa e não se sabe o motivo. Isso acontece muito – diz o pesquisador.

Outra precaução saudável para o usuário é conhecer, além da aparência, o nome científico das plantas com que faz chá.

– Existem plantas diferentes com o mesmo nome, e uma mesma planta com diversos nomes populares, de acordo com as regiões. Conhecendo os nomes científicos e a planta, evita-se fazer o uso errado – diz Giovana Fernandes, do Conselho Regional de Farmácia, acrescentando que a identificação das plantas pode ser realizada pelo farmacêutico, botânico ou engenheiro agrônomo.

Também é importante saber a procedência da planta. Onde foi cultivada? Recebeu agrotóxicos ou sofreu algum tipo de contaminação? Foi colhida na época certa e adequadamente acondicionada? Tudo isso pode interferir na qualidade do chá e, consequentemente, no benefício que trará a quem o bebe. Por essas e por outras, o clínico geral Adair Marques é seletivo em matéria de fitoterápicos.

– Acho válida a fitoterapia como forma de complementar os tratamentos, mas geralmente a prescrevo em forma de cápsulas ou tinturas. Não sou contra as ervas, mas desde que sejam de boa origem, que tenham sido colhidas na época certa, que tenham sido bem-acondicionadas, e o chá tenha sido preparado corretamente – explica o médico.

Do jeito certo, funciona

O fato de o uso de ervas medicinais in natura exigir uma série de cuidados não invalida a ideia. Afinal, é mais saudável (e econômico) tratar aquele incômodo probleminha com gases com chá de funcho. Sabendo disso, o Ministério da Saúde aprovou, no ano passado, o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que deve ser implantado em todas as cidades brasileiras nos próximos 10 anos.

O modelo prevê a implantação de hortas para cultivo de plantas medicinais – estudadas e aprovadas pelo governo –, com cuidados específicos para cada espécie vegetal, e nas quais os ataques de pragas seriam controlados de forma orgânica, já que a lei não permite uso de venenos nesse tipo de cultivo. Profissionais das áreas da botânica, agronomia e farmácia garantiriam a qualidade das espécies desde o plantio à entrega ao consumidor, que teria a certeza de receber a planta correta.

Coisa similar ocorre, há seis anos, no Centro Social Madre Francisca Lechner, na Nova Santa Marta. No local, a irmã Araci Langer, 67 anos, cultiva plantas medicinais que são distribuídas para as famílias pobres que necessitarem delas. Anos atrás, a religiosa fazia ainda mais: ensinava as moradoras a preparar chás, pomadas e xaropes com os vegetais. A lida com medicamentos naturais é coisa de família, conta a irmã.

– Meu avô era farmacêutico naturalista, formado na Alemanha, e passava esse conhecimento para a gente. Meu pai foi pelo mesmo caminho e eu, pela necessidade da missão, comecei a pesquisar, ler e fazer cursos sobre o tema há 15 anos – conta irmã Araci.

A religiosa, que também ensina mães da região a prepararem a multimistura (composto alimentar feito de folhas desidratadas, sementes e farelos capazes de cuprir carências nutricionais), afirma que é importante que atentemos para o fato de que pessoas bem nutridas adoecem menos.

– Temos de evitar a doença e não apenas tratá-la. O meu princípio é que o teu alimento seja o teu remédio, e que o teu remédio seja o teu alimento. É preciso comer alimentos vivos, verduras, frutas, sementes, evitar produtos industrializados, cuidar bem de nosso organismo. No caso de ele ficar doente, podemos contar com a natureza para a cura – ensina.

Conforme irmã Aracy, as famílias pobres da região da Nova Santa Marta costumam apelar bastante para ervas como o poejo, que tem propriedades antitérmicas e a trançagem, que atua nas vias aéreas e, diz irmã Aracy, tira a vontade de fumar.

– O pessoal daqui diz que é tiro e queda – conta a irmã.

Confira ao lado algumas receitas simples que a religiosa ensina.

Dicas
– Ao fazer um chá, nunca ferva as folhas. Jogue água fervida sobre elas e deixe em infusão por até 5 minutos. Depois, coe
– Talos de plantas, em geral, podem ser fervidos
– Prefira adoçar o chá com mel, que é mais saudável e tem propriedades anti-inflamatórias
– Só colha ervas em dias de sol. Isso diminui a chance de surgirem fungos
– Deixe as folhas secarem à sombra e guarde dentro de embalagens de vidro bem fechadas
– Não guarde chás prontos em recipientes de plástico. Prefira os de vidro, que conservam melhor e não liberam polímeros na água
Receitas da irmã Aracy*
Para parar de fumar
Ingredientes
– 4 galhos de trançagem seca
– 4 xícaras de água
Preparo
– Em uma vasilha, coloque 4 galhos secos, com folhas e talos. Despeje sobre eles a água fervente. Tampe a vasilha e espere a água amornar. Coe e beba
Dose: tome uma xícara a cada hora e vá diminuindo a dose até que diminua a vontade de fumar
Para inflamações no sistema urinário, garganta e dentes
Ingredientes
– 1 l de água
– 1 folha de malva
Preparo
– Ferva a água e jogue sobre a folha de malva. Deixe-a em infusão por 20 minutos. Coe
Dose: beba, no lugar de água, durante o dia
Xarope para tosse
Ingredientes
– 1 prato raso coberto com folhas de trançagem verde
– 2 xícaras de mel
Preparo
– Cubra o prato de folhas com mel e coloque no forno até que os vegetais soltem o pigmento verde. O processo leva, pelo menos, 20 minutos
– Deixe amornar
– Recolha o líquido do prato e guarde em um frasco
Dose: 1 colher de sopa três vezes ao dia (adultos) e 1 colher de sobremesa a cada 6 horas (crianças)
Para pressão alta
Ingredientes
– Folhas de mandioca
– Água
Preparo
– Coloque as folhas de mandioca em uma forma e leve-as ao forno. Deixe-as tostarem até ficarem no ponto em que, se pressionadas, virem pó. Deixe esfriar
– Bata as folhas torradas no liquidificador até que fiquem parecidas com erva-mate fina
– Jogue uma pitada desse pó em uma xícara de água fervendo. Deixe em infusão por 15 minutos. Beba o chá aos poucos
Para baixar
o colesterol
Ingredientes
– 1 folha de couve
– 2 xícaras de água fervendo
Preparo
– Despeje a água fervendo sobre a folha e deixe-a em infusão por 15 minutos. Coe
Dose: beba 1 xícara após o almoço e outra após a janta
Para aliviar
cólicas menstruais
Ingredientes
– 1 galhinho de hortelã
– 2 xícaras de água
– Mel
Preparo
– Despeje a água fervendo sobre o galho de hortelã e deixe-o em infusão por 15 minutos. Coe e adoce com mel
* Avise ao seu médico sobre o tratamento natural

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