Conhecido no cinema e no teatro, João Miguel estreia na TV na novela Cordel Encantado

Ator foi o protagonista do filme 'Estômago' e atuou em 'Cinema, Aspirinas e Urubus'

Baiano João Miguel é contemporâneo dos atores Lázaro ramos e Wagner Moura
Baiano João Miguel é contemporâneo dos atores Lázaro ramos e Wagner Moura Foto: Divulgação

Quando o ator João Miguel Serrano Leonelli, 40 anos, aboliu seu sobrenome do nome artístico, teve de ouvir do pai um “quem não tem sobrenome não existe”. Ele rebateu: “E o Pelé. E o Didi?”. O debate acabou ali. À vida, João Miguel também sempre teve resposta na ponta da língua, quando encarou obstáculos na carreira: participou de vários grupos teatrais, virou palhaço, escreveu roteiro para TV. Mas os argumentos mais arrebatadores ainda estão por vir: montou o solo Bispo (2001), que rodou o País por cinco anos, e brilhou no filme Cinema, Aspirinas e Urubus (2005).

Baiano, nascido em Salvador, numa família de classe média. Por parte do pai, publicitário, é tataraneto de um anarquista italiano, que se casou com uma negra, filha de africanos.Por parte da mãe, artista plástica, veio a herança espanhola. Agora, ele está prestes a estrear numa novela, Cordel Encantado próximo folhetim das 6, da Globo ? no papel do cangaceiro vaidoso Belarmino. Solteiro, o baiano, que há oito anos mora em São Paulo, falou à reportagem, por telefone, do Rio de Janeiro ? onde tem ficado mais tempo por causa das gravações da novela.

Diário Catarinense ? Você já fez várias participações na TV. Por que demorou para aceitar fazer uma novela?

João Miguel ? Acho que ofício de ator é feito de ciclos. Até pouco tempo, eu estava vivendo um ciclo forte com cinema. Quando eu recebi convites para fazer trabalhos em TV, não foi possível juntar a agenda por causa desses compromissos com cinema.

DC ? No Brasil, a TV parece dar aos atores estabilidade financeira maior. Isso pesou na sua escolha?

João Miguel ? Não pesou para mim. Para quem faz TV há mais tempo, isso deve acontecer. Mas acho que a ideia para qualquer ofício ligado às artes é que você possa ser bem remunerado, possa ter um espaço. A TV é consolidada nesse sentido. O cinema vai caminhar para isso. Mas me sinto um privilegiado por ter vivido de cinema esses anos todos.

DC ?Houve algum momento na carreira em que você teve de ter outro emprego para se manter?

João Miguel ? Tem um período na vida que não é fácil, principalmente no início da carreira. Na Bahia, quando era palhaço, eu tinha de fazer peças de teatro com outros grupos, escrevia para um programa de TV voltado à comunidade negra baiana, fazia várias coisas ao mesmo tempo.

DC ? Onde você cresceu?

João Miguel ? Em Salvador e ficava muito também em Itaparica (Bahia), nas férias. Teve um período em que a gente ficou mais tempo, na época da ditadura. Meu pai é muito envolvido com a política, foi ligado à esquerda.

DC ? Teve problemas na ditadura?

João Miguel ? Sim, teve problemas, normal. Não houve situações traumáticas. Mas não deixei de entender, muito pequeno, o momento histórico que eu estava vivendo.

DC ? Foi uma infância criativa?

João Miguel ? Acho que sim. Gostava e gosto muito de desenhar. Não foi tão explícito, mas, de alguma maneira, meus pais me inspiraram.

DC ? Você participou de um programa de TV, aos dez anos, certo?

João Miguel ? Sim, foi no Bombom Show, de Nonato Freire (TV Itapoan). Eu tinha feito uma peça antes, Cavalinho Azul, aos nove anos. Eu morava no mesmo prédio da Nilda Spencer, grande atriz baiana, e Nonato era amigo dela. Ele me via já fazendo personagens e me chamou. Ele fez um programa tão legal que durou pouco, porque era muito anarquista. Parecia que fazia parte do universo de criança. Não era um trabalho.

DC ? Foi lá que você entrevistou o cineasta Glauber Rocha?

João Miguel ? Sim. Eu disse pra ele: “Vou lhe perguntar uma pergunta”. E ele falou: “Vou lhe responder uma resposta”. Aí eu disse: “Ih, fiz alguma coisa errada”. E ele: “Não. Está tudo certo”. Não esqueço disso. Ele quis dizer: acredita nisso que vai dar certo. Isso diz muito respeito ao meu trabalho.

DC ? Seus pais aceitaram que você participasse desse programa?

João Miguel ? Sim. E depois tiveram de entender que aquilo virou opção de vida. Para eles, não foi complicado. Foi complicado para mim, porque, ao optar por fazer arte, você tem de saber como vai sobreviver.

DC ? Para onde você foi após o fim desse programa na TV?

João Miguel ? Segui numa companhia de teatro. De 17 para 18 anos, fui para o Rio, para fazer uma escola de teatro, a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). Pela primeira vez, passei a estudar essa coisa do ator e encontrei o ator Luiz Carlos Vasconcelos.

DC ? O que aconteceu após esse encontro com o Luiz Carlos?

João Miguel ? Luiz é palhaço. Já tinha uma tese voltada ao riso. Aí, criamos um grupo dentro dessa experiência. Depois, fui para João Pessoa. Ficamos um ano e meio trabalhando na pesquisa de um espetáculo que acabou não saindo. Daí, voltei para Salvador, onde fiz experiências teatrais com a contribuição de outros grupos. Atores que admiro desse movimento de teatro da Bahia. Toda uma geração que está aí.

DC ? Lázaro Ramos e Wagner Moura pertencem a essa geração?

João Miguel ? Sou um pouco mais velho do que eles. Mas somos contemporâneos, nos cruzamos em projetos. Fiz uma peça com Lázaro, quando ele tinha 15 anos. Substituí o Wagner numa outra peça.

DC ? Como você chegou até o cinema, onde já fez sucesso em vários filmes de boa bilheteria?

João Miguel ? A partir da peça Bispo, que abriu portas. O Marcelo (Gomes, cineasta) viu a peça. Entrei em Cinema, Aspirinas e Urubus, que considero um dos melhores filmes que já fiz.

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