Coragem para assumir a bipolaridade

Atriz Catherine Zeta-Jones assumiu recentemente ter transtorno bipolar

Atriz, que teve inúmeros altos e baixos durante sua carreira, está internada para tratamento psiquiátrico
Atriz, que teve inúmeros altos e baixos durante sua carreira, está internada para tratamento psiquiátrico Foto: MARK J. TERRILL, AP

Catherine Zeta-Jones, famosa por atuar em filmes como Traffic e Chicago, assumiu recentemente ter transtorno bipolar. A atriz britânica faz parte de 10% da população mundial portadora doença e teve coragem de confirmar à imprensa mundial que passou cinco dias em um hospital psiquiátrico em Connecticut, nos Estados Unidos, para se tratar do problema.

Por ter origem genética mesclada com fatores ambientais, o transtorno psiquiátrico pode ser desenvolvido desde o nascimento ou ao longo da vida. Conviver com os sintomas de altos e baixos no humor não é nada agradável. Atitudes como a de Zeta-Jones são capazes de auxiliar no esclarecimento de tabus da doença e encorajar na busca por um tratamento. Para a psiquiatra Marcia Kauer-Sant’Anna, é importante que famosos falem sobre o assunto.

? Quando a população vê que uma mulher bonita, talentosa e de destaque mundial pode ter transtorno bipolar, se tratar e ficar bem, fica mais fácil que outras pessoas vençam a vergonha e busquem auxílio ? afirma Márcia, que supervisiona o Programa de Atendimento do Transtorno Bipolar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
O psiquiatra e autor do livro Temperamento Forte e Bipolaridade (2004), Diogo Lara, explica que a população em geral tem o controle sobre o próprio humor. Em pessoas que têm o transtorno, é como se este termostato do humor se desregulasse.

? Quando isso acontece, ser internado é a melhor opção. Quando não controladas, essas pessoas sofrem um risco de exposição moral ? destaca o médico.

O relato de quem viveu

“Tive apenas um surto em toda a minha vida. Ele durou dois meses e não passou da euforia. Depois de fazer compras exageradas, desfazer uma sociedade de 14 anos que me dava um alto padrão de vida e beber até cair em festas, cheguei ao fundo do poço. Em uma madrugada de junho de 2004, desmaiei de bêbado na rua e fui encontrado por policiais no bairro Bom Fim. Eles acharam meus documentos e contataram a minha família. Fui internado em uma clínica psiquiátrica e recebi o diagnóstico de Transtorno Bipolar. Fiquei muito triste, ainda mais quando me dei conta de todas as coisas que havia feito. Depois que tive alta, segui o tratamento com medicação e psicoterapia. Desde que se desencadeou o surto, se passaram sete anos e nunca deixei de fazer o tratamento de tanto medo que tenho de passar por uma nova crise. Faço exercícios físicos diariamente e me sinto melhor. Perdi tudo o que tinha por conta dessa doença, mas me sinto melhor, pronto para continuar. Em maio mesmo inicio um novo trabalho.”*

* Publicitário de 40 anos, morador de Porto Alegre

A doença

:: Existem dois tipos principais da doença. O tipo 1 é o mais comum e tem como característica o excesso de euforia, que pode se manter por horas ou semanas em alta. Depois de extrapolar todos os limites, a energia baixa e se inicia a depressão. No tipo 2, é a depressão que se sobressai e os sintomas começam por ela, sem a obrigatoriedade de apresentar a euforia em seguida.

:: Atinge igualmente a ambos os sexos.

:: Em geral, o paciente leva dez anos e passa por três médicos até que tenha diagnóstico e tratamento correto.

Características

:: Euforia
:: Irritabilidade
:: Grandiosidade
:: Pensamento acelerado
:: Fala rápida
:: Gastos excessivos
:: Desorganização
:: Delírios
:: Alucinações
:: Depressão
:: Humor deprimido
:: Perda do interesse e do prazer
:: Alteração do apetite
:: Alteração do sono
:: Fadiga
:: Retardo psicomotor
:: Sentimentos de que não vale nada e culpa
:: Diminuição da concentração

Tire suas dúvidas

:: O que pode desencadear a bipolaridade?

A história familiar de Transtorno Bipolar, principalmente em parentes de primeiro grau, aumenta o risco para o desenvolvimento de sintomas de humor, especialmente no tipo I. Elementos como a morte de um ente querido, rompimento de relacionamento, perda do emprego ou crise financeira podem contribuir para o aparecimento de sintomas de depressão e ansiedade, ou até mesmo de euforia em quem tem predisposição para desenvolver a doença.

:: Ocorre de forma gradativa?

A idade média de início é de 18 anos para o tipo 1 e 22 anos para o 2. O transtorno se inicia com pequenas flutuações de humor que podem durar dias ou semanas, antes de caracterizar um episódio depressivo ou eufórico mais evidente. A fase depressiva é semelhante ao de uma depressão comum. Já, o episódio maníaco é geralmente precedido por um breve período de aumento de energia, impulsividade e elevação do humor.

:: Como tratar?

Com medicamentos que podem ser administrados sozinhos ou em combinações de estabilizadores do humor, antidepressivos e antipsicóticos, dependendo do caso. A psicoterapia é um tratamento complementar e tem como objetivo a melhora da adesão ao tratamento medicamentoso, manejo de sintomas, prevenção de recorrências, melhora no relacionamento social e na qualidade de vida.

:: Tem cura?

Após o primeiro episódio de euforia, metade dos pacientes terão sintomas de humor recorrentes no primeiro ano, especialmente de sintomas depressivos. Ao longo da vida, a chance de apresentar recorrência dos sintomas é de 90%. O remédio reduz essa chance, mas ainda não se pode falar em cura.

Outros famosos bipolares

:: Os escritores Agatha Christie, Virginia Woolf e Ernest Hemingway.
:: Os músicos Cazuza, Elvis Presley, Janis Joplin e Jimmy Hendrix.
:: No cinema, Robin Williams, Jim Carrey, Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor.

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