Costanza Pascolato abre a intimidade em seu novo livro

Costanza mescla reflexões e depoimentos pessoais com dicas de moda e estilo
Costanza mescla reflexões e depoimentos pessoais com dicas de moda e estilo Foto: Vânia Toledo, divulgação

Em uma noite de 1978, em um hotel de Gramado, a ficha de Costanza Pascolato finalmente caiu. Estava na Serra para fotografar uma produção de moda inverno para a revista Claudia, acompanhada de seu assistente (e futuro estilista) Reinaldo Lourenço e do fotógrafo J.R. Duran. E ela, então, era a editora de moda que a custo de anos de trabalho sério havia provado do que era capaz aos colegas de redação, a despeito de seu “layout de dondoca”. Mas ainda estava longe de se sentir uma referência de estilo no mundo da moda – e além dele.

Então, ao telefonar para um dos colegas, em outro quarto, Costanza ouviu por uma linha cruzada o telefonista do hotel falar para um amigo:

– Tu não sabes quem está aqui! A Costanza Pascolato.

Só então percebeu que seu trabalho e nome eram mesmo conhecidos Brasil afora. A história é narrada em Confidencial, Segredos de Moda, Estilo e Bem-viver (Jaboticaba, 240 páginas, R$ 45), terceiro livro da consultora de moda, sócia da renomada tecelagem Santa Constância e colunista da Vogue Brasil. Como anuncia o título, a obra trata de tudo aquilo que Costanza conhece bem e sobre o que dá consultas o ano inteiro, mas vai além e traz um pouco da vida e das visões de mundo da mulher que completa 70 anos em setembro. Uma opção difícil, como ela contou em entrevista por telefone, de São Paulo, em uma brecha da concorrida agenda:

– Estava em um momento de gestação para uma nova fase, mais madura ainda. A natureza meio que estava me preparando: comecei a sentir umas dores… coisas que vêm com a idade, quando você vê que não é onipotente. Esse processo deu uma amadurecida bem quando conseguimos acabar o livro. Já o havíamos começado e abandonado várias vezes. Foi o Serginho (Sérgio Ribas, ex-redator- chefe da Vogue) que me deu o tom certo para ser meio confessional, contando o que sei, mostrando que a experiência trouxe tudo isso.

Costanza Maria Teresa Ida Clotilde Pallavicini Pascolato nasceu na Itália, em 1939, “numa família de gente inteligente, educada e interessante”, cercada de gente igualmente instigante – um de seus companheiros de brincadeira era o atual rei da Espanha, Juan Carlos. Com os pais, o irmão e a babá suíça, cruzou o oceano em 1945 e fixou residência em São Paulo. Foi uma adolescente curiosa, que lia todos os livros não recomendados para sua idade, apreciou a arte, apaixonou-se pelo cinema – chegou a ser convidada para fazer um teste em Hollywood, mas não sabe se foi a sério ou uma cantada – e, claro, sempre gostou de se vestir bem.

– Minha mãe é assim, papai era assim, vestia colete para não ficar em mangas de camisa em casa, no verão. Talvez eu tenha herdado isso, um certo formalismo na hora de me vestir. Mas também é uma aventura – conta.

Confidencial mescla reflexões e histórias de Costanza – a recusa a plásticas, a superação de um câncer de mama, o fato de ter desistido de namorar – e dicas e análises sobre moda e estilo (leia mais aqui). Mas o que se sobressai é a figura de Costanza em todo seu glamour e toda a sua simplicidade como mulher, mãe e avó – as sessões diárias de pilates para manter a forma, o gosto por viajar, o trabalho duro. Alguém que, como ela escreveu, tem uma constância na vida que a faz merecedora do próprio nome.

No livro Confidencial, a senhora comenta, com certa surpresa, a notoriedade que a acompanha há mais de 30 anos, mesmo sem ser atriz, cantora e pouco aparecendo na TV. Como se mantém por tanto tempo como referência de elegância e estilo?

Costanza Pascolato – Eu me surpreendo o tempo todo com o fato de continuar sendo de interesse para as pessoas. É algo que nem eu entendo, porque não faço coisas para aparecer. Mas desde pequena tenho esse olhar para a moda. Como já disse minha mãe (Gabriella Pascolato), desde os três anos eu olhava para o espelho e reclamava se havia alguma coisa de que não gostava – em uma época em que as crianças não tinham isso tão desenvolvido como hoje… Mas não sei como explicar. Justamente isso me atrapalhou ao escrever esse livro. Eu tinha o maior pudor: será que sou tudo isso? Será que tenho o que contar para as pessoas? Essas dúvidas tenho o tempo todo. Agora que ficou pronto o livro, fiquei mais calma. Mas sofri horrores, porque não sou assim, “exibidinha”… 

A senhora propõe simplificar a vida. Isso também vale para a “aventura diária de se vestir”?

Costanza – Sim. Tenho, por exemplo, três calças jeans pretas iguais – uma um pouquinho maior do que a outra para usar dependendo do dia… E dois pares de uma sapatilha que uso quase todo dia – estou com um problema no pé que não aguento mais salto. E essa coisa da organização do que vou vestir, só as partes de cima, que mudo muito. Mas a simplificação que cito é mais de enfrentar a própria vida. Dei uma boa limpada em minha casa há uns dois anos e agora de novo: tirei aquilo de menor qualidade e deixei o melhor, aquilo por que mais tenho carinho, por lembranças, por ter herdado de alguém querido… É uma espécie de feng shui da vida que fiz na casa e até nas amizades. E isso você só consegue com o tempo e a maturidade.

A senhora escreveu: “A partir de uma certa idade, não vi mais sentido em ter um romance”. Isso faz parte desse processo de simplificação?

Costanza – Acho que sim. Tive a sorte de conviver com quatro pessoas fabulosas – o que já é bastante para a vida de alguém –, que deram uma amplidão para meus horizontes e me fizeram conhecer certos mundos. Com o Nelsinho (o produtor e compositor Nelson Motta) foi o showbiz, um plantador de café com quem estive por dois anos me ensinou tanta coisa da terra, da história do Brasil. Teve meu marido italiano, que morreu, e o pai das minhas filhas, de origem americana. Essas pessoas me completaram. Não tenho necessidade de procurar outra coisa a não ser eu mesma.

Roupas são um depoimento pessoal, ensina o livro. Neste momento da vida, o que suas roupas dizem?

Costanza – Precisaria me olhar de fora… Mas acho que estou centrada no que gosto, estou calma. Nunca fui exuberante, mas tem ali uma procura pelo equilíbrio da forma. Por mais que malhe, faça pilates, o corpo envelhece… Então, gosto do que me valoriza e tenha corte impecável. Não preciso ter 200 mil coisas, prefiro ter menos e melhor.

As pessoas, em geral, percebem a roupa como um depoimento?

Costanza – Não, estão sempre à procura da roupa para cumprir um papel, acham que, ao vestir uma determinada roupa, vão ficar lindas, seguras e não mais sós (risos). Quando trabalhava na revista Claudia, nos anos 1970, época do feminismo, lia o que Carmem da Silva (jornalista gaúcha que assinava a coluna A Arte de Ser Mulher, pioneira ao abordar temas tabu para a época, como virgindade) escrevia para fazer editoriais de moda a ver com aquela nova mulher. E recebia cartas emocionantes, falando de solidão… E aí comecei a entender: todo mundo se sente inseguro e aí tem medo de mostrar sua personalidade. Então, copiam atrizes da Globo, de Hollywood, por achar que são reais. E não são. Estão copiando uma imagem irreal.

Estilo começa com autoconhecimento, ensina o livro.

Costanza – Olhar-se no espelho é um problema, porque você vê o que quer. Coloca um vestido e, em vez de se ver, pensa: “Ah estou quase igual àquela mulher que usou algo parecido”. Ter estilo é o que faz com que você escolha sempre o que é melhor para você das propostas anuais, mensais: aquilo que é você e o melhor de você.

O capítulo “Sessenta nove, sim”, revela sua idade. O que acha de quem esconde quantos anos tem?

Costanza – Não entendo, mas respeito. Nunca tive pudor em dizer minha idade. E é como uma referência para mim até para dizer: “Calma lá, você está querendo fazer demais”. Não quero embarcar em aventuras irreais, a vida já é bastante irreal (risos). E também não tenho coragem de fazer plástica. Já fiz uma e fiquei meses e meses sem me reconhecer, e – juro – era uma coisa mínima. Prefiro que a natureza vá fazendo o que tem que fazer. Uns dias você está bem, em outros está pior, mas sempre é você, não uma outra pessoa.

E o que espera dos 70?

Costanza – Vou vivendo, dia após dia e recomeçando. Esse agora é meu lema.

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