Crenças populares sobre alimentação da mãe podem prejudicar a nutrição do bebê

Nutricionista esclarece que muitos mitos não tem respaldo científico e diz que a alimentação da mãe tem consequências no desenvolvimento da criança

Leite materno produzido nos primeiros dias após o parto é rico em anticorpos e confere imunidade ao bebê
Leite materno produzido nos primeiros dias após o parto é rico em anticorpos e confere imunidade ao bebê Foto: Daniel Marenco

As mães, principalmente as de primeira viagem, costumam ter dúvidas sobre como manter uma alimentação saudável durante e depois da gestação, e como isso pode influenciar a saúde do bebê em fase de amamentação.

Segundo a nutricionista Alice Mami Hayashi, a nutrição equilibrada da mamãe neste período tem consequências para o desenvolvimento do bebê em todas as etapas de sua vida.

Alice observa que as práticas alimentares das mulheres durante os períodos de gestação e aleitamento são influenciadas por diversos fatores, inclusive crenças, mitos populares e tabus que, em sua maior parte, não têm respaldo científico.

? O problema maior é que a restrição ou alteração da prática alimentar da futura mamãe em função desses mitos ou tabus pode provocar transtornos e carências nutricionais que irão interferir diretamente no crescimento e desenvolvimento do feto, bem como na lactação, que é a fase da produção e manutenção do leite materno ? ressalta.

Confira o que a nutricionista diz sobre alguns bastante mitos difundidos na sociedade:

:: Grávida come por dois e se o desejo não for atendido, o bebê vai nascer com alguma marca

Esse é um dos mitos mais populares que existem. Em algumas culturas acredita-se, inclusive, que a coloração de alguns alimentos pode manchar a pele do bebê, e que alimentos “quentes” podem provocar aborto. A analogia com o aspecto dos alimentos também exerce grande efeito na exclusão de alguns deles, como, por exemplo, acreditar que comer ovos faz com que o bebê nasça careca ou que comer pata de caranguejo provoca má-formação das pernas da criança.

? Não existem justificativas científicas para a exclusão desses ou outros alimentos durante a gravidez e a amamentação. É recomendável que o peso e o estado nutricional da gestante sejam acompanhados, para evitar que uma dieta inadequada resulte em obesidade ou desnutrição ? explica Alice.

:: Tudo o que a mãe ingere vai para o leite e pode fazer mal ao bebê

Muitas mulheres acreditam que o consumo de determinados alimentos pode provocar gases, cólicas e até assaduras nas crianças. No Pará, por exemplo, as grávidas evitam comer, em uma mesma refeição, carne e frutos do mar com receio de que isso faça mal. Em outras regiões do Brasil, as lactantes não amamentam nos primeiros dias após o parto porque acreditam que o leite materno é venenoso ao bebê. Na realidade, o leite materno produzido nos primeiros dias após o parto (colostro) é rico em anticorpos e confere imunidade ao bebê.

De fato, tudo o que a mãe ingere e o organismo metaboliza em parte chega ao leite materno. Porém, isto não significa que certamente fará mal ao bebê. 

? Com exceção do consumo de bebidas alcoólicas, não se encontra respaldo científico suficiente que justifique a restrição total do consumo de refrigerantes, alimentos com cafeína, aditivos ou gordura, frutas ácidas, abóbora, cebolinha, repolho, alho, couve-flor, aspargos, peixes, carne de porco, feijão, abacate, ovo, leite, chocolate, pimenta e temperos picantes, que podem ser consumidos moderadamente dentro de uma alimentação balanceada ? diz.

:: Comer canjica e beber cerveja preta aumenta a quantidade e fortalece o leite materno

Ao contrário do que muitos imaginam, não existe “leite fraco”. Todas as mulheres, mesmo desnutridas, produzem leite com a mesma composição nutricional, capaz de satisfazer as necessidades do recém-nascido.

Algumas crenças culturais ou familiares ressaltam a importância de consumir canjica, cerveja preta, leite, chá de folhas de algodoeiro, líquidos em abundância, mingau de arroz, caldos de galinha, feijão, peixe ou carne, açaí, sopa de fubá e arroz doce para auxiliar o aleitamento materno. 

? Contudo, não há explicações comprovadas de como seria a ação desses alimentos ? informa a nutricionista.

:: Criança com baixo peso ou prematura não deve ser amamentada

Todos os recém-nascidos, independentemente do peso ou da idade gestacional ao nascer, devem receber leite materno. 

? Bebês prematuros ou com baixo peso, que ainda apresentem capacidade limitada de sugar e mamar normalmente, podem ser amamentados com leite ordenhado da mãe ou de um banco de leite, oferecido com colher ou copinho, por exemplo.

:: Nos intervalos entre as mamadas é preciso dar água ao bebê

? O leite humano supre todas as necessidades do bebê nos primeiros meses, inclusive hídricas ? explica Alice.

Dar água, chás ou sucos ao bebê traz saciedade, levando à diminuição do número e da duração das mamadas, o que pode reduzir a produção do leite.

? Também pode causar diarreias e doenças no bebê, pois seu organismo ainda não está preparado para receber outro alimento que não seja o leite materno ? orienta a nutricionista.

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