Crianças de óculos e numa boa

Foto: Diego Vara

Ao contrário do que poderia se imaginar, crianças se adaptam rapidamente ao uso de óculos. Quem resiste, na maioria das vezes, são os pais, preocupados com um possível desconforto ou até estigmas criados a partir de piadas entre coleguinhas de escola.

– Normalmente, não precisamos fazer nada para que a criança aceite usar óculos. Se ela tem uma deficiência visual e começa a ver tudo nítido, normalmente, ela não vai querer tirá-los. Algumas não querem tirar nem para tomar o banho – conta a oftalmologista pediátrica Rosane Ferreira.

De óculos há um ano, Luciana Carvalho de Paulo, três anos, confirma a explicação da especialista. Com quatro graus de hipermetropia, a menina não desgruda do acessório.

– Nos primeiros dias, notamos que, ao assistir à TV, ela levantava e baixava os óculos, verificando a diferença na visão – recorda o pai de Luciana, Cesar Oliveira Rodrigues de Paulo.

O tratamento de Fernanda envolveu ainda o uso, por um ano, de tampões em um dos olhos – 12 horas por dia – e uma cirurgia para estrabismo, deficiência que foi corrigida.

– A gente não pode ficar com pena e deixar para resolver mais tarde, quando estiver maiorzinha. Ela fez a cirurgia de manhã e à noite já estava em casa. Uma semana depois, havia voltado à vida normal – lembra Cesar.

Na escola infantil onde passa a maior parte do dia, Luciana é organizada: guarda os óculos e volta a colocá-los após a hora do sono. E ainda recebe ajuda.

– Quando os óculos estão sujos, por exemplo, os colegas nos avisam. Nenhum deles a incomoda porque usa óculos – conta a professora Claudia Meira.

Não há uma idade mínima para o uso de lentes corretivas, mas o mais comum é a indicação de óculos a partir dos dois anos.

– Os óculos são indicados assim que é detectado o erro de refração significativo, que varia para cada idade. Portanto, se detectarmos um grau muito grande ou uma diferença de grau muito grande, podemos receitar óculos para o bebê mesmo antes de completar um mês de vida – explica Rosane.

Para o chefe do Setor de Oftalmologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Jacó Lavinsky, pais que não têm problemas de visão devem redobrar a atenção com os filhos.

– É comum esses pais acreditarem que seus filhos também não terão problemas. Ao deixar de se preocupar, podem adiar um tratamento importante sem querer – explica.

Tire suas dúvidas

A PARTIR DE QUE IDADE O USO DE ÓCULOS É INDICADO?

> Assim que for detectado um erro de refração significativo, o que varia de acordo com a doença e a faixa etária. Em alguns casos, pode ser indicado para um bebê com menos de um mês. A maioria passa a usar a partir de um ano ou dois.

COMO FAZER A CRIANÇA SE ACOSTUMAR?

> Geralmente, quem tem uma deficiência visual se sente confortável de óculos, pois passa a ver tudo nítido.

> Permita que ela ajude na escolha da armação.

> Em caso de resistência, insista no uso, mesmo com manha e choro.

> Os óculos devem estar sempre limpos. Se estiverem sujos ou arranhados, a criança perde o interesse.

PARA QUE SERVEM OS TAMPÕES?

> Para fazer a oclusão (fechamento) do olho bom ou do olho melhor, quando há uma diferença de visão entre o esquerdo e o direito. Tampa-se o bom para estimular o que está mais fraco (amblíope) a ser mais usado e se desenvolver melhor. Essa diferença pode ser secundária a um estrabismo (o olho desviado fica com atraso no desenvolvimento porque o cérebro o “desliga” para que a criança não tenha visão dupla).

POR QUANTO TEMPO SÃO NECESSÁRIOS?

> O tempo de oclusão varia conforme a idade e a gravidade do problema. Quanto menor a criança, mais rápido é o tratamento e menos horas por dia de oclusão são necessárias. Assim, consegue-se corrigir a ambliopia (ou o olho preguiçoso) de um bebê em poucas semanas, enquanto uma criança de cinco ou seis anos pode precisar de meses ou de até um ano de tratamento.

EM QUE CASOS É PRECISO RECORRER A CIRURGIAS?

> Na maioria dos quadros de catarata congênita, em quase todos os glaucomas congênitos e nos tumores intraoculares malignos (retinoblastomas).

> Além destas, malformações ou infecções congênitas que levem a opacificações do eixo visual podem também requerer tratamento cirúrgico.

A QUE SINAIS PAIS E PROFESSORES DEVEM ESTAR ATENTOS?

> Quando a criança aproxima ou afasta objetos do rosto para vê-los melhor.

> Senta-se muito perto da TV.

> Não enxerga o que está escrito no quadro-negro.

> Tropeça com frequência.

> Tem dificuldade para ler e escrever no caderno.

Como prevenir

> O primeiro exame a ser feito, antes da alta da maternidade, é o teste do olhinho, que virou lei em Porto Alegre com recomendação do Instituto Ver – Visão, Estimulação e Reabilitação, uma ONG que trabalha com a prevenção da cegueira infantil.

> Nos dois primeiros anos, a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica recomenda que um exame oftalmológico completo (com dilatação das pupilas) seja realizado a cada seis meses.

> A partir daí, os exames devem ser feitos anualmente, até a criança completar 10 anos.

Fique atento

> Doenças como a catarata congênita (muitas vezes causada por infecções como a rubéola), o glaucoma congênito e o retinoblastoma (tumor maligno que pode levar à morte) podem causar cegueira.

> Hipermetropia, miopia e astigmatismo são comuns em todas as idades.

> Quando há uma diferença muito grande de grau entre os olhos, a criança pode sofrer de ambliopia (olho preguiçoso). Ela passa a enxergar apenas com o olho mais sadio e o outro não se desenvolve, podendo ficar assim para o resto da vida.

> O estrabismo (desvio dos olhos) também é frequente.

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