Crianças devem ser transportadas com carinho e atenção

Sorriso e sono podem ser estimulados de acordo com o modo que as crianças são carregadas

Conversar com as crianças durante o passeio é essencial para melhorar a comunicação
Conversar com as crianças durante o passeio é essencial para melhorar a comunicação Foto: Diego Vara

Diante do desfile de celebridades carregando carrinhos de bebês sofisticados, Liz Attenborough, criadora de Talk to Your Baby, uma campanha da National Literacy Trusts (NLT), no Reino Unido, começou a se preocupar com a maneira com que os pais transportam seus filhos. Não porque os carrinhos se tornaram complexos demais embora ela tenha ficado surpresa com o sistema de viagem 3D dos pequenos veículos, com rodas giratórias que podem ser trancadas e confortáveis sacos de dormir.

Na verdade, a preocupação está relacionada à posição do pequeno: no carrinho, a maioria deles fica virada para fora, ao contrário da direção da pessoa que o empurra. Isso significa que a mãe e o bebê não podem se comunicar. Para Liz, que incentiva os pais a conversarem mais com seus filhos, as novidades dos veículos modernos nem sempre são boas.

– Conhecemos problemas de comunicação, e os carrinhos não estão ajudando os pais a falarem com os filhos– diz.

Para a pesquisadora, conversar com os bebês pode ser tão essencial quanto trocar suas fraldas. Ela acha que sussurrar, conversar e cantar deveria ser uma regra, porque a freqüência com que os pais falam com os filhos influencia em tudo, não somente na forma de como aprendem a se expressar, mas também na habilidade de fazer amigos e progredir academicamente.

– Muitas crianças iniciam a escola conhecendo apenas algumas palavras e não estão aptas a construir sentenças, o que pode provocar problemas comportamentais, fracassos em exames e até delinqüência – explica Liz.

As críticas que podem assustar os pais provém de um estudo feito no mês passado por Suzanne Zeedyk, da Escola de Psicologia da Universidade de Dundee. A pesquisa observou 2.722 crianças em carrinhos de 60 cidades do Reino Unido e fez a seguinte pergunta: a direção do carrinho altera o tipo de interação entre pais e filhos? Em uma segunda etapa, foram analisadas com detalhes a relação de 20 mães e seus bebês.

– Os dados mostram claramente que os carrinhos voltados para fora oferecem dificuldades para interagir com as crianças – conclui Suzanne.

O estudo também confirmou que o carrinho preferido pelos pais pesquisados é justamente o criticado pelos especialistas. Para Liz, os resultados significam que muitos pequenos estão deixando de receber atenção dos pais.

Mas, para a família, Suzanne admite que, se a criança for carregada por um período curto de tempo, as habilidades de comunicação não serão tão prejudicadas. O problema é que, de acordo com o NLT, as crianças geralmente ficam sentadas ali entre meia hora e duas horas por dia. Se os bebês passarem longos períodos sem encontrar os pais, isto pode ser prejudicial para o desenvolvimento. E mais: bebês em carrinhos voltados para dentro têm duas vezes mais probabilidade de estarem dormindo do que se estivessem sentados de frente para o “mundo”. A diferença seria a responsável por mudar os níveis de estresse:

– Se a criança é empurrada para baixo e vê coisas grandes à frente, ficará ansiosa. Talvez ela fique desconfortável ou comece a chorar. Será que o pai percebe, se aproxima e diz: querido, tudo bem? Ou deixa que o bebê lide com o estresse do jeito que quiser?

Com tantas polêmicas, o ideal é nunca deixar de espiar o bebê e aproveitar para começar desde cedo o diálogo com o seu filho.

Além de passear, estimule o bebê

Por mais que os pais não percebam, até mesmo o sorriso das crianças pode ser influenciado pela maneira com que elas são transportadas. De acordo com um estudo da Escola de Psicologia da Universidade de Dundee, dos bebês pesquisados, apenas um deles sorriu durante um passeio em carrinho com o assento virado para fora. Na viagem com o veículo de frente para os pais, 10 bebês sorriram. Para Suzanne Zeedyk, doutora da Escola, a necessidade de comunicação com os bebês é mais urgente do que nunca.

– O cérebro deles está se desenvolvendo rapidamente entre o nascimento e os cinco anos, de forma que jamais se repetirá. Os bebês não são seres inertes, mas têm cérebros com neurônios abundantes, apenas esperando para serem conectados. Gosto de ver isso como a construção de estradas rápidas no cérebro. Se a estrada não for construída, os neurônios morrem – explica.

Mas será que um dos benefícios dos carrinhos é que eles permitem aos “passageiros” uma tranqüilidade por longos períodos, dando às mães exaustas uma folga bem-vinda?

– Sim, os pais querem um pouco de paz. Mas se nós não pudermos encontrar algum equilíbrio entre a paz dos pais e a necessidade dos bebês haverá, na verdade, mais ansiedade e mais dificuldade – afirma Suzanne.

Enquanto as mães acalmam os recém-nascidos em alguns carrinhos, crianças de seis meses ou mais precisam ser sempre estimuladas.

– Os pais são mais suscetíveis a alimentar habilidades verbais de uma criança quando passam com ela um tempo agradável, sentados em um ambiente calmo, sem distrações externas – diz Suzanne.

– O que os pais não percebem é que eles são o estímulo de que seus filhos precisam. Ver o mundo passar pelo lado sem intermediários é assustador – diz Liz Attenborough.

A ironia, é claro, é que os pais são incentivados a pensar que é muito mais estimulante para os bebês enfrentar o mundo depois dos seis meses de idade. Entretanto, a criança aprende muito pouco. Para provar a opinião, Thirza Ashelford, diretora da escola de babás Norland College, fez um filme de 25 minutos de passeio com um carrinho, a partir de um ponto de vista da criança.

– Entorpece a mente em seu próprio tédio e envolve pelo horror. Você não vê nada, a não ser a parte de trás das pernas das pessoas e prateleiras de lojas. Quando se espera para atravessar a rua, um caminhão passa a uma polegada do nariz da criança – relata Liz.

Especialistas que levantam a polêmica sobre o carrinho dos bebês desejam que todos tenham consciência de que conversar com o bebê é tão importante quanto a alimentação, limpeza e o calor.

– Não acredito que as pessoas não conversem deliberadamente com os seus filhos. Uma das razões que encontram para não conversarem é que não sabem o que dizer, então não dizem nada, o que dá vontade de chorar, com toda a franqueza – afirma.

Para a especialista, não é necessário falar sem parar com a criança, mas fazer coisas simples, como brincar com os livros, cantar e ler poesia infantil são ótimas maneiras de formar vínculos. Há muitas oportunidades ao longo do dia, e sair para passear é uma delas.

Modernidade atrapalha

Conversar com a criança desde cedo é um assunto sério, uma atitude para o bem comum. De acordo com a criadora da campanha Talk to Your Baby, Liz Attenborough, alguns aspectos da vida moderna inibem esse processo, como a televisão, o rádio, os iPods, os telefones celulares e as babás que não falam o mesmo idioma da criança.

– As pessoas acreditam estar fazendo a coisa certa quando contratam alguém para cuidar dos filhos, mas não percebem se essas pessoas estão realmente comprometidas com a criança – alerta a especialista.

De que lado eu vou

Celebridades como Gwyneth Paltrow vêm sendo alvo de observações devido aos modelos de carrinho de bebê. Em 2004, a atriz passeava com veículo infantil extremamente caro, no qual o bebê fica virado de frente para o condutor. A especialista Liz Attenborough ficou maravilhada ao ver as fotos da mulher interagindo com a filha enquanto as duas passeavam.

Mas recentemente ela foi fotografada carregando os filhos com outros modelos. Um deles era um carrinho duplo, equipado com pneus de ar, quatro acentos ergonômicos, várias posições com design de dois andares, onde uma criança pode sentar acima da outra.

– Neste tipo de carro, as crianças não têm espaço para levantar as mãos e não podem interagir. Elas ficam acomodadas em um local onde deveriam estar as compras – diz Liz.

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