Crise inspira mulheres a dominar questões financeiras

Insegurança de momentos conomicamente instáveis serve para repensar gastos

Repensar o orçamento e corrigir rotas são sinais de inteligência financeira e de maturidade emocional
Repensar o orçamento e corrigir rotas são sinais de inteligência financeira e de maturidade emocional Foto: Ricardo Chaves

Pílula (maternidade opcional) + divórcio (marido opcional) + mercado de trabalho (lida doméstica opcional) = mulheres mais felizes (ou, no mínimo, com mais escolhas). Quem disse mesmo que somos ruins de contabilidade? Foi essa equação (inexata) aí do início a responsável por acrescentar ao nosso figurino um acessório que não sai mais de moda: a carteira, separada da do marido ou do pai e, o principal, a autonomia no trato com o dinheiro.

Autonomia conquistada na marra, com o fim da tutela financeira, e ainda mais valorizada – e necessária – para manter as contas no positivo em tempos turbulentos como o atuais, em que bancos quebram, ações despencam, a empresa corta despesas e o amigo, quem diria, perde o trabalho e precisa renegociar as mensalidades da escola do filho.

– Quem não tinha reservas vive pior, mas, no geral, as pessoas compram menos, viajam menos, saem menos. Além disso, crise pode afetar as relações, deprimir as pessoas – diz a psicóloga Stella Galbinski Breitman, garantindo que, apesar de grandes compras normalmente serem adiadas nesses períodos, conhece mulheres que jamais irão abrir mão do cabeleireiro preferido, do xampu caríssimo e do botox.

E essas que esbanjam em períodos inseguros geralmente se encaixam num padrão: ou tem um saldo bancário muito generoso para torrar ou ainda são dependentes financeiramente.

– O curioso é que as que são dependentes justificam os excessos no shopping dizendo que é melhor gastar o dinheiro do marido do que deixar que ele gaste com outras – conta, bem-humorada, a psicóloga Maria Tereza Maldonado, do alto de uma experiência de décadas de consultório e 25 livros publicados.

Mulheres carregadas de sacolas (que, às vezes, escondem dos maridos ao chegar em casa), gastando um dinheiro que não ajudaram a ganhar, são cada vez mais exceções num país onde cerca de 30% das famílias são chefiadas pelo sexo feminino. E onde nada parece mais antiquado do que uma relação formada por um homem que só abastece a conta conjunta e por uma mãe que só cuida das crianças.

– Há muitos homens excelentes cuidadores. A tendência é uma partilha das funções, onde os dois trabalham e cuidam dos filhos e da casa – explica Maria Tereza.

O acesso aos extratos bancários da própria conta, franqueado por esse novo modelo de partilha, parece ter feito muito bem às mulheres, que já arriscam incursões em territórios antes exclusivamente masculinos, como a análise do sobe-e-desce dos gráficos da bolsa de valores.

– Ao entrar num carro, a mulher costuma ajustar o cinto e o retrovisor antes de dar a partida. Na bolsa é a mesma coisa. Somos mais cautelosas e precavidas – argumenta a administradora Viviane de Oliveira, da Capital, que desistiu de seguir a tradição familiar de investir no varejo de confecções ao descobrir, por intermédio do marido, especialista em ações e afins, o mundo emocionante – e perigoso, às vezes – das aplicações no mercado de capitais.

– Não quero fazer outra coisa na vida – garante a aplicadora, feliz.

Em relação à cautela que Viviane acredita ser típica do sexo feminino, há controvérsias.

– São estereótipos. Há homens muito mais cuidadosos e emotivos que mulheres, meninas jogam futebol muito bem – diz Stella, defendendo que, nos tempos atuais, não há mais uma mulher, mas muitas, algumas sozinhas, outras separadas, outras mães solteiras, todas diferentes.

Mesmo assim, há transições comuns.

– A primeira menstruação, a maternidade e o fim do ciclo reprodutivo são passagens da vida das mulheres que podem se transformar em crises – avisa Maria Tereza.

Do que depende para virar crise?
Do nosso jeito.
Único.
Assim como a fatura do cartão de crédito.

Dilemas do bem

Quando o filho Gabriel nasceu, em 2004, o tempo – ou a falta dele – virou um dilema para a economista Kelly Hertel, 29 anos, de Porto Alegre. As viagens frequentes e as jornadas de 12 horas, exigências do trabalho na empresa de importação e exportação, não combinavam com as do garotinho sorridente que a mãe estampou até em ouro, na corrente que carrega junto ao peito.

Kelly largou o trabalho, terminou o mestrado e passou a ter mais horas livres para embalar Gabriel na pracinha. Ou então para nadar, um na companhia do outro, prazer do qual Kelly não abre mão nem na mais terrível das crises. E foi uma delas, no final do ano passado, a ditar novamente o rumo da vida da economista, até então uma operadora esporádica da bolsa de valores. Diante de um mercado completamente atrapalhado em função da crise financeira mundial, Kelly e o marido, administrador e também operador, teriam de fazer uma escolha para garantir a renda familiar: um dos dois aprenderia, mais a fundo, a operar na bolsa em baixa.

– Ele ficou com o trabalho fixo e eu arrisco – explicou a jovem, que faz cursos para saber aplicar, sem vacilos, o dinheiro da venda de um apartamento.

Só não dá para acompanhar a abertura do pregão, às 11h, porque a manhã é do Gabriel. As tardes são de análises de gráficos, Dow Jones, ações, rotina que ela encampou com entusiasmo. E com a cautela que ela considera um trunfo do sexo feminino.

– O homem é mais agressivo e acaba perdendo mais. A mulher age de forma mais paciente, afinal esperamos nove meses numa gestação – argumenta, sacando da bolsa pousada ao lado do laptop um exame de gravidez buscado no laboratório naquele mesmo dia. Com resultado positivo.

Dilemas do bem

Até o gato Merlin foi afetado pela turbulência que sacode a economia global. Indiretamente, é claro, desde que sua dona, a administradora Patricia Tong, 51 anos, incluiu os gastos com banho, ração e veterinário dos bichanos da casa (Merlin e Suzy) na planilha mensal de despesas. Planilha que ela já fazia antes de setembro de 2008, mês em que a crise norte-americana quebrou instituições financeiras, jogou para baixo os preços de imóveis e ações e se alastrou pelo mundo. Só que antes a planilha era diferente, sem os detalhamentos que a atual exibe na tela do computador.

– Diante dessa insegurança geral, decidi saber exatamente para onde vai meu dinheiro – argumenta a mãe de dois jovens que atua numa empresa de mercado de capitais.

Decisão que a fez tomar um susto logo no primeiro mês de contabilidade minuciosa, em outubro. Só os gastos com barzinhos e restaurantes totalizaram R$ 600 no item refeições fora de casa.

– É muito. Agora tenho me alimentado mais em casa, inclusive com ingredientes mais saudáveis. É melhor para o bolso e para a saúde – explica a moradora de Porto Alegre que garante nunca ter entrado no negativo e nem ter precisado de empréstimo pessoal.

Esse “precisar”, aliás, faz toda a diferença na relação das mulheres com as finanças.

– A tirania da juventude eterna atinge muito mais as mulheres, e o mercado está sempre oferecendo soluções mágicas e rápidas. A mulher deveria deixar sua sensibilidade atuar mais para ser capaz de detectar o que realmente importa e se proteger dos gastos excessivos e desnecessários – ensina a psicanalista Márcia Tolotti.

Gastos que as mulheres fazem, na maioria dos casos, no “piloto automático”.

– Há muitas que ainda não descobriram a relação das emoções com o consumo, ainda não tiveram esse insight – garante a matemática Sandra Blanco. Ao que tudo indica, não é o caso da dona de Merlin.

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